A Aviação na última década: Desenvolvimento do Setor e Regulação.

PR-ZEY-copy11A última década na Aviação Brasileira e Mundial tem sido de grandes mudanças: a evolução da tecnologia impulsionou o desenvolvimento do setor e o mercado tem se adaptado cada vez mais às oscilações devido a crises e ao surgimento de novos conceitos.

Esse texto tem por objetivo destacar as principais mudanças e evoluções da aviação, e a sua regulação na última década.

O dia em que a Aviação dos EUA parou.

O início do século 21 foi marcado pelos atentados terroristas em Nova Iorque, que geraram um choque de segurança na aviação americana, refletindo-se também no restante do mundo.  A segurança foi reforçada nos aeroportos, o acesso à cabine por não tripulantes se tornou bastante restrito, mas, mesmo com essas medidas, o sentimento de insegurança permanecia e o setor enfrentava uma forte retração principalmente nos Estados Unidos.

Muito do desenvolvimento da segurança aeronáutica deveu-se às ações contra interferência ilícita, como no caso da criação da agência de segurança TSA – Transport Security Administration, que assumiu por completo o processo de revista e verificação de segurança no embarque e desembarque de passageiros. A agência tem como marca a sua forte fiscalização, com scanners corporais de três dimensões, que abriram debate sobre a violação de privacidade.

Atualmente, o passageiro tem a opção de escolher entre o detector comum ou o scanner 3D. Porém, acaba sendo induzido ao scanner, já que a disposição dos dois aparelhos faz com que o scanner fique no caminho normal do passageiro, enquanto que o detector fica em uma posição mais afastada. Também surgiram reclamações sobre itens roubados após a inspeção de bagagem despachada, também feita pela TSA, sem a supervisão do passageiro.

A agência ainda é motivo de reclamações, apesar do claro aumento na segurança do lado ar do aeroporto. Apesar dos contratempos, o número de interferência ilícitas caiu pela metade após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Segundo dados da organização Flight Safety Fundation, de 1995 até o atentado terrorista de 2001 foram registrados 106 casos de interferência ilícita em aeronaves. Após o choque de segurança, o número caiu para 50 casos entre 2002 e 2015.

Southwest Airlines redefiniu o mercado com o conceito Low-Cost Low-Fare.

Low Cost, Low Fare: Voando Barato

No outro lado do Atlântico, o passageiro Europeu experimentava as companhias aéreas Ryanair e EasyJet, que passavam a incorporar o conceito americano Low-Cost, Low-Fare. 

Este conceito foi criado após o ato de desregulamentação de 1978 nos EUA, e tem como maior símbolo a companhia Southwest Airlines que, com uma frota padronizada de Boeings 737, liberdade para cobrar por bagagens e com um serviço de bordo básico, conseguiu reduzir o seu custo operacional significativamente. Logo repassou essa redução ao consumidor final, que considerou muito vantajoso voar a preços baixos mesmo que o serviço seja mais simples e com menos conforto.

A União Europeia seguiu o exemplo com unificação do seu espaço aéreo e fim de regulação sobre as companhias aéreas. De 1997 em diante, qualquer companhia aérea baseada em um estado membro do bloco poderia efetuar voos entre duas cidades de qualquer outro país do grupo, não mais restringindo-se a operar voos a partir de seu país de origem. Desde então, o mercado sofreu crescimento anual de até 5% na quantidade de passageiros transportados e de 7% na quantidade de cargas transportadas. Tal efeito durou até 2008, quando a crise econômica originada nos Estados Unidos chegou à Europa.

O conceito implantado nos EUA e na Europa chegaria ao Brasil em 2001, através da GOL Linhas Aéreas Inteligentes. A companhia inovou ao vender passagens a baixo preço, inclusive abaixo de R$100, algo impensável para a época. Logo a empresa atingiu uma boa popularidade e, apenas três anos após sua fundação, já detinha 20% do mercado e mais de 11 milhões de passageiros transportados. Seguindo o mesmo modelo, foi lançada em 2005 a companhia WebJet Linhas Aéreas, com destaque para diversas promoções exclusivas do seu canal de vendas online.

O movimento Low-Cost, Low-Fare aumentou a concorrência em todos os países nos quais foi implantado, tendo sido muito benéfico para o passageiro. Porém, após alguns anos, foi possível observar uma consolidação do mercado, com diversas fusões entre as companhias aéreas e também aquisições de empresas menores, um auto ajuste do mercado com uma leve redução no número de players. Para citar alguns exemplos, s Southwest Airlines adquiriu em 2011 a AirTran Airways e, no Brasil, a GOL comprou a Webjet. Enquanto isso, algumas empresas tradicionais como a PanAm, perderam mercado para as low-costs e fecharam as portas.

