Ainda novos, os Airbus A380 estão sendo retirados. Para onde eles vão?

O ano de 2019 foi marcado pela confirmação da redução da vida operacional dos Airbus A380. Enquanto certos modelos de aeronave voaram por décadas na história da aviação, os gigantes de dois andares estão enfrentando uma aposentadoria precoce em torno dos 10 a 15 anos. Então, para onde vão essas aeronaves tão grandes?

Avião Airbus A380

Será que existe um mercado em segunda mão para os A380, uma vez que ele complete seu tempo com uma companhia aérea? Com um total de 251 unidades construídas até o término da fabricação, o mundo encontrará um uso para esta majestosa aeronave depois que seus proprietários mudarem para modelos mais econômicos?

Aposentadoria precoce

Muitos ainda se perguntam o que levou esse notável projeto da Airbus a enfrentar uma aposentadoria tão precoce. A reposta mais óbvia leva à questão do consumo de combustível, já que as aeronaves de 4 motores estão perdendo espaço de forma cada vez mais acelerada para os modernos e leves bimotores.

Sendo assim, o que explica, por exemplo, o sucesso da companhia árabe Emirates Airlines, fazendo rios de dinheiro com o mesmo modelo que se tornou um fardo para outras empresas aéreas?

Avião Airbus A380 Emirates

O próprio CEO da Emirates, Tim Clark, deu pistas sobre isso em uma entrevista, e não teve dó ao tecer críticas ao CEO das companhias aéreas que criticam a viabilidade do Airbus A380, como a Air France. Quando questionado sobre a opinião de que o avião de dois andares tornou-se difícil e obsoleto, Tim explicou que o A380 foi um desajuste para a Air France:

Eles nunca escalaram, eles só têm dez aeronaves. Sim, enfrentamos os mesmos problemas no nosso início, mas pudemos lidar com eles porque dimensionamos o suficiente para lidar com isso. Se você tem uma sub-frota de 10, é um pesadelo sangrento e os custos aumentam, ela está absolutamente certa. Mas, se você tem uma centena deles, é um pouco diferente. Seus custos unitários ao operar com esse número são muito mais baixos do que apenas dez.”

O executivo ainda destacou que as empresas também não souberam fazer um bom trabalho para oferecer um produto diferenciado com o super-jumbo:

“Olhe para o interior deles. O que eles realmente fizeram para chocar sua comunidade de mercado com o A380? Por que a Emirates, depois da Singapore Airlines, revolucionou o segmento em termos de chuveiros, bares e grandes telas de TV? Fizemos isso por uma razão muito bem calculada. Não foi para fazer graça. Simplesmente resolvemos assumir um risco e um investimento enormes.”

Avião Airbus A380 Emirates Spa Banheiro Chuveiro
Spa a bordo no A380 da Emirates

Porém, independente de acertos ou erros de estratégias, o fato é que os gigantes agora precisarão de um fim específico. O que fazer?

O que fazer com os A380?

À medida que a Airbus vai encerrando sua produção e entregando as últimas unidades à Emirates, os primeiros A380 que entraram em serviço já vão sendo retirados de operação e tomando seus novos rumos, que significam desde a continuidade dos voos até a triste desmontagem das aeronaves.

Confira a seguir algumas opções de destino que os A380 estão tendo ou terão ao longo dos próximos anos e décadas.

Voar em outra companhia aérea

Embora caro de se operar, o Airbus A380 ainda encontra uso específico em algumas companhias aéreas, ao invés de encerrar definitivamente seus voos.

Print Vídeo A380 HiFly Paris
A380 da HiFly

Por exemplo, a portuguesa Hi Fly adquiriu uma unidade que pertenceu à Singapore Airlines e utiliza a aeronave para aluguel. Sempre que uma operação exige um transporte massivo de passageiros, lá está a Hi fly oferecendo seu A380, já com pilotos, comissários e combustível – como no caso da vinda até a Venezuela, quando a aviação local passou por dias de caos em meio à crise generalizada do país.

A própria Hi Fly já declarou que pode adquirir mais A380 em breve, pois a aeronave tem sido um diferencial importante nesse mercado de aluguel, que não possui nenhuma outra empresa oferecendo o modelo.

