Há 106 anos, voava o 14-Bis

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 por Marcos José da Silva

Desde os primórdios da civilização, navegar pelos ares foi o principal sonho do ser humano, o qual não mediu esforços para dar asas à imaginação e conseguir tal feito. O brasileiro Alberto Santos Dumont realizou em total plenitude este sonho há exatos 106 anos, no dia 23 de outubro de 1906.

A luta pela conquista do ar

Uma das estórias mais antigas e conhecidas a respeito da tentativa de voar, remete à Grécia antiga quando Dédalo e seu filho Ícaro, presos no labirinto de Creta construíram asas de pena e cera para que pudessem sair de lá e se verem livres do minotauro, um ser com corpo de homem e cabeça de touro. Conta-nos a lenda que os dois alçaram voo com as asas amarradas em seus braços e, tendo Ícaro voado alto demais, a cera de suas asas derreteu fazendo com que ele caísse nas profundezas do Mar Egeu.

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Antes que os ares fossem conquistados, muitos escritores exploraram o assunto em livros e estórias, o que de certa forma se tornou influência para muitos inventores e pioneiros aeronáuticos, como Santos Dumont. O inventor brasileiro passou a sua infância lendo livros dos escritores franceses Jules Vernes, Camille Flammarion e Wilfrid de Fonvielle.

As primeiras tentativas de domínio do ar foram ainda no século XVIII. No ano de 1783, os irmãos Montgolfier construíram um balão de ar quente que alçou voo levando a bordo Pilatre de Rozier e D’Arlandes iniciando-se assim, a luta pela conquista dos céus.

Ilustração da ascenção do balão dos irmãos Montgolfier.

Ilustração da ascenção do balão dos irmãos Montgolfier.

No ano de 1852, em 24 de Setembro, o engenheiro francês Henri Giffard efetuou um voo em um balão de hidrogênio provido de um motor a vapor, inaugurando uma nova era das máquinas voadoras. Anos mais tarde, em 1872, outro francês chamado Dupuy de Lôme fez um voo com um balão dotado de um pequeno leme. Do ponto de vista da dirigibilidade, a experiência não teve muito sucesso tendo em vista que os desvios e curvas foram mínimos.

Muitos outros homens fizeram experiências pioneiras no intuito de alcançar as nuvens. Dentre os quais, pode-se citar os irmãos Tissandier, Charles Renard, Arthur Constantin Krebs, Karl Wölfert e ainda, Alexis Machuron e Henri Lachambre, dupla que participou efetivamente da vida e obra do inventor brasileiro Santos Dumont. Após ler um livro escrito pela dupla sobre uma viagem de balão, Santos Dumont resolveu, em uma terceira viagem a Paris, procurar pessoalmente o Sr. Lachambre para se iniciar no balonismo. Foi com a dupla que ele teve suas aulas de instrução de voo sendo avaliado por eles ao fim de poucos mais de 20 ascenções como apto para voar desacompanhado.

Santos Dumont conquista os céus parisienses

Santos Dumont

Tão logo foi autorizado a voar só, Santos Dumont projetou o seu próprio balão, o Brazil, estabelecendo de início um recorde: o menor balão tripulável já construído!

Após o ‘Brazil’, Santos Dumont projetou outros balões, como por exemplo o Amérique e o Le Fatum sendo que, todos eles e os dirigíveis que ele conceberia foram fabricados nas renomadas oficinas Lachambre.

Em 1898, Santos Dumont construiu e voo o seu primeiro dirigível, o Santos Dumont Nº1. A aeronave, de forma alongada, possuía inovações tecnológicas nunca usadas na aviação à época: o uso da seda japonesa na construção do invólucro e o motor a petróleo, que ainda era uma recente invenção.

No primeiro voo, o inventor, pressionado pelos aviadores presentes no local de ascenção, decolou a favor do vento sendo jogado contra as árvores do Jardim D’Acclimatation. Após 2 dias, o brasileiro fez nova tentativa decolando contra o vento e obtendo o sucesso esperado provando ainda, a eficiência do motor a petróleo na aviação.

O inventor continuou a construir dirigíveis, nomeando-os numericamente e, a cada novo aparelho, era aprimorado o seu mecanismo e formas de modo a conseguir melhores desempenhos e a dirigibilidade por completo.

