A história da indústria aeronáutica brasileira no Memorial Aeroespacial Brasileiro

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por Carlos Roman com informações do Centro Histórico Embraer e do Memorial Aeroespacial Brasileiro

 

A vizinhança propõe respeito, rodeado por centros de excelência mundialmente reconhecidos, o memorial está bem ao lado da fábrica da EMBRAER, próximo ao Instituto de Tecnologia Aeronáutica e é parte do Centro de Tecnologia Aeronáutica da Força Aérea Brasileira, berço da indústria aeronáutica brasileira.

Embora modesto, o acervo é importantíssimo, rico em histórias, e contam a evolução da indústria aeronáutica brasileira. Podem ser vistos protótipos de aeronaves de classe mundial como o Embraer EMB-120 Brasília, o EMB-110 Bandeirante e a primeira versão do Super Tucano. Também estão ali aeronaves-conceito como o curioso CBA-123 Vector. O único fator que me preocupou foi o fato das aeronaves estarem expostas a céu aberto e isso pode ser prejudicial à sua conservação no longo prazo.

O acervo é de encher os olhos, convido todos vocês a conhecer pessoalmente, enquanto isso não acontece, trago o museu até vocês.

A exposição das aeronaves maiores acontece no estacionamento do MAB, lá no fundo se impõe o VLS (Veículo Lançador de Satélites), parte importante do programa espacial brasileiro, é de desenvolvimento nacional e foi precedido pela família de foguetes conhecida como sondas (veremos fotos mais adiante). Em 2003, uma máquina como essa explodiu no Centro de Lançamento de Alcântara (MA), no pior acidente do programa espacial.

 

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Réplica do VLS-1 em tamanho real

 

 

Ele nasceu em 1974 como Araguaia, mas foi rebatizado cinco anos depois como Brasília para facilitar a pronúncia pelos estrangeiros. Por vários anos foi considerada uma aeronave de última geração e teve encomendas de países nos quatro cantos do mundo. A Força Aérea Brasileira foi outra grande usuária do Brasília (e até hoje o utiliza!).

O protótipo abaixo, de matrícula PT-ZBA, foi restaurado pela Embraer, em parceria com o SENAI de São José dos Campos.

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Protótito Embraer EMB-120 “Brasília”

 

Ao lado do Brasília está a aeronave que mais me atraiu a atenção, não pelas linhas, que são bem parecidas com as do Embraer 120, porém pelo design, com os motores do tipo pusher (algo como “empurrador”) localizados na parte de trás da fuselagem.

Lendo mais sobre a aeronave descobri que o CBA-123 foi uma iniciativa conjunta do Brasil com a Argentina para a criação de um turboélice pressurizado, dotado da mais avançada tecnologia da época e que permitisse uma navegação mais segura e mais rápida. Dois protótipos foram construídos, porém o projeto acabou sendo cancelado face ao custo da aeronave ser muito alto, por conta das inovações pretendidas, fazendo com que não tivesse competitividade no mercado.

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Fruto de uma parceria com a argentina, o CBA-123 possui um conceito diferente da família Embraer

O Embraer abaixo é um modelo 121, batizado de Xingu. Seu voo inicial foi em 1976 e seu restauro aconteceu em 2009, ano em que completou 30 anos desde a certificação pelos órgãos brasileiros, embora tenham sido produzidas 105 aeronaves desse modelo, essa que está em exposição no MAB difere-se das outras (produzidas depois da certificação), que tiveram a cabine de passageiros alongada para aumentar a capacidade.

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Mais uma peça rara do Memorial é o Bandeirante PP-SBI. Embora a matrícula não esteja aparente, ela consta de uma pequena tira metálica afixada na aeronave, junto com as informações do número de construção e a data de fabricação. Esse exemplar tem longa história, tendo sido construído em 1974, voou pela VASP, TAM e Pantanal, até ser encostado e retornar à Embraer em 2000.

O projeto do EMB 110 Bandeirante data de 1965 e foi desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro de Tecnologia Aeronáutica, localizado ali mesmo em São José dos Campos. O objetivo que motivou a construção da aeronave foi a necessidade de um meio de transporte de baixo custo operacional, capaz de ligar as mais remotas áreas do Brasil.

No espaço interno do museu localiza-se uma relíquia. O EMB 100, segundo protótipo desenvolvido pela então estatal Embraer, que voou na Força Aérea Brasileira como FAB 2131 a partir do ano de 1969.

