“Meu primeiro avião”

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Por Luís Alberto Neves

Nota do Editor: o Fokker F-27 que hoje está exposto no Museu TAM tem muitas histórias, mas nenhuma igual a essa que você vai ler. Boa leitura!

Hoje em dia muitas pessoas que não são do meio me perguntam como comecei a gostar de aviação. Na verdade eu nem me lembro bem como comecei de fato a ter esta paixão por estas maquinas voadoras, mas uma coisa é fato, todos nós entusiastas temos nosso avião preferido e nossa companhia aérea de coração.
Perto da minha antiga casa fica a fabrica da Seven Boys e todos os dias pela manhã o dono da empresa pousava no heliporto da fabrica com o seu helicóptero e eu ficava com muito medo quando via aquele treco voador já que minha mãe, para me assustar e evitar que eu aprontasse alguma travessura, me falou que naquele helicóptero tinha uma bruxa muito má que levava as crianças que não eram obedientes com os pais (tipo o homem do saco, quem já não ouviu essas histórias?), como eu era bobo, quando via um helicóptero passando eu saia correndo igual um louco. Bons tempos.

Em 1987 fui morar com meu pai, em São José do Rio Preto, interior de SP, num bairro chamado Boa vista que ficava próximo ao centro e, como a gente era bem humilde e com poucos recursos, eu ajudava muito meu pai vendendo sorvetes nas ruas. Um dia eu fui sentido Distrito Industrial, um bairro cheio de fabricas, com o meu carrinho de sorvete após faturar uma boa grana passei em frente ao aeroporto e fui lá ver os aviões, sei que quando cheguei tinha uns aviões pequenos, que certamente não vou me lembrar quais eram, e tambbém uma coisa que me chamou atenção naquele terraço: uma convidativa árvore, que me matou o cansaço por algumas horas depois de um dia de trabalho. Nesse mesmo momento, observo que muitas pessoas estavam chegando no terminal do aeroporto, que era bonito, embora pequeno, ouço um barulho, olho para cima e, cruzando o céu, passando em cima do aeroporto, um grande avião a hélice me despertou a atenção, fiquei atento e observando sua aproximação para pouso, e quando tocou o solo fiquei encantado com o barulho, principalmente no momento do reverso. Além de seu tamanho, pois era o maior avião que eu já tinha visto até então, seu barulho me intimava a prestar atenção no taxi pela pista até a entrada no pátio já que, naquela época, o aeroporto administrado pelo DAESP não tinha taxiway.

 

E assim ele foi se aproximando do local onde eu estava. Ao meu lado algumas pessoas tão encantadas quanto eu curtiam o desfile daquele grande barulhento de cauda azul. É incrível, mas se eu fechar os meus olhos, ainda hoje posso me lembrar de seu barulho e deste momento que foi um marco em minha vida com a aviação. Logo encostaram uma escada na parte traseira e de lá saíram varias pessoas, momentos a seguir ouve-se uma voz na caixa de som do aeroporto: “Atenção senhores passageiros TAM vôo 527 com destino a São Paulo, com escala em Bauru, última chamada para embarque”.

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Um funcionário da TAM ficava na porta destacando o canhoto do cartão de embarque e todos os passageiros, bem trajados, seguiam até aquela aeronave que me chamava cada vez mais atenção, naquele momento meu coração acelerou e ali senti pela primeira vez o sinto até hoje quando eu fotografo um avião que gosto muito. Assim que terminou o embarque o pessoal de apoio começou a remover os instrumentos que cercavam a aeronave e apenas uma pessoa com um extintor ficou próximo ao motor um esperando acionar. Até hoje eu me pergunto o por quê deste procedimento. Logo em seguida o motor foi acionado e o Fokker 27 começou a desfilar pelo pátio. Minutos depois o turboélice deixava o solo rio-pretense.

A partir deste dia eu passei a ir ao aeroporto de Rio Preto quase todos os dias para ver o F-27 da TAM, eu saia as 16h40 da escola e seguia para o aeroporto. Ele pousava às 17h25, decolava as 18h10 e eu ia para casa após sua decolagem. às 23h00 ele regressava para fazer o transporte de malote dos correios. Uma curiosidade é que todos os assentos eram retirados pela porta do bagageiro, que fica localizada na frente da aeronave, e eram armazenados numa espécie de carrinho de carga fechado com um toldo, no lugar das poltronas íam os malotes de cargas e ele decolava horas depois, retornando de madrugada quando era remontado e, às 7h25 da manhã seguia com passageiros para SP com escala em Bauru.

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Anos mais tarde de tanto ir ao aeroporto ver este avião eu fui apelidado pelos funcionários da TAM como o “menino do aeroporto”. Um dia, para minha surpresa, eu estava numa dessas noites esperando sua chegada e uma funcionaria da TAM chegou e me perguntou se eu gostava de aviões, eu declarei minha paixão pela TAM em especial pelo Fokker 27. Assim que o avião tocou o solo ela me convidou a fazer uma visita ao interior da aeronave, eu me beliscava para ver se não era mentira e quando cheguei perto dele fiquei deslumbrado pelo seu real tamanho, nossa eu não podia acreditar que estava dentro daquele avião. Logo um funcionário veio com uma maleta de plástico com um desenho da cauda do Fokker 100 com a seguinte escrita “o jato de Congonhas” e me entregou. Eu me sentei na poltrona e abri aquela maletinha recheada de guloseimas. A partir deste dia eu passei a entrar quase que todos os dias no Fokker 27 e aquela mulher que havia me abordado naquele dia no terraço era ninguém menos do que a supervisora e responsável pela TAM em Rio Preto, alem de ter ganhado uma amiga que gostava do meu carinho pela TAM, acabei conquistando todos os funcionários da TAM na cidade.
Um dia folheando a revista de bordo da TAM – Revista Classe – notei que na introdução havia sempre um texto escrito pelo Cmte. Rolim Amaro e ali lançava a campanha Fale Com o Presidente que, na época, tinha um endereço onde as pessoas mandavam uma carta com dados para receber o Cartão Fidelidade da TAM. Eu logo comecei a escrever uma carta falando do meu carinho e admiração pela TAM, certamente não vou recordar tudo o que escrevi pois tinha meus 10/11 anos de idade. Só sei que mandei a carta e,  alguns dias depois, chegara a minha casa um envelope vindo de São Paulo por Sedex em meu nome. Quando abri o envelope logo me deparei com vários brindes da TAM como um quebra-cabeça com o desenho do Fokker 100, uma revista da TAM, uma caneta da TAM, dois adesivos com a imagem do Fokker 27 com os dizeres, em dourado, “Primeira Classe TAM”, um adesivo do Fokker 100, alem de um adesivo enorme com o nome TAM em azul e uma camiseta. Agora tentem imaginar como fui ao aeroporto de Rio Preto naquele dia! Quando cheguei e contei o que me tinha acontecido fui elogiado e uma pessoa me disse uma frase que levo comigo até hoje: “tudo o que quiser de verdade você pode conquistar”.

 

Mas não acabou por aí, alguns dias depois chegou a mim uma caixa pesada e dentro dela uma surpresa: uma maquete do Fokker 100. Aí meu deleite foi completo. Eu ia ao aeroporto com a camiseta, boné e maquete na mão. Tentando me imaginar naquela época dou risadas, acho que eu era ridículo ao extremo.

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De tudo que escrevi naquela carta que mandei à TAM tinha uma coisa da qual não me esqueço. Eu escrevi que tinha o sonho de voar no Fokker 27 e contei que minha mãe  morava em São Paulo. Não me lembro ao certo quanto tempo demorou, mas além das duas encomendas que já tinham chegado por Sedex, recebi uma que foi a mais importante de todas. Era um envelope, destinado a mim e com o nome TAM prensado no remetente. Minhas pernas bambearam, quando abri aquele envelope logo veio a grande surpresa: um cartão Fidelidade da TAM junto com um Cartão de Embarque e uma carta emitida pelo Presidente da TAM me presenteando com uma viagem de ida e volta a bordo do Fokker 27, com direito a um acompanhante, entre Rio Preto e São Paulo, ida e volta. Foi impossível conter-me com tanta emoção.

No dia seguinte eu fui ao aeroporto com a carta em punho mostrar a todos meus amigos da TAM e aquela mulher, que foi muito importante na minha vida, me parabenizou e me falou uma coisa que nunca me esqueci, ela assim me disse: “Você não precisava mandar esta cartinha, pois eu ia te dar esta viagem de presente”. Eu a abracei e agradeci por tudo que ela tinha me feito.

No dia 12 de julho de 1992, em companhia de minha mãe, eu segui rumo ao aeroporto de Rio Preto com destino a São Paulo. Naquele momento começava uma nova etapa em minha vida, depois de quase três anos venerando aquele saudoso avião a hélice, chegava minha vez de levantar a cabeça e caminhar com orgulho pelo pátio do aeroporto, na companhia de minha mãe rumo a São Paulo. Quando ele tocou o solo meu coração quase saiu pela boca, me deu tremedeira e vontade de sair correndo, era a realização de um sonho.

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Certamente os detalhes deste vôo vou deixar para contar depois, mas uma coisa digo a todos: “quem tem um sonho, que vá em busca dele e não o deixe escapar, pois a vida é uma só e os sonhos não existem para outra coisa senão para serem realizados”. Hoje posso dizer que sou uma pessoa realizada por ter realizado vários sonhos e ainda busco muitos, mas sei que isso depende única e exclusivamente de minha força de vontade.

E esse foi meu primeiro avião, o Fokker 27 da TAM prefixo PT-LAF, realizando o voo 527 de Rio Preto a São Paulo-Congonhas, poltrona 12A (bem ao lado da Hélice). Hoje ele está no Museu Asas de um Sonho da TAM, em São Carlos, depois de ter ficado mais de dez anos parado no aeroporto internacional de São Paulo quando seu último operados, a companhia VICA entrou em falência.

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  • Ricardo Tadeu Pianta

    Meu primeiro vôo também foi em um F27, eram vôos panorâmicos vendidos pelo Banco Itaú para seus funcionários no final dos anos 80, (eu trabalhava lá nessa época) e foi sensacional, eu e um grande amigo de infância decolamos de Congonhas/SP (CGH), fazendo um vôo pelo litoral paulista e pela capital para depois voltar para o mesmo local de decolagem….foi rápido mas inesquecível, e podíamos visitar a cabine durante o vôo…..