Após 76 anos, Exército Brasileiro voltará a ter aviões próprios

C-23B Sherpa | Foto: Guarda Nacional dos EUA

O Exército Brasileiro, através do Boletim de número 32, portaria nº 067, implantou o Projeto Modal Aéreo na Amazônia, que tem como objetivo principal melhorar a logística na região amazônica através da utilização de aeronaves C-23B+ Sherpa, da fabricante britânica Short Brothers, hoje controlada pela canadense Bombardier. Este projeto significa a volta de aeronaves de asa-fixa ao Exército Brasileiro, que desde 1941 ficou limitado ao uso de outros meios aéreos devido ao decreto presidencial que criou a Força Aérea Brasileira na época, e que deu exclusividade à FAB sob operações com aviões.




Há alguns anos o Exército Brasileiro estava procurando voltar a ter aviões em seu inventário, que hoje conta apenas com aviação de asa rotativas (helicópteros). O principal motivo para a vontade era a independência de recursos da Força Aérea Brasileira sobre logística aérea e, principalmente, reduzir os gastos com helicópteros, que possuem um custo maior de hora de voo e manutenção do que aviões.

O cenário na Amazônia é desafiador, pois a floresta é densa e quente, características que impedem uma boa infraestrutura aeroportuária e limitam a performance das aeronaves. A situação foi evidenciada em 2011 quando um helicóptero Cougar do Exército sofreu uma pane no motor e fez um pouso forçado. A aeronave não sofreu grandes avarias, mas o seu motor precisou ser trocado. Uma difícil operação de dois meses foi montada na época para levar o motor até o local e permitir que os mecânicos pudessem fazer a troca.

Segundo o Boletim do Exército, em torno de 30% das horas voadas no 4º Batalhão de Aviação do Exército (4º Bavex), sediado em Manaus, são missões de logística. O custo será reduzido com a aquisição de 04 Short C-23B+ Sherpa dos estoques da Força Aérea dos EUA (USAF). Uma estimativa do Comando de Logística (COLOG) aponta para um custo 39% menor na operação do Sherpa por quilograma transportado quando comparado com fretes feitos por empresas aéreas civis na região.

A caixa de sapatos voadora

C-23 Sherpa utilizado pela NASA para medições de mudanças climáticas no Círculo Polar Ártico. | Foto: Divulgação

O último modelo de aeronave fabricado pela Shorts parece literalmente uma caixa de sapatos com asa. Mas, apesar do desenho nada comum e feio para muitos, são aeronaves muito práticas e reconhecidas por isso. O C-23B+ Sherpa é a versão militar do civil Shorts 360, bastante operado no Caribe devido sua capacidade de passageiros (36) e também sua grande capacidade volumétrica de carga e ótima performance em pistas curtas.

A principal diferença entre o Shorts 360 e o C-23 Sherpa é a empenagem (cauda). Na versão civil é uma cauda tradicional, enquanto na versão militar é uma cauda dupla devido à instalação da grande porta traseira de carga, principal diferencial frente aos seus concorrentes. Com capacidade de até 4 toneladas de carga útil, pode levar facilmente diversos tipos de carga, como um motor de aeronave, macas para missões aeromédicas ou um pelotão de tamanho médio.

Motor de aeronave é carregado em um Sherpa durante o Exercício Salty Demo | Foto: Departamento de Defesa dos EUA

O Sherpa, assim como o Shorts 360, foram produzidos na década de 80. As quatro unidades oferecidas para o Exército Brasileiro foram fabricadas em 85 e 86. O modelo serviu nos EUA na Guarda Nacional e ainda está na ativa na USAF e NASA. Sua origem civil e capacidade STOL (pousos e decolagens curtos) fez com que a aeronave fosse usada em diversas missões de forças especiais.

As aeronaves irão servir no Exército Brasileiro por cerca de 15 anos, quando termina o ciclo de vida da aeronave. Ainda não existe uma data para recebimento da aeronave e tão pouco o valor a ser investido nesta aquisição. Também estão previstas adaptações e construções de instalações na 4º Bavex e na Base de Aviação do Exército em Taubaté, São Paulo.

Apesar de não ter acontecido uma disputa formal, foram  também apresentados ao Exército os concorrentes M-28, da polonesa PZL, e o canadense DHC-6 Twin Otter, o qual tivemos a oportunidade de voar e comprovar sua versatilidade.

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é piloto e Bacharel em Ciências Aeronáuticas. Formado em Design e Performance de Aeronaves pela California State University Long Beach e Segurança da Aviação pela Western Michigan University. Membro da AOPA e da AIAA.

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