Em 24 de março de 1900, o principal acionista da empresa petrolífera Shell, Henri Deutsch de La Meurthe, enviou uma carta ao Aeroclube da França propondo um prêmio no valor de 100 mil francos àquele que, partindo de Saint-Cloud, contornasse a torre Eiffel e retornasse ao mesmo ponto no tempo máximo de 30 minutos perante a uma comissão julgadora composta por membros do Aeroclube e pelo próprio Henri Deutsch.

Com o dirigível Nº3 Santos Dumont havia contornado a torre Eiffel pela primeira vez em 13 de novembro de 1899.

Com o lançamento do Prêmio Deutsch, Santos Dumont passou a trabalhar diretamente o desempenho e dirigibilidade de seus inventos no intuito de concorrer ao cobiçado prêmio. Com o dirigível Nº5, o inventor fez a primeira tentativa ao prêmio terminando com o equipamento acidentado e pendurado no telhado de um dos prédios do Hotel Trocadero. Após alguns avanços, inovações e melhorias, o prêmio foi finalmente conquistado em 19 de outubro de 1901 com o dirigível Nº6. Era estabelecido oficialmente a conquista da dirigibilidade!

A conquista definitiva da dirigibilidade – parisienses saúdam Santos Dumont no momento em que contorna a torre Eiffel.

A conquista definitiva da dirigibilidade – parisienses saúdam Santos Dumont no momento em que contorna a torre Eiffel.

Dirigibilidade!

Dirigibilidade!

Após a conquista do prêmio, a fama do inventor aumentou e se espalhou por todo o mundo culminando com algumas viagens aos Estados Unidos para escrever artigos e apresentar seus inventos e, também viagens pela Europa passando por Londres e pela Bélgica.

Santos Dumont continuou a projetar e construir dirigíveis, tendo feito alguns em que não chegou efetivamente a voá-los, vendendo-os ou estes sendo destruídos antes mesmo de um primeiro voo. Dentre os quais, podem ser citados os dirigíveis de Nº11, 12 e 13.

Em 1905, Alberto Santos Dumont construiu o Dirigível Nº14, o menor dirigível do mundo, com apenas 186m³. Com este dirigível, o inventor fez alguns testes com o seu primeiro aeroplano, o 14-bis.

O mais pesado que o ar inaugura uma nova era

No ano de 1906, Santos Dumont construiu o seu primeiro aeroplano e o acoplou no que fora até então, o seu último dirigível construído, o Nº14. Devido a isso, o aparelho recebeu o nome de 14-bis. Inicialmente construído com um motor de 24cv, bambu, seda japonesa e juntas de alumínio, o 14-bis foi testado durante o mês de julho daquele ano ainda acoplado ao dirigível.

O 14-bis em teste acoplado ao dirigível Nº14.

O 14-bis em teste acoplado ao dirigível Nº14.

Devido ao arrasto que o dirigível produzia, ele foi retirado e, para compensar o aumento de peso, o motor foi trocado por um mais potente, de 50cv.

O 14-bis em teste suspenso numa corda e puxado por um jumento.

O 14-bis em teste suspenso numa corda e puxado por um jumento.

 

Em 13 de setembro, o equipamento consegui fazer um “salto” de 8 metros.

Após mais testes, Santos Dumont envernizou as asas para aumentar a sustentação e retirou a roda traseira que atrapalhava na decolagem do aparelho. Como resultado, em 23 de outubro do mesmo ano, às 16:00 no Campo de Bagatelle, em Paris perante uma multidão de mais de mil pessoas juntamente da comissão do Aeroclube da França, o célebre brasileiro fez o primeiro voo de um aparelho mais pesado que o ar da história da humanidade: ele decolou e voou 60 metros a uma altura de 2 metros do solo por seus próprios meios em 7 segundos. Estava se realizando o sonho que fazia parte da mente humana há muito!

Preparativos para o voo.

Preparativos para o voo.

Preparativos para o voo.

Preparativos para o voo.

A decolagem que entrou para a história.

A decolagem que entrou para a história.

Pouso do 14-bis no Campo de Bagatelle.

Pouso do 14-bis no Campo de Bagatelle.

Multidão aglomerada ao redor do 14-bis após o pouso.

