Entrevistamos Cristian Bolton, único piloto sul-americano no Red Bull Air Race.

Quando se fala em corrida aérea, um nome vem logo à cabeça do público: Red Bull Air Race. O campeonato que corre o mundo inteiro já teve duas edições no Brasil, onde levou milhares à Praia de Botafogo para ver os melhores pilotos voarem baixo na Baía de Guanabara. A competição continua hoje mundo afora e, representando a América do Sul, temos o habilidoso Cristian Bolton, que nos concedeu esta entrevista.




Cristian Bolton é o primeiro chileno a integrar a Master Class na Red Bull Air Race (RBAR). Mesmo antes de competir no nível de topo pela primeira vez no Indianapolis Motor Speedway, em outubro de 2016, Bolton fez história na América Latina na classe Challenger, conquistando lugares no pódio em oito corridas, incluindo o terceiro lugar na final da Challenger Cup em 2015. Esse é apenas o capítulo mais recente da história para o antigo tenente-coronel condecorado pela Força Aérea Chilena (FACH), que hoje voa o Edge 540 V2 no RBAR.

Destacou-se na Força Aérea como piloto dos Halcones. A esquadrilha chilena de demonstração aérea, que já esteve no Brasil em diversas ocasiões, é querida do público brasileiro, além de ser uma grande parceira da nossa Esquadrilha da Fumaça. Não é a primeira vez que temos contato com o piloto, que está sempre presente na FIDAE. E na entrevista a seguir, conversamos com Bolton sobre os desafios e o seu dia-a-dia como competidor na Red Bull Air Race.

Bolton voa sobre os Andes em seu país natal.

AEROIN: Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas para chegar na RBAR e montar sua própria equipe, já que o Chile não tem tanta tradição na acrobacia aérea de competição como os vizinhos Brasil e Argentina? 

Bolton: Eu sou fã da competição desde seu início, e também pensava que seria muito difícil chegar lá. Mas isso que é um pouco fantástico no destino: sempre existem surpresas. E eu tive a oportunidade de me aproximar da Red Bull Air Race em 2013, quando fui convidado a participar da primeira geração de pilotos da categoria nova que estavam criando, a Challenger. Assim, em 2014 fui o único piloto latino-americano que participou da competição.

Mas sobre o Chile não ter uma grande tradição na acrobacia aérea, preciso discordar. Em meu país, desde o início das atividades de voo à motor, sempre houve interesse pela acrobacia aérea e, por causa disso, sempre existiu uma grande quantidade de times e pilotos amantes dessa modalidade.

Você está morando no Chile?

Desde junho de 2016, eu e minha família estamos morando nos Estados Unidos, onde sou instrutor de acrobacia aérea, Upser Recovery e acrobacia aérea em formação, e divido meu tempo também com minhas participações nas corridas da Red Bull Air Race.

Como é sua rotina de treinamento para a Red Bull Air Race?

É algo constante e realizo treinos diários de exercícios aeróbicos e anaeróbicos, com o objetivo de estar preparado para a grande exigência física que tem esse esporte. Além disso, realizo estudos dos circuitos por meio dos vídeos de minhas corridas e dos outros pilotos. Estudo também como é o clima de onde acontecerá a prova, sua temperatura, ventos e também o nosso software de simulação e análise, onde podemos simular as mais diferente condições meteorológicas e estudar as linhas de voo mais rápidas para se conseguir bons resultados nos voos de treino e, claro, na própria corrida.

Esse esporte exige um grande preparo e estudo prévio a cada corrida, para podermos conseguir controlar o máximo de variantes e conseguirmos a melhor eficiência no circuito. Além disso, realizo voos de treinamento onde faço partes do circuito e manobras que me ajudam a manter meu corpo em constante harmonia em um ambiente de altas cargas G´s.

Como são os seus dias durante o período da Red Bull Air Race?

Cada uma das etapas começa cerca de 20 dias antes para mim e minha equipe. Nesse período, começamos a definir nosso plano de competência e a ver toda a logística que precisamos para a competição. Uns 9 dias antes, já estamos no local onde será a etapa e ali começamos a preparar toda a aeronave e a realizar provas de voo necessárias para ter o avião nas melhores condições para a corrida. Além das questões do voo, durante a etapa temos muitas atividades de marketing e comunicação, as quais são muito importantes para nós e nos ajudam a mostrar esse esporte fascinante!

