A linha aérea “de la revolución”, Cubana completa 90 anos

Apesar de ter nascido como empresa privada, os anos mais interessantes da história da Cubana (pelo menos para quem gosta de aviação) aconteceram após a estatização liderada pelos revolucionários de Fidel Castro e Che Guevara.

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IL-62 da Cubana em solo paulista, anos 1990 – Foto de Luís Neves

Fundada na bela Havana aos 8 de outubro de 1929, a empresa começou como escola de aviação e empresa de fretamentos aéreos sob o nome Companhia Nacional Cubana de Aviação Curtiss SA, em razão da parceria que mantinha a fabricante norte-americana de aviões Curtiss. Um ano mais tarde, em 30 de outubro de 1930, dá os primeiros passos rumo à transformação da companhia em uma linha aérea de bandeira com a inauguração da primeira rota regular ligando La Habana a Santiago de Cuba. Tal fato tranforma Cuba em um dos primeiros países do continente americano a ter sua própria companhia aérea.

A Cubana ganha prestígio ao ajudar na fundação de ICAO e IATA

Em 1944, já pertencendo a outros grupos de empresários e renomeada Companhia Cubana de Aviacion SA, a empresa apoia a criação das maiores organizações da aviação mundial da atualidade: ICAO e IATA. O papel de protagonismo dos cubanos na época e a Conferência de Havana, que resultou na criação da IATA, em 1945, foram cruciais para que a empresa passasse a ser reconhecida internacionalmente.

Ainda em 1945, mais precisamente no mês de maio, a empresa inicia os primeiros voos internacionais regulares ligando Havana a Miami com aeronaves Douglas DC-3, tornando-se a primeira companhia aérea da América Latina a estabelecer serviços regulares de passageiros para a cidade norte-americana. Em abril de 1948, é iniciada a primeira rota transatlântica, entre Havana e Madrid. O ciclo de crescimento é constante e as aeronaves mais modernas da época passam a integrar a frota da companhia, incluindo o clássico L-1049 Super Contellation.

A companhia atravessa um momento áureo de crescimento e reconhecimento, mas tudo viria a mudar com um dos acontecimentos mais importantes da história da América Latina.

Tudo para “la revolución”

Após tomar a capital e com a fuga do então presidente Fulgêncio Baptista do país, o governo revolucionário de Cuba liderado por Fidel Castro e Che Guevara decide nacionalizar inicialmente as empresas consideradas mais estratégicas. Assim aconteceu com todas as companhias aéreas locais, em maio de 1958, quando acontece a expropriação de todos os seus investidores. Por ser a maior e mais representativa aérea local da época, a Cubana passa a incorporar todas as outras empresas e é renomeada para Empresa Consolidada Cubana de Aviación. Após um processo de reestruturação que durou quase dois anos, a companhia reinicia suas operações em 27 de junho de 1961. 

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Com o rompimento das relações com os EUA em 1961 e a imposição do embargo dos EUA em 1962, a Cubana é forçada a cancelar todos os seus serviços aos Estados Unidos e recorre à União Soviética para obter novas aeronaves e suprimentos. As primeiras aeronaves soviéticas passam a compor sua frota pouco a pouco, sendo os primeiros os modelos Ilyushin Il-14 e Il-18 os primeiros a chegar. Nesse momento, ela torna-se a primeira companhia aérea das Américas a operar aeronaves produzidas na antiga URSS. 

Nos anos e décadas que se seguem, uma sorte incrível de aeronaves da antiga União Soviética opera na Cubana, incluindo os Antonovs An-12, An-24, An-26, An-30; Ilyushin Il-14, Il-18, Il-62, Il96; Tupolev Tu-154, Tu-204; e Yakovlev Yak-40 e Yak-42.

A Cubana no Brasil

No ano de 1993, Brasil e Cuba assinam um acordo bilateral que viabiliza as operações aéreas entre os dois países. No mesmo ano, um Ilyushin IL-62 da Cubana pousa em São Paulo, concretizando o pleito e inaugurando a ligação.

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Por muito tempo, a empresa manteve seu voo semanal, que chegava no final da tarde em São Paulo e partia no início da noite para Cuba. Com o aumento do número de turistas na rota, no final dos anos 1990, a empresa moderniza o equipamento e aumenta a capacidade, vindo a operar com Airbus A320 e, mais tarde, com o DC-10-30. Em 2002, retorna o Ilyushin-62, que permanece até 2004, quando a rota é encerrada. Mais recentemente, em meados dos anos 2010, a empresa chegou a ensaiar, por várias vezes, o seu retorno ao Brasil, tendo operado com Tupolev 204 e Ilyushin 96-300, no entanto as empreitadas não avançaram além de poucos meses de operação antes de serem canceladas.

Como está a Cubana hoje?

A empresa trabalhou na modernização da frota da forma que pode, o embargo americano e a amizade com os russos ainda influenciam de maneira relevante as decisões na empresa aérea. Sua modesta frota de 15 aeronaves possui basicamente aeronaves russas e ucranianas, e apenas duas “ocidentais”, conforme segue: são seis AN158, quatro IL-96-300 para longo curso, três TU-204 e 2 ATR-72-500.

Os números e finanças da empresa são uma incógnita, uma vez que o governo da ilha não os divulga, então é impossível precisar como está a saúde financeira da empresa. Seus voos hoje abrangem ligações países como Argentina, Mexico, Espanha, Venezuela, França, Republica Dominicana e Canadá, além de uma rede de voos domésticos.

Carlos Ferreira

É profissional de marketing e pesquisador de temas relacionados à aviação há quase duas décadas. Leva a câmera fotográfica para onde vai e faz mais fotos de aviões do que dos passeios. Responsável pela linha editorial da revista eletrônica AEROIN.net.