Entrevista exclusiva com o brasileiro que trará o gigante A380 ao Brasil.


No próximo domingo (26) iniciam-se as operações regulares do Airbus A380 no Brasil e na América do Sul. Na cabine de comando, o Comandante João Queiroz Neto, 44, terá a honra do voo inaugural para seu país. Direto de Dubai, ele nos concedeu essa entrevista.



João tem uma história de vida parecida com a de muitos jovens que sonham um dia em se tornar piloto. Nascido em Goiânia e criado no Estado do Pará, foi um dos mais jovens pilotos de Boeing 767 da TransBrasil, aos 19 anos. Pouco tempo depois recebeu o convite para trabalhar na Varig, onde voou como primeiro-oficial até 2006, até que decidiu deixar o país em busca de novas conquistas.

Agora, 10 anos depois, ele volta ao Brasil no comando do maior avião de passageiros do mundo e num momento especial. Veja o que ele tem a nos contar.

 

AEROIN: Comandante, para começarmos esse bate-papo nos conte um pouco da sua jornada?

JOÃO QUEIROZ: Minha mãe é mineira, meu pai é paraense e eu nasci em Goiânia, em 1972. Fui criado no Pará até os 11 anos, na cidade de Marabá pelos meus pais, e depois até os 18 anos em Belém, pelos meus tios Almir e Altair Trindade, meus segundos pais.

Comecei meus estudos como piloto no Aeroclube do Pará aos 16 anos e, em 1990, aos 18 anos, fui para São Paulo tentar uma vaga em uma das grandes empresas de aviação comercial. Fui aprovado em 1991, aos 19, na seleção para a TransBrasil, onde fiz o curso para voar o Boeing 737, mas no final a empresa me comunicou que eu seria alocado como primeiro-oficial no Boeing 767. Isso tudo foi muito rápido e marcante.

Em 1992, durante minha instrução no Boeing 767, a Varig confirmou minha aprovação em seu processo seletivo. Resolvi começar tudo de novo, e em agosto de 1992 iniciei o Curso de Formação de Pilotos da Escola da Varig , na turma 30 da Evaer. Na Varig voei os Boeing 737-200/300 e 700, Boeing 767 e Boeing 777. Quando veio a crise da empresa, resolvi esperar até o final para ver o resultado, que todos nós já sabemos qual foi.

 

A: Quem mais te apoiou nessa brilhante caminhada?

JQ: Minha família sobretudo foi a grande incentivadora, em especial o meu tio Adão Ubiratan, que mora em Goiânia e é um grande apaixonado pela aviação. Também tive o apoio de muitos amigos que me ajudaram e sempre gosto de lembrar de alguns deles.

Um exemplo é o Comandante Junqueira, proprietário da Juta Taxi Aéreo, que sempre me motivou, desde meu tempo de criança. Também meus amigos Marcos Rossy, que me levou pela primeira vez ao Aeroclube do Pará; Paulo Renato, que foi um dos grandes responsáveis pelo meu primeiro emprego como piloto comercial em São Paulo e Francisco Cabral, que praticamente me guiou no inicio da carreira e me apresentou São Paulo. Enfim, sem os amigos não sei como tudo teria sido possível .

 

 

A: Quando a Varig cessou você decidiu sair do país… 

JQ: Confesso que fiquei um pouco decepcionado com a aviação brasileira e então resolvi buscar novos horizontes, novos desafios fora do Brasil. Fiz algumas seleções e, ao final, optei pela Emirates, que me ofereceu um bom contrato de trabalho associado a um boa qualidade de vida.

 

A: Em quais aeronaves você atuou até chegar no superjumbo A380?

JQ: Comecei na Emirates em Julho de 2007 voando A330 e A340, como primeiro-oficial. Em 2009 fui transferido para o A380 e acredito que na época a empresa possuía apenas cinco aeronaves do modelo na frota. Fui o segundo Brasileiro a voar no A380, depois do meu saudoso amigo Pavel Bersan, de Belo Horizonte.