Já nos dias bem próximos à corrida, nosso foco total são voos de treinamento e análise de dados que nos ajudem no planejamento final do voo e em uma boa prova no final da semana.

Como se deu a sua mudança da categoria Challenger para a Master?

Foi uma grande mudança e com muito pouco tempo para preparar tudo, já que nossa primeira corrida foi em Indianapolis, em 2016. Mas por sorte, tenho uma equipe extraordinária e pessoas que realizam um trabalho incrível, e assim conseguimos debutar em boa forma.

A categoria Master nos exige de todos os lados, já que você passa a ser o responsável por tudo o que acontece com seu time. Você não tem mais apenas que voar, você tem que durante todo o ano administrar carreiras da melhor forma possível e planejar as estratégias que espera aplicar no futuro para que consiga melhorar seu rendimento.

Qual é a manobra mais difícil na sua opinião?

Todos os “tracks” são desafiadores, já que são todos diferentes e muito exigentes para a equipe. Mas falando de manobras mais específicas, creio que a “Chicana” é definitivamente uma seção muito difícil de voar dentro do circuito, dada a pouca distancia dos pylons entre si e a grande velocidade que está o avião, porque o difícil é controlar a altura e não perder velocidade ao se esquivar dos pylons. Leva-se muito tempo para voar uma chicana de maneira eficiente e rápida, por isso é uma manobra que marca a diferença entre os pilotos da Air Race.

A Chicana é uma espécie de slalom, onde o avião tem que passar entre os pylons em forma de zigue-zague. 

O que você acha dos pilotos brasileiros? Provavelmente teve contato com alguns da Esquadrilha da Fumaça, que são muito próximos dos Halcones. 

O Brasil tem uma grande tradição aérea, e não podemos esquecer que o brasileiro Adilson Kindelman foi o primeiro piloto latino-americano que participou da Red Bull Air Race. Durante os anos de 2015 e 2016, eu tive também a oportunidade de compartilhar aviões e corridas com o também brasileiro Francis Barros, com quem criei uma boa amizade e admiro por ser um piloto de muita qualidade e uma ótima pessoa.

A relação entre os times vem desde muitos anos e formou laços de amizade e uma boa relação profissional, que são valores inteiramente relacionados com essa atividade aérea. Eu, pessoalmente, tenho grandes amigos brasileiros que fiz durante a Escuadrilla Halcones e que tenho a sorte até hoje de ter contato e ver como estão bem em suas atividades.

Acompanhamos suas apresentações há alguns anos na FIDAE, atraindo o público brasileiro presente na feira. Pensa em algum dia se apresentar no Brasil? 

O Brasil me encanta e tenho a sorte de já ter ido muito ao país, tanto por motivos pessoais, quanto profissionais. Fui parte da celebração do cinquentenário da Esquadrilha da Fumaça em 2002 e espero algum dia voltar a voar no céu brasileiro. Quero compartilhar com meus amigos esta grande paixão que é voar e também entreter a todos que assistem esses grandes espetáculos aéreos, como a Red Bull Air Race.

Brasileiros no Team Bolton

O software de simulação e análise é feito por brasileiros da Advantage Engenharia, formado por um grupo jovens mineiros formados em Engenharia Aeroespacial pela UFMG. Além disso, algumas modificações serão incorporadas na aeronave nas próximas corridas, como novo capô, sistema de óleo, e painel da barriga da aeronave.  A Advantage também trabalha com a equipe dos pilotos Nicolas Ivanoff, da França, e do americano Michael Goulian.

Bolton ficou em oitavo lugar na primeira etapa, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Daqui a pouco começa a etapa de San Diego da Red Bull Air Race. A belíssima etapa da Califórnia tem transmissão ao vivo que você pode acompanhar clicando aqui.

Bolton montou sua própria equipe para disputar a Master Class no Red Bull Air Race.

Agradecimentos ao Bolton, sua equipe e a assessoria de imprensa da Red Bull pela entrevista. 

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é piloto e graduando de Ciências Aeronáuticas. Formado em Design e Performance de Aeronaves pela California State University Long Beach e Segurança da Aviação pela Western Michigan University. Membro da AOPA e da AIAA.