Conhecemos os bastidores da LATAM em Congonhas

ESPECIAL 

No último dia 15 fomos convidados pela LATAM para conhecer os bastidores da companhia em seu histórico hangar no Aeroporto de Congonhas. Nesta visita conhecemos um pouco do sistema de segurança FOQA, do Centro de Controle de Operações Aéreas (CCOA) e da sua oficina de manutenção em motores e rodas.




Fomos recebidos no Hangar 2 da LATAM pela Aline Martins, da Diretoria de Assuntos Corporativos, e o piloto-chefe da LATAM Brasil, Comandante Celso Giannini. A primeira parte da nossa visita foi até a sala de debriefing do sistema FOQA, do inglês Flight Operational Quality Assurance, que significa Garantia da Qualidade Operacional de Voo, um programa bem conhecido entre tripulantes e pessoas da área, mas ainda assim pouco falado.

Nesta sala o Consultor de Segurança Operacional da LATAM Brasil, Gabriel Gregio, que também é Primeiro-Oficial no Airbus A350XWB, nos recepcionou e explicou um pouco sobre o sistema FOQA, que por falta de conhecimento é tratado como “Dedo duro da Aviação”. Conhecido também como Sistema de Monitoramento de Voo, com a sigla em inglês FDM, o sistema FOQA foi introduzido no mundo nos anos 2000 através de uma recomendação da ICAO (Organização Aviação Civil Internacional) pelo Anexo 6, que recomendava a implementação deste sistema em todas as companhias aéreas sob a legislação de cada país.

Mas por que é chamado de Dedo Duro? 

Comandante Gabriel nos motra o sistema CEFA

O FOQA basicamente é instalado na aeronave como um FDM, monitorando e salvando todos os dados da aeronave, como altitude, potência, inclinação das asas e atitude do avião. É uma “espécie” de caixa preta, mostrando todos os detalhes do que estava acontecendo na aeronave naquele exato segundo. A diferença entre a caixa preta e o FOQA é a finalidade: a caixa preta tem como função ajudar os investigadores a solucionar o quebra-cabeças de um incidente ou acidente aéreo, enquanto o FOQA tem a finalidade de garantir a qualidade na empresa e reinstruir os seus pilotos em caso de alguma atitude fora do padrão previsto.

É neste ponto de monitoramento das ações que é possível a reinstrução, e que muitos pilotos consideram que o FOQA “denunciou” o mesmo por uma atitude incorreta, podendo posteriormente causar punição ou demissão. Mas não é isso que acontece, e o Gabriel nos explicou: “O FOQA faz parte da cultura de Segurança de Aviação dentro de uma empresa. A LATAM, na época TAM, foi a primeira a instalar este sistema no Brasil. Desde então os resultados têm sido muito bons, nunca demitimos alguém por isso. Pelo contrário, ocorrem casos em que os próprios pilotos vêm aqui e pedem para dar uma olhada em um voo deles.”

Voo de demonstração com aproximação para a pista 02R no Santos Dumont

Atualmente toda a frota da LATAM possui o sistema FDM para capturar as informações a serem utilizadas. Assim que a aeronave pousa em qualquer aeroporto, em 90% da frota os dados são transmitidos via 4G ou Wi-Fi por uma rede segura até a empresa. O restante da frota ainda conta com sistema manual, em que os dados precisam ser removidos da aeronave por um cartão de memória e enviados por um computador. A sala de debriefing é equipada com o simulador de voo da francesa CEFA Aviation, que compila os dados do FDM e gera uma visualização 3D fiel da aeronave, sua rota e seus instrumentos. Uma ótima ferramenta que ajuda o piloto na compreensão das suas ações durante o referido voo.

Uma grande pergunta, ainda pertinente no meio, é sobre a possível punição. Gabriel ressaltou que isto só ocorreria em casos extremos, e assim como os procedimentos comuns no sistema FOQA, o procedimento de punição é regido pela Instrução de Aviação Civil (IAC) 119-1005, que trata sobre Programa de Acompanhamento e Análise de Dados de Vôo (PAADV). Num caso extremo, um conselho formado pela companhia, sindicato dos aeronautas e associação de tripulantes da empresa se reuniria para discutir e decidir uma punição cabível. Vale lembrar que a identidade do piloto é sempre preservada.

Fato interessante e que ressalta a política de segurança de voo na aviação nacional são as reuniões entre os times de Segurança Operacional das empresas aéreas. “É muito interessante o que as outras companhias como GOL, Azul e Avianca trazem nesses encontros. Sempre há uma troca de experiências, compartilhamos novidades e falamos sobre alguns casos”. Desde a implementação do FOQA na LATAM Brasil, os eventos fora do padrão reduziram em torno de 70%, aumentando a segurança na companhia.




O Centro de Controle de Operações Aéreas, também conhecido como sala da NASA ou Houston Center

Após conhecermos a parte de Segurança Operacional, fomos para o centro nervoso da LATAM, o Centro de Controle de Operações Aéreas (CCOA), uma grande sala com um imenso painel e diversas estações de trabalho, que tem como função principal monitorar todos os voos da companhia e mantê-los no horário.

De início a sala impressiona por sua movimentação. Funcionários sempre concentrados, trocando informações e fazendo ligações. É uma mistura do ambiente de uma bolsa de valores com as salas da NASA que monitoram suas missões pelo espaço. Nela fomos recebidos pelo Edson Costa, Gerente Sênior de Execução de Escala, umas das áreas que integram o CCOA.

Edson nos mostrou o grande painel formado por 12 telas, e nos explicou o que é mostrado em cada tela, de ponta-a-ponta nas duas linhas horizontais. No caso da extremidade superior direita temos a apresentação de quatro horários. Três deles mostram o horário oficial das três principais zonas de fuso horário nas quais a LATAM atua: Brasília, Santiago do Chile e Miami/Assunción. O quarto relogio mostra o horário padrão na aviação, o UTC (horário baseado na hora oficial de Greenwhich, conhecido também como GMT, e que não sofre alteração de horário de verão).

Na tela abaixo dos relógios temos um input das mídias sociais, com tweets de passageiros sobre atrasos/cancelamentos. Pela velocidade que as informações correm hoje nas redes sociais, é comum o passageiro avisar o atraso antes mesmo que uma equipe de solo ou tripulação faça. As informações ali também dão um feedback direto sobre as ações da companhia.

À esquerda das telas de relógio e mídia social temos a escala real das aeronaves, mostrando seus voos e manutenções previstas, além de programações especiais como devolução de aviões e ocorrência de panes.

O meio do painel é o coração do CCOA, mostrando os voos atrasados, cancelados, alternados e os que estavam nestas situações e foram remanejados. Neste último caso, quando o voo está próximo da sua nova partida prevista, ele é destacado em vermelho como atenção, ressaltando a prioridade do mesmo. Mais à esquerda está o painel meteorológico, com uma imagem de satélite em tempo real mostrando a América do Sul e as grandes formações na sua atmosfera. Logo acima estão os aeroportos com meteorologia mais adversa no momento, dando uma ótima predição sobre a possibilidade de voos cancelados.

Por último, mas não menos importante, temos o ranking de pontualidade, elencado pelos principais aeroportos em que a LATAM Brasil opera (Guarulhos, Congonhas e Brasília), e também o ranking geral entre as 4 grandes empresas aéreas do país (LATAM, Avianca, GOL e Azul). Todo o resultado do trabalho naquela sala é visto ali, numa disputa saudável pelo primeiro lugar em pontualidade no final do dia.




Oficina de Motores e Rodas

Motor IAE V2500 durante revisão

Depois de sentir a dinâmica e a grande pressão no CCOA, era hora de irmos para um local mais calmo, onde a pressa é inimiga da perfeição, sempre. A LATAM Brasil tem suas origens no interior do estado de São Paulo como Taxi Aéreo Marília. Dali cresceu e virou uma grande companhia aérea. Foi no interior também que se instalou o seu MRO (Maintenance, Repair and Overhaul). A sua unidade de Manutenção, Reparo e Revisão está localizada em São Carlos, e lá é feita a manutenção pesada das aeronaves, pintura, troca de assentos e muitas outras coisas como já mostramos em um especial de duas matérias.

Mas nem tudo se resume ao MRO de São Carlos. A LATAM construiu sua história na capital, principalmente em Congonhas e região. Os seus hangares no Aeroporto de Congonhas já receberam desde o Fokker 100 até o novo Airbus A320neo, e são mais próximos do dia a dia das operações devido sua localização privilegiada. E é nestes hangares que se localiza a oficina de manutenção de motores e rodas da companhia.

Capacidade da oficina é de até 28 motores

No hangar fomos recepcionados pelo Sergio Novato, Diretor Sênior de Manutenção, e pelo Renato Banchieri de Paula, Gerente de Oficinas. Os dois nos mostraram toda a estrutura da oficina de motores, que tem capacidade para receber até 28 motores de todos os tipos, do “pequeno” IAE V2500 que equipa a família A320 da Airbus (e também o novo Embraer KC-390) até os gigantes Rolls Royce Trent XWB do Airbus A350 e General Eletric GE-90, maior motor a reação do mundo que equipa os Boeing 777-300ER da LATAM.

Na oficina de motores são feitos diversos tipos de atividades, como troca de palhetas da fan (grande ventilador que fica na parte da frente do motor) e do compressor; inspeção boroscópica, a qual uma câmera-sonda é introduzida nas tubulações do motor até a câmara de combustão para verificação visual da situação do interior; e instalação/remoção de motores das aeronaves.

Logo ao lado da oficina de motores está a oficina de rodas, que faz uma detalhada revisão nas rodas das aeronaves, feitas de um alumínio especial. Assim que chega a hora da revisão os pneus são enviados para a Goodyear e as rodas seguem uma espécie de linha de montagem na oficina, realizando testes, reparos e limpeza.

Rodas do A320 tinindo após revisão

Após uma visita de mais de três horas foi possível visualizar um pouco do grande pessoal e estrutura que se tem para manter uma empresa aérea de bandeira em pleno funcionamento, desde a segurança de voo com o FOQA, passando pelo cumprimento de horários no CCOA e finalizando pela manutenção de componentes vitais das aeronaves. Tudo isso com um único propósito: voar. E a LATAM trabalha para isso, e mantém o lema do seu criador, Rolim Amaro: Paixão Por Voar e Servir.

Agradecemos à LATAM Airlines Brasil por esta visita única, em especial à Aline Martins, Érica Arruda, Celso Giannini, Gabriel Gregio, Edson Costa, Sergio Novato e Renato Banchieri. 

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é piloto e Bacharel em Ciências Aeronáuticas. Formado em Design e Performance de Aeronaves pela California State University Long Beach e Segurança da Aviação pela Western Michigan University. Membro da AOPA e da AIAA.

2 Comments:

  1. Parabéns pela reportagem que nos evidencia o compromisso e seriedade com a segurança do setor.

  2. Estas matérias técnicas são as melhores, alem de informar aprendemos muitas coisas, realmente muito interessante.

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