Relato de viagem: perseguindo aviões clássicos na Coréia do Norte

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Texto e Fotos: Martijn Hoebee

Tradução: Carlos Roman

 

Esse relato de viagem foi feito pelo holandês Martijn Hoebee, que gentilmente concordou em compartilhar conosco sua recente viagem à Coréia do Norte.

Embora seja um país fechado para o mundo, a Coréia possui alguns programas turísticos muito interessantes. Um deles refere-se a um pacote exclusivo para entusiastas de aviação, que podem voar em até oito aeronaves russas diferentes. Veja que curioso o relato e os tours disponíveis.

 

Uma viagem para a indescritível Coréia do Norte e a oportunidade de voar em uma variedade de aeronaves russas clássicas? Isso soou muito bem para ser verdade! Eu não estava sonhando, porém; é um tour que realmente existe e é organizado pela Juche Travel Services. Como um entusiasta de aviação, eu amo poucas coisas mais do que voar na maior diversidade de tipos de aviões possível. Naturalmente, eu não deixaria passar essa rara oportunidade, e rapidamente decidi me inscrever no North-Korea Aviation Tour de Julho [de 2012].

 

O que estaria na agenda? Primeiro de tudo, um tour extensivo nesse fascinante país, visitando muitas cidades, marcos turísticos e outros lugares de interesse. O bônus: um total de 9 voos em uma variedade de aeronaves operadas pela companhia aérea nacional da Coréia do Norte, a Air Koryo! A frota da Air Koryo é extremamente interessante. Consiste, maiormente, de aeronaves russas clássicas. Muitas dessas aeronaves não são mais operadas em serviços comerciais em nenhuma outra empresa aérea, sem contar operadores governamentais e de carga. Os seguintes tipos de aeronaves me foram oferecidos: Antonov 24, Ilyushin 18, Ilyushin 62, Ilyushin 76 (!), Mil 8, Tupolev 134 and Tupolev 154 ou Tupolev 204 (dependendo de qual você optar voar,  para Shenyang no -154, ou para Beijing no -204).

 

A viagem iniciaria em Beijing, de onde nosso grupo tomaria um voo regular da Air Koryo para Pyongyang. Após alguns dias de passeios em Beijing, era hora de eu rumar para o aeroporto da capital chinesa para embarcar ao meu destino coreano. Após conhecer os demais companheiros do gripo, quase que totalmente composto por fanáticos por aviação, nós rumamos para nosso portão de embarque onde a distinta forma do Ilyushin 62 (IL-62M) já era visível. Nosso voo seria operado pelo avião de prefixo P-881, que deixara a fábrica de Kazan no ano de 1986.

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Muitos de nós, spotters, estávamos sentados bem atrás na cabine, perto da ação dos 4 motores Soloviev. O resto dos assentos eram ocupados por outros passageiros, também curiosos por conhecer Pyongyang. O avião apresentou um grande interior retrô, além de haver uma fumaça de condensação saindo dos tubos de ar-condicionado e preenchendo a cabine com uma fina névoa. Depois que todos estavam embarcados, iniciamos o push-back no horário e os motores foram acionados. O som desses motores é absolutamente maravilhoso, e não parecem com nada que você tenha ouvido em outras aeronaves. Na decolagem, os 4 motores D-30 KU produziam um uivo forte, tornando impossível qualquer conversação na cabine.

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Tão logo atingimos a altitude de segurança, os comissários de voo tomaram ação e ofereceram jornais, assim como um lanche frio e bebidas. O voo era bem curto, porém. Após uma hora em cruzeiro, começamos a descida. O trem foi baixado com a aeronaves ainda em alta altitude, aparentemente para atuar como freios aerodinâmicos. Após um suave pouso, os dois motores de fora foram postos a reverso com força máxima, criando um ruído ensurdecedor. Após o pouso tivemos a oportunidade de visitar a cabine e fazer fotos do pátio.

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Depois de estarmos familiarizados com Pyongyang, e de ter visitado a área desmilitarizada, na fronteira com a Coréia do Sul, era hora de tomar três prazerosos voos. Estes seriam operados pelo Ilyushin 76 (IL-76TD) cargueiro, o Antonov 24 e o helicópero Mil 8. O -76 não tinha os assentos padrão para transporte de passageiros, já que era um avião cargueiro. Ao invés disso, ele tinha assentos dobráveis ao longo da fuselagem. Todos nos sentamos no compartimento de carga durante o voo, o que tornou a experiência ainda mais diferenciada! Esse avião, construído em 1990, era o registrado P-914.

Após pouco menos de meia hora de voo, o -76 pousou duramente e taxiou de volta ao pátio. O próximo avião, o Antonov 24 (AN-24RV), já nos aguardava ao lado.

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Esse clássico turboélice foi manufaturado na fábrica da Aviant em Kiev, no ano de 1975. Sua carreira de voo foi toda na Air Koryo, como P-532. Como todos os aviões da Air Koryo, sua condição era impecável. A cabine era a mais tradicional possível, com os clássicos porta-bagagem abertos. A cabine mais uma vez era coberta por uma fina névoa, comum nessas aeronaves. O barulhento turboélice é impulsionado por dois motores Ivchenko AI-24 e nos levou a outro emocionante voo de 30 minutos sobre a cidade de Pyongyang.

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Após pousar e estacionar, o grupo foi dividido em dois de dez pessoas cada, e o primeiro embarcou em um ônibus para nos encaminhar ao nosso próximo voo, no helictópero Mil 8 (MI-8T). Este exemplar, registrado como 108 (note que não há P- no prefixo já que ele nunca sai do país). É um helicóptero misterioso, e não há dados disponíveis sobre seu ano de fabricação. De toda forma, foi fabricado pela russa Kazan Helicopters.

 

 

 

 

O 108 possui uma cabine VIP de 10 assentos com um sofá e quatro assentos em torno de uma mesa. O isolante de ruído era fantástico e o nível de som dentro era o menor de todas as aeronaves em que voamos. A mão firme do comandante nos manobrou sobre a plataforma para a posição de decolagem e nos levou para uma rápida volta circulando por sobre o aeroporto de Pyongyang. Após pousar os motores foram mantidos em funcionamento para que o próximo grupo pudesse embarcar o quanto antes. Não antes de fazermos nossa visita ao cockpit, porém!

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Após um grande dia com 3 voos fantásticos, e mais algum turismo pela cidade, nós voltamos ao hotel. Nos dois dias seguintes visitamos o norte do país, perto da fronteira com a China onde localiza-se o sagrado monte Paektu. Nosso avião escolhido para os dois voos de e para Samjiyon por o Tupolev 134, matriculado P-814, de 1984, produzido em Kharkov.

Os voos foram muito tranquilos e o -134 é muito bom de voar. O nível de ruído na cabine é baixo, e a cabine por si só é espaçosa e confortável. Também tivemos oportunidade de visitar o cockpit e de fazer um walk-around no pátio de Samjiyon!

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O próximo e último voo dessa viagem, que se faz uma vez na vida, foi num Ilyushin 18, especialmente fretado para o voo até Sondok, na costa leste. O avião de hoje era o P-835, de 1969, um exemplar fabricado em Moscou. Para sua idade, o avião estava em condições absolutamente fantásticas! O pesado turboélice não era tão barulhento como esperávamos e decolou após uma rápida corrida de decolagem.

Novamente, após pousar em Sondok, cumprimos com o rito de visitar o cockpit e de fazer as fotos externas. Uma das portas foi aberta, nos permitindo algumas boas imagens dos motores Ivchenko AI-20.

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O próximo e sétimo dia chegava, junto com o fim de nossa viagem. O grupo foi novamente dividido em dois. Uma parte embarcaria no voo de volta a Beijing, operado pelo Tupolev 204 e os outros voariam de volta a Shenyang no Tupolev 154. Infelizmente para nós, o voo de Shenyang teve a aeronave substituída e acabamos voltando no IL-62M. Isso não prejudicou a diversão, pois voamos no P-885 o segundo IL-62 da frota da Air Koryo, fabricado em 1979.

Esse curto voo até Shenyang estava realmente completamente cheio, com apenas uns poucos assentos disponíveis. O tempo de voo foi de 45 minutos. A decolagem foi mais uma vez espetacular com o belo ruído dos motores. Mais uma vez o lanche foi servido e o pouso foi tranquilo, novamente com o trem de aterrissagem baixado com a aeronave a elevada altitude. O avião tomou toda a pista durante sua corrida de pouso!

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Após agradecer a tripulação, nós desembarcamos em ônibus e fomos levados até o terminal. Cada passageiro buscou por suas conexões, a partir daí.

 

Eu acho que posso falar em nome de todos que estiveram nesse tour, quando digo que foi um imenso sucesso! A Air Koryo e a Juche Travel Services foram muito atenciosas com nossos (algumas vez estranhos!) pedidos, e fez de tudo para que tivéssemos um excelente passeio. Eu recomendo fortemente uma visita à Coréia do norte. É um país fascinante que faz valer a visita… mesmo que seja sem aeronaves no roteiro!

Espero que vocês tenham gostado da leitura e do relato da viagem, ficarei feliz em responder às suas perguntas ou observações.

 

Mais informações:

Saiba mais sobre esse roteiro no site da JUCHE TRAVEL SERVICES

 

Original publicado no AEROBLOGGER

Confira os vídeos da viagem no canal do Youtube do Martijn

 

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