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O restauro do segundo protótipo do Bandeirante, primeira aeronave produzida pela Embraer, integrou as comemorações do quadragésimo aniversário de seu primeiro voo, em 22 de outubro de 1968, antes mesmo da criação da Embraer. Para recuperá-lo, foi fundamental a dedicação de empregados e ex-empregados que trabalharam na antiga linha de montagem.

O Bandeirante começou a ser desenvolvido em 1965 no Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IPD) do CTA, sendo identificado pela sigla IPD-6504. O sucesso do primeiro protótipo levou à viabilização de sua produção em série o que, no limite, resultou na criação da Embraer. Entre as primeiras encomendas recebidas pela Empresa, a Força Aérea Brasileira (FAB) realizou a compra de 80 aeronaves Bandeirante, fabricadas em uma nova versão que incorporava muitas modificações necessárias à produção seriada. Esse modelo foi chamado de EMB 110. Em versão configurada para a operação comercial, o Bandeirante inaugurou o conceito da aviação regional.

O exemplar recuperado pertence ao acervo da Fundação Santos Dumont e foi cedido à Embraer em comodato, pelo prazo inicial de cinco anos. A aeronave estava na sede da Fundação, em Cotia (SP), e teve de ser quase inteiramente desmontada antes do transporte até São José dos Campos. As asas, a fuselagem e o conjunto de hélices foram trasladados em duas carretas especiais. Partes menores, como motor, cauda e estabilizadores, viajaram em caminhões. Atualmente, este protótipo recuperado encontra-se integrado ao acervo do Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB).
Uma vez nos hangares da Embraer, a aeronave foi cuidadosamente remontada, recebeu nova pintura com as cores da Força Aérea Brasileira, novo sistema elétrico e acabamento. O interior foi refeito em detalhes, com itens, texturas e tonalidades mais fiéis possíveis aos do modelo original. Foi, por exemplo, providenciado o mesmo carpete verde e cortinas bege com detalhes em verde-musgo aplicados em silk screen formando a imagem estilizada de uma asa. As cortinas foram confeccionadas artesanalmente, como era na época.

Para os profissionais que participaram da recuperação do Bandeirante, foi uma experiência gratificante, a qual representou a oportunidade de promover a valorização do legado de um avião emblemático para a Embraer e para todo o país.

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O espaço interno do museu é pequeno, mas guarda muita história. São cinco alas, conforme segue:

O Ambiente Ensino apresenta algumas curiosidades de 1950, como o primeiro aparelho de fax utilizado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e painéis que contam a história do instituto.

O Ambiente Aeronáutica expõe as primeiras e as principais pesquisas do DCTA, incluindo motores, motor a álcool (veículo Dodge), e maquetes de ensaio em túnel de vento.

O segundo protótipo do Bandeirante, primeiro avião desenvolvido e fabricado no Brasil, e um painel dedicado ao tenente-brigadeiro-do-ar Paulo Victor da Silva, considerado o precursor da indústria aeronáutica brasileira, complementam esse setor da exposição.

O Ambiente Defesa mostra itens pesquisados e desenvolvidos pelo DCTA e pelas empresas Avibras e Mectron, representando a indústria bélica brasileira com bombas, empenas, suporte com lançadores múltiplos e mísseis.

O Ambiente Espacial traz maquetes dos foguetes Sonda e do VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites), semicoifas, propulsores, tubeira e protótipo do giroscópio a fibra óptica; entre outros..

O Ambiente Pesquisas Associadas expõe as pesquisas de ponta realizadas pelos institutos do DCTA, como o protótipo de urna eletrônica em funcionamento nas eleições, laser de Hélio-Neônio, etc.

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As duas últimas máquinas à disposição para visitação são mais peças-chaves que ajudam a desvendar a evolução da indústria aeronáutica brasileira.

Com o objetivo de atender às necessidades da Força Aérea Italiana, foi feita uma associação entre as empresas Aeritália (hoje Alenia) e Macchi (hoje Aermacchi) e criado em 1978 o programa do caça subsônico AMX (A de Aeritália, M de Macchi e X de experimental). A empresa brasileira responderia por 1/3 do programa e dos custos, sendo responsável pelas seções das asas, empenagem e testes de fadiga da estrutura. A Aermacchi responderia pelos outros 2/3 e produziria a fuselagem, os sistemas de bordo, e faria os testes estáticos e com armamentos.

Após algumas mudanças contratuais, as companhias italianas ficaram responsáveis por cerca de 70% do programa e a Embraer pelos 30% restantes. Coube à Embraer o desenvolvimento e a fabricação das asas, tomadas de ar do motor, estabilizadores horizontais, pilones subalares (“cabides de armas”) e tanques de combustível. Além disso, a Embraer participou ativamente de todo o projeto dos sistemas de trem de pouso, navegação e ataque, comandos de voo e controle de armamentos. Dois protótipos de ensaio em voo e um de testes de fadiga foram construídos e testados no Brasil.
O AMX foi concebido como avião monomotor, monoposto, especializado para missões de ataque, privilegiando robustez e confiabilidade para missões de alta exposição, com longo alcance (compatível com as dimensões continentais de nosso país, incluindo capacidade de reabastecimento em voo) e a incorporação de tecnologias avançadas de sistemas de computação, navegação e ataque e contramedidas eletrônicas. Contou, entre outras inovações da época, com um sistema de comandos de voo com augmentation system e operação HOTAS (Hands On Throttle And Stick) para navegação e ataque. Uma variante biposto foi desenvolvida em seguida visando tarefas de conversão operacional de pilotos para este tipo de aeronave (OCU).
Sendo um avião de caça e ataque, apresentava menor custo que seus concorrentes, além de ser eficiente e dotado de tecnologia avançada. Tinha capacidade para apenas um piloto, com assento ejetável. O jato subsônico foi equipado com turbinas Rolls-Royce, e, além de ser capaz de atingir 750 km/h, era um “avião invisível”, ou seja, sua Caixa de Contra-Medidas Eletrônicas (ECM), emitia sinais contínuos para confundir o radar ou qualquer outro tipo de sensoriamento.
A apresentação oficial do avião ocorreu na Itália em maio de 1985 e o primeiro protótipo do AMX construído no Brasil – o quarto do programa –, fez seu rollout e primeiro voo oficial em outubro daquele ano. Em 1988 o primeiro AMX de fabricação seriada voou na Itália e a primeira entrega à FAB ocorreu em outubro de 1989, que adquiriu um total de 54 aeronaves, em três lotes de encomendas.

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Com características técnicas inovadoras, o primeiro treinador básico turboélice a utilizar assentos de ejeção, equipado com o confiável motor PT6A-25C de 750 HP da Pratt & Whitney Canada e dotado de excelentes qualidades de voo, acrobacia e instrução, o EMB 312 Tucano reuniu eficiência e economia no treinamento de pilotos militares em um projeto de sucesso. Já a partir das primeiras entregas para a FAB em 1983, o avião estabeleceu-se inquestionavelmente no mercado de treinadores militares.

Ao fim da década de 1980, com o Tucano estabelecido como treinador de sucesso internacional, a Embraer percebeu a necessidade de desenvolver o avião e expandir suas capacidades e potencial de vendas, não só como treinador, mas também como plataforma de ataque leve e outras missões armadas.

Em 2011, por iniciativa do Centro Histórico Embraer, o Super Tucano PT-ZTW foi recuperado, mediante um convênio de estágio, por alunos do SENAI, mantendo a pintura original estilo “Ana Raio”, e transferido para o Memorial Aeroespacial Brasileiro – MAB, em São José dos Campos, onde se encontra em exposição.

Sua nova pintura, resultado de um concurso interno em que o ganhador foi o empregado Renzo Galuppo Fernandes, em azul royal, com um raio amarelo percorrendo a fuselagem do nariz à cauda, motivou o apelido de “Ana Raio”, em lembrança à personagem homônima da novela Ana Raio e Zé Trovão, apresentada na TV brasileira em 1990.

Durante o tempo em que permaneceu em serviço, o PT-ZTW foi utilizado em várias missões de demonstração e ensaios de desenvolvimento para a concorrência JPATS e outros programas posteriores, como o EMB 314, assim como “paquera” em várias campanhas de ensaios em voo da Embraer.

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Sobre o memorial:

Visitas Agendadas: De terça-feira à sexta-feira, no horário das 8h00 às 17h, para escolas (ensino fundamental, médio, superior), instituições, grupos, delegações, etc. Aos sábados, domingos e feriados (exceto Natal, Ano Novo, Carnaval e Semana Santa), o Memorial é aberto ao público das 9h às 17h, sem necessidade de agendamento. Entrada franca.

Para informações e agendamento de visitas, ligue para +55 Brasil (12) 3947-7844/3947-3046/3947-6014 ou envie um e-mail para acs@cta.br.

Endereço: Avenida Brigadeiro Faria Lima, s/nº (acesso para o Aeroporto de São José dos Campos-SP), CEP 12227-000.

Carlos Ferreira

É profissional de marketing e pesquisador de temas relacionados à aviação há quase duas décadas. Leva a câmera fotográfica para onde vai e faz mais fotos de aviões do que dos passeios. Responsável pela linha editorial da revista eletrônica AEROIN.net.

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