Multidão aglomerada ao redor do 14-bis após o pouso.

Com o feito e por cumprir todas as normas impostas pela Federação Aeronáutica Internacional e do Aeroclube da França para a realização de um vôo, o brasileiro conquistou o título de pai da aviação e recebeu um prêmio do Aeroclube como reconhecimento.

Ainda no mesmo ano, com alguns aprimoramentos como a adição de ailerons rudimentares, Santos Dumont fez nova demonstração com o 14-bis estabelecendo o primeiro recorde de distância. Ele voou 220 metros em 21,5 segundos e estabeleceu também, o recorde de velocidade: 38,84 km/h.

O voo de 12 de novembro de 1906.

O voo de 12 de novembro de 1906.

A repercussão em um jornal da época relatando os recordes do voo.

A repercussão em um jornal da época relatando os recordes do voo.

Alguns anos mais tarde, o inventor brasileiro ainda em plena atividade, construiu aeroplanos considerados os primeiros ultraleves: os aeroplanos de números 19 a 22, denominados Demoiselle.

 É interessante notar, em um artigo escrito pelo inventor brasileiro no ano de 1902, que o aeroplano já fazia parte de seus planos. No artigo, intitulado “Dirigíveis e aviões”, Santos Dumont cita vários detalhes como asas e superfícies móveis de um aparelho mais pesado que o ar conforme reproduzido abaixo:

“A aeronave que inventei tem, certamente, maior semelhança com um avião propriamente dito do que com um balão. Espero tornar essa semelhança ainda maior e até chegar à completa identificação do dirigível com o avião, provendo os futuros números de série de minhas aeronaves com planos inclinados, cujas superfícies, em adição à do envelope do balão, agirão em conjunto com ele sob a ação propulsora da hélice, para sustentar o peso do mecanismo.

Estou começando agora mesmo a aperfeiçoar o meu Nº6 para as experiências que pretendo realizar em Londres, no mês de junho, adicionando-lhe planos inclinados que, colocados na proa da aeronave, terão o efeito não apenas de levantar a nave como também de corrigir o seu movimento de arfagem.

No início do próximo ano, tentarei aplicar no ar os princípios da aviação propriamente dita, sujeitando minhas aeronaves a uma evolução contínua.

Na mesma proporção em que aumentar a extensão dos planos inclinados, simetricamente dispostos à direita e à esquerda, reduzirei a superfície do envelope de seda envernizado e, consequentemente, o volume de hidrogênio em relação à potência do motor.

Assim, espero diminuir gradualmente a função do hidrogênio, tornando secundária a sua importância que, agora, é primária, e depois suprimir completamente o uso do gás.

O dirigível ter-se-á então tornado um avião na absoluta acepção da palavra, e espero que algum dia nós vejamos tal acontecimento. Esse dia, sem dúvida, não está muito distante, mas o avião será atingido somente por meio da evolução, fazendo o dirigível passar por uma série de transformações análogas às metamorfoses pelas quais a crisálida se torna a borboleta.

Minha aeronave, que se eleva empurrando o ar para trás, já fez melhor que a crisálida, a cuja forma alongada se assemelha. Pode ser que, muito em breve, nada a impeça de livrar-se completamente de seu casulo de seda cheio de hidrogênio e de se tornar toda comparável a uma borboleta.

A aeronave, então, como existe hoje, e o aeroplano absolutamente sem gás, ao qual chegaremos, formarão os dois extremos de uma série de máquinas aéreas entre as quais o aeronauta poderá optar de acordo com o seu gosto. A escolha da máquina, sustentada em maior ou menor grau pelo hidrogênio ou pela hélice, poderá ainda se dar pela consulta das condições atmosféricas ou devido à extensão do percurso, o que melhor responda às aspirações do aeronauta.”

 

Este artigo foi publicado em junho de 1902, na revista norte americana North American Review, v. CLXXIV, Nº547 nas páginas 721-729. Uma versão em francês do mesmo artigo foi publicada em setembro do mesmo ano na revista Les inventions illustrées, sob o título “Ballons dirigeables et machines volantes”.

Atualmente, em homenagem ao inventor brasileiro e ao seu feito nesta célebre data, o dia 23 de outubro é marcado como o dia do aviador, sendo também, o dia da Força Aérea Brasileira.

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