Em 2012 aceitei o convite para retornar à frota do A330 como comandante. Fiz todo o processo de instrução de comando e fiquei no A330 até o inicio de 2016, quando me chamaram para voltar ao A380, já como comandante. Assim, estou praticamente há um ano como comandante no A380.

 

A: Comandar o A380 é muito diferente das outras aeronaves?

JQ: O A380 é uma máquina maravilhosa de voar. O que existe de melhor em tecnologia está presente nesta aeronave. Na cabine de comando, às vezes, você não vê tantas diferenças, mas é uma aeronave bem confortável. Impressiona pelo tamanho e pela quantidade de pessoas que pode levar. São ate 615 passageiros e nos voos mais longos são 4 pilotos (2 comandantes e 2 primeiros oficiais), e 26 tripulantes de cabine.

Mas a grande diferença no A380 está no cuidado especial com a aeronave quando em solo devido ao seu tamanho, pois são quase 80 metros de envergadura de asas. O comandante precisa ter um cuidado especial ao taxiar.

 

 

A: Ansioso para o voo inaugural do dia 26? Ficamos sabendo que muitos tripulantes pediram para fazê-lo.

JQ: Será muito gratificante voltar ao Aeroporto de Guarulhos após 10 anos. Meu último voo foi em 2006 e hoje retorno em uma posição diferente em relação ao dia em que deixei o país. Voltar ao Brasil será um momento único, porque saí com sonhos e vontade de vencer e hoje volto com o sentimento de dever cumprido.

Feliz porque realmente alcancei aquilo que buscava. Não sei quantos se candidataram para o voo, mas acredito que a Emirates tenha me escalado por eu ter sido o segundo brasileiro a entrar na frota do A380, em 2009, depois do Pavel. Me sinto lisonjeado com essa oportunidade.
A: O sentimento de realização é realmente algo tremendo. Olhando para trás, que momento da sua carreira você lembra como o mais marcante?

JQ: Durante os anos que morei em Marabá, quando criança, eu ia ao aeroporto e via os 737 pousando. Isso alimentava o sonho de um dia ser piloto e voar aquele tipo de aeronave. Eu era muito amigo do Adailton, mecânico da VARIG, e ele me levava para o pátio para acompanhá-lo a fazer a checagem externa. Também me levava à cabine e eu me encantava com aquela experiência toda.

Anos depois, já formado piloto, retornei a Marabá voando, como primeiro-oficial da Varig, meus pais e alguns amigos conseguiram autorização para me aguardar no pátio. Quando eu cheguei foi uma grande festa! Foi um dos momentos mais marcante na minha vida!

 




 

 

 

A: Qual mensagem você gostaria de deixar para todos aqueles que sonham em seguir a carreira de piloto e chegar a uma empresa como a Emirates?

JQ: A mensagem que gostaria de deixar aos futuros pilotos e àqueles que têm planos de sair do país é que tudo é possível, desde que você faça com amor e dedicação, acreditando no seu potencial.

Quando comecei na aviação não esperava chegar onde cheguei, mas sempre procurei fazer da melhor forma possível, me dedicando ao máximo. Acredito que quando se trabalha desta forma, tudo vem em consequência. Para quem é piloto eu digo que o melhor lugar para estar é onde você está feliz. Não importa se voa o A380, na aviação comercial ou executiva, o importante é fazer bem feito e ser feliz, respeitando o próximo e se dedicando ao máximo naquilo que faz.

Confesso que estou muito feliz na Emirates. Trabalhar com eles é muito bom. Estou em uma empresa de ponta e me sinto orgulhoso em fazer parte desta equipe.

 

A: Comandante, agradecemos seu tempo, lhes parabenizamos pelas realizações e por nos contar essa história inspiradora. Nos vemos domingo! Um grande abraço.

 

Luis Neves

É agente de turismo e acompanha a evolução da aviação brasileira desde o final da década de 80. Fotografa tudo o que voa e tem uma das maiores coleções de fotos de aviação do Brasil.