O impacto da desregulação na segurança da aviação

O efeito da desregulação também atingiu a formação de pilotos. Em 2009 o voo 3407 da Colgan Air, operado sobre a marca Continental Connection pertencente à gigante do mercado Continental Airlines, entrou em estol e colidiu contra o solo enquanto se aproximava do aeroporto de Buffalo, no estado americano de Nova Iorque, matando todos os 49 passageiros e tripulantes, além de uma pessoa em solo. Investigações do acidente apontaram como causa do acidente a má resposta da tripulação sobre um aviso de estol, provavelmente causada por treinamento deficiente e fadiga.

A Colgan Air era uma companhia aérea regional que operava sob um contrato especial com a Continental. Neste contrato a Continental compraria a aeronave e iria comercializar os voos realizados neste avião, que seria alugado à Colgan Air, sendo esta responsável por operar e manter o avião, providenciando tripulação e manutenção para a aeronave. A companhia regional por sua vez iria receber um valor pré-determinado por voo completado nas rotas definidas pela Continental. Este modelo fora seguido por outras grandes companhias aéreas para atender o mercado regional, reduzindo custos pela terceirização do serviço.

As investigações do acidente do voo 3407 apontaram que a Colgan falhou em verificar o treinamento dos pilotos, e também colocava os tripulantes a trabalhar em uma carga horária acima do limite previsto em lei. Um dos pilotos no voo 3407 tinha sido reprovado três vezes em um voo de cheque, além de possuir experiência relativamente baixa como piloto de linha aérea.

Foi discutida a responsabilidade da Continental Airlines sobre a fiscalização de sua terceirizada, principalmente pelo fato de os passageiros estarem comprando as passagens pela Continental, esperando um serviço com qualidade e segurança da grande companhia americana.

Como consequência deste acidente, a agência americana de aviação, a FAA, elevou o número de horas necessárias para ser piloto em uma linha aérea, que antes era de 250h de voo, para 1500h totais a partir de 2013. A medida foi seguida pela EASA – European Aviation Safety Agency – e também agências de outros países.

Este aumento de requerimentos causou um efeito indesejável no mercado: a falta de pilotos. Recentemente a gigante regional Republic Airways entrou em processo de recuperação judicial, e o principal motivo seria a falta de pilotos e consequentemente um número menor de rotas. A nova regra para ingressar em linhas aéreas tem afastado pilotos que, ao atingirem o mínimo de experiência necessário, não buscam as companhias aéreas por já se encontrarem em um emprego estabilizado, com um salário superior e menos estressante que a rotina de uma companhia aérea. A falta de pilotos por enquanto afeta só as regionais, mas ao que tudo indica, em breve irá afetar grandes companhias aéreas se nenhuma mudança regulatória for feita no curto prazo.

Boeing 777 Cockpit

Gestão de Cabine é parte indispensável do treinamento atual de pilotos.

A formação de pilotos na última década

Com a redução de acidentes aéreos causados por falhas mecânicas e o mercado em crescimento, diversos acidentes provocados por erros humanos começaram a se destacar nos últimos 10 anos. O uso de simuladores deixou de ser um luxo adicional, passando a requisito obrigatório e eliminatório na hora da contratação.

Durante a última década diversos métodos e práticas foram desenvolvidos e aplicados para uma maior segurança. Um dos mais visíveis, e hoje critério indispensável para pilotos que aspiram a uma vaga em linha aérea, é o Crew Resource Management, o conhecido CRM. Apesar de ter sido criado no início da década de 80 após estudos da NASA sobre a relação e comunicação na cabine de voo, o CRM se tornou padrão para grandes companhias aéreas apenas no final da década de 90. Nos dias atuais, é matéria obrigatória em universidades com cursos de formação aeronáutica, tema que é reforçado dentro das companhias aéreas com suas universidades empresarias, que moldaram o CRM de acordo com o perfil da companhia, trazendo segurança através da padronização de operações.

Um dos métodos também adotados foi o Safety Management Systems – SMS, em português Sistema de Gerenciamento de Segurança Operacional – SGSO. Este sistema foi consolidado pela ICAO em 2010 pelo Anexo 19. O fator principal do SGSO é a segurança operacional aliada à viabilidade financeira da empresa. Os métodos deste sistema permitem uma operação segura e rentável, com julgamento e gerenciamento de possíveis riscos sobre a atividade aérea ali realizada. Este sistema hoje é adotado pelas principais agências de aviação no mundo e é um dos símbolos da nova geração da aviação, segura e próspera. No Brasil a sua adoção é obrigatória para provedores de serviço aeronáutico como aeroportos, empresas que realizam Serviços Aéreos Especializados e Serviços Aéreos Regulares. A fiscalização do sistema fica a cargo da ANAC, através do seu Programa de Segurança Operacional – PSO.

Em um recente Panorama divulgado pela Boeing, serão necessários 617 mil novos pilotos até 2035, boa parte desse número impulsionado pelo crescimento exponencial do mercado das Low-Costs chinesas e do restante da Ásia. A região é atualmente a “galinha dos ovos de ouro” para as fabricantes de aeronaves.

O mercado asiático não aponta para uma consolidação a curto prazo e tem sido o alvo de diversos pilotos brasileiros devido aos seus altos salários e uma certa estabilidade econômica.

Porém nos últimos anos esta região tem tido uma grande concentração de acidente aeronáuticos apesar do grande esforço de melhoria de treinamento da tripulação, com formação de pilotos no exterior desde o início da carreira.

Eficiência é a palavra-chave da indústria

Nos últimos anos, as três maiores fabricantes de aeronaves, Airbus, Boeing e Embraer, lançaram novas aeronaves originárias de projetos totalmente inovadores. Respectivamente, o A350, o 787 e o E190-E2 têm algo em comum em seu conceito: eficiência energética.

O Boeing 787 e o seu concorrente, o Airbus A350, são feitos em sua maior parte, de materiais composto, sendo a maior parte constituída de fibra de carbono, também usado no Embraer E190-E2. O material tem se tornado popular devido à leveza, associada à sua grande resistência, provida pelo carbono, quando ligado a outros polímeros.

Além do grande uso de carbono em novas aeronaves, a indústria tem usado motores ultra eficientes como maneira de reduzir o impacto ao meio ambiente e melhorar a eficiência no consumo de combustível. Novos motores à reação com caixa de transmissão, os geared turbofans, permitem ao ventilador (fan) ter uma velocidade de rotação menor que os compressores, resultando em uma maior taxa de bypass e, consequentemente, uma maior economia de combustível, além de uma redução significativa de ruído, que nos últimos anos tem se tornado uma exigência para operar em aeroportos de grandes cidades.

A fibra de carbono também foi usada nos novos motores, em suas pás e cases, reduzindo o peso e aumentando a tolerância ao calor, assim permitindo um melhor envelope de voo. Recentemente, uma frase tem sido repetida no meio aeronáutico e tem se provado verdadeira: “primeiro se desenvolve um motor e depois o avião para ele.”.

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As ações que estão definindo a próxima década

A aviação é um dos meios de transporte de massa mais recentes do planeta e, mesmo assim, é o que mais evoluiu desde seu surgimento no início do século passado. Na última década foram tomadas diversas ações que levaram a uma aviação mais segura e a um constante crescimento do setor.

A globalização tem sido um grande personagem para essas ações, permitindo análise rápida de mercado, compartilhamento de ações preventivas e corretivas para segurança aeronáutica, além de tornar a aviação mais popular: a 10 anos atrás, o ato de comprar passagens pela web era algo muito difícil e restrito; hoje é o principal meio de vendas das companhias aéreas, com algumas companhias utilizando-se apenas deste meio.

A popularização do voo de passageiros só foi possível em função da grande evolução da indústria para aeronaves mais econômicas, juntamente com a atuação correta e precisa dos órgãos reguladores. Estes órgãos vêm acompanhando a globalização e hoje permitem uma aviação melhor e de acordo com os anseios da população, com constantes debates sobre os próximos passos a serem tomados.

Por fim, a aviação está em constante metamorfose evoluindo na velocidade do som. Apesar do momento de recessão econômica que o Brasil e parte da América Latina enfrentam, é necessário entender que o setor é marcado por ciclos. Portanto, acompanhar de perto como a nossa aviação está se desenvolvendo e como melhorá-la são premissas fundamentais. Com a maior participação de todos os envolvidos na atividade, como passageiros, tripulantes, reguladores, empresários e outros, é possível manter a aviação brasileira em ciclos virtuosos por mais tempo e servir como grande incentivo para o desenvolvimento tecnológico do país, conectando de ponta a ponta a sociedade brasileira.

 

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é piloto e Bacharel em Ciências Aeronáuticas. Formado em Design e Performance de Aeronaves pela California State University Long Beach e Segurança da Aviação pela Western Michigan University. Membro da AOPA e da AIAA.