Voamos o versátil bi-motor canadense Twin Otter.

A convite da Viking Air, fizemos um voo de demonstração do avião canadense Twin Otter series 400. Um veterano na aviação mundial, o modelo é quase desconhecido no Brasil porque disputava o mercado com o clássico Embraer EMB-110 Bandeirante. Com várias medidas econômicas adotadas pelo Brasil no passado, a entrada de concorrentes no país, entre eles estava o Twin Otter, foi dificultada para proteger o Bandeirante.




Por volta das 9h30, apresentei-me no hangar da Aristek, no Aeroporto Campo de Marte em São Paulo, onde fui recebido pelo Comandante e diretor técnico Daniel Torelli e pelo diretor de vendas da Viking Brasil, Renner Lima. Antes da nossa partida fui convidado para um “walk-around” na aeronave.

Durante a apresentação em solo, constatei o quanto o Twin Otter é versátil e eficiente. São duas entradas para abastecimento na fuselagem – sendo que o tanque de combustível fica condicionado na barriga da aeronave, e não nas asas como a maioria dos aviões; porta traseira com escada acoplada e abertura lateral para entrada de cargas maiores; uma segunda porta de acesso do lado direito da aeronave, que também pode auxiliar no manuseio de cargas; além de dois bagageiros, um no nariz e outro na parte traseira.

No embarque tivemos que andar um pouco curvados pelo corredor da cabine de passageiros devido ao teto baixo. A aeronave que veio para demonstração no Brasil, com prefixo canadense C-GVOT, estava configurada para transportar 19 passageiros. A configuração interna era de um assento do lado esquerdo e dois assentos do lado direito. Mas poderia atender também com eficiência o transporte de cargas, aeromédico, paraquedismo, fotografia aérea e operações especiais.

Cockpit é moderno e permite aproximações por GPS, algos que apenas alguns jatos fazem. Destaque para a manete de potência no painel superior da aeronave.

Na cabine de comando a aviônica é moderna, aumentando o nível de segurança de voo. O sistema de simples navegação nos mapas e a sobreposição com os auxílios meteorológicos atende aos requisitos mais modernos de navegação, inclusive o sistema RNP Approach para pousos por GPS, e sem deixar de oferecer recursos para pouso em locais que não dispõem de auxílios de solo.




O Comandante Torelli destacou que o Twin Otter é uma aeronave de fácil adaptação. O curso dura 15 dias, com aulas teóricas e treinamento em simulador de voo. Os pilotos que voam a aeronave têm à disposição o que chamamos de “full-motion”, um simulador de voo completo com controle de seis eixos que imita os movimentos de uma aeronave. É o único no mundo capaz de simular operações de pouso e decolagem na água, uma vez que, além da versão com trem de pouso convencional, o Twin Otter também é oferecido na versão hidroavião ou anfíbio (que pousa na terra e na água). A versão convencional pode ser transformada em anfíbia em 10 horas com a colocação de flutuadores, demonstrando novamente a versatilidade do modelo.

Pronto para decolar do Campo de Marte.

Após o alinhamento na cabeceira 12 do Campo de Marte (SBMT), percorremos aproximadamente 280 metros até livrar o solo, e cruzamos a cabeceira 30 já a 700 pés de altura. Ganhamos os céus da grande São Paulo com destino a Sorocaba (SDCO) voando baixo, apreciando a metrópole de um ângulo privilegiado. No comando da aeronave estava o canadense Taylor e ao seu lado o comandante brasileiro Toreli, que nos explicava sobre as facilidades de operação de pousos e decolagens em pistas curtas semi-preparadas. O Twin Otter pode pousar e decolar com facilidades em um campo de terra, grama, gelo, areia ou até em uma rua.

Durante o voo, o comandante Taylor demonstrou a eficiência de pouso e decolagem no aeroporto de Sorocaba. Realizamos duas aproximações para pouso com surpreendentes resultados, utilizando cerca de 80 metros de pista. Na hora da decolagem, tanto no Campo de Marte quanto em Sorocaba, foram necessários aproximadamente 280 metros de pista. Porém não tínhamos carga e eram apenas seis passageiros a bordo. Segundo dados do fabricante, o Twin Otter precisa de 366 metros de pista para decolar e 320 metros de pista para pousar. Como comparação, a pista principal do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, tem quase 2 km de extensão.

Dois motores PT-6 impulsionam o DHC-6.

A total eficiência dos comandos da aeronave foi demonstrada em voo, com subidas, descidas e curvas fazendo amplo uso de profundor, leme e ailerons, além da realização de estol limpo e sujo com flapes a 10º, 20º e 37º. Era notável a harmonia de comando e a capacidade de equilíbrio nas manobras, curvas e respostas aos comandos.

Finalizamos conhecendo o desempenho dos motores Pratt & Whitney modelo PT-6A-34, o mesmo utilizado no Cessna Caravan e no Super Tucano, que geram 620 cavalos de potência cada. Simulamos a perda de um motor ao reduzir e embandeirar o motor do lado esquerdo, demonstrando assim a capacidade da aeronave em voo monomotor.

Pista em Sorocaba foi mais do que suficiente para o pouso, o DHC-6 precisa de apenas 320 metros para pousar.

Durante nosso retorno ao Campo de Marte após quase uma hora de voo, o Comandante Daniel Toreli nos informou que a aeronave já fez diversas demonstrações em cidades brasileiras. O Twin Otter já foi apresentado para empresas de Táxi Aéreo, para aviação executiva, cargas e também para o Exército Brasileiro.

Minha avaliação final: avião muito versátil, econômico, prático e eficiente. Um pouco apertado em relação à sua capacidade total, não consigo imaginar ele com 22 pessoas a bordo. Apesar disso, o Twin Otter é muito utilizado para operações especiais e transportes de passageiros no Caribe, regiões montanhosas e geladas, voando com muito sucesso tanto em lugares com baixas quanto altas temperaturas.

A intenção da Viking Air é oferecer o Twin Otter aos operadores dos antigos Bandeirantes que deixaram de ser fabricados em 1991. Querem também oferecer o produto a empresas que necessitam de um equipamento com maior capacidade de carga e autonomia do que o Cessna Caravan.

Esperamos em breve ver essa aeronave voando regularmente em nosso país, já que qualidade e confiança não faltam ao Twin Otter, um campeão de vendas pelo mundo. São mais de 1000 unidades fabricadas desde 1965. O Twin Otter deve receber em breve a certificação da ANAC, o que permitirá criar um centro de manutenção no Brasil para atender prontamente os futuros clientes desta aeronave.

Agradecimentos à Viking Air e a De Havilland Canada.

Luis Neves

É agente de turismo e acompanha a evolução da aviação brasileira desde o final da década de 80. Fotografa tudo o que voa e tem uma das maiores coleções de fotos de aviação do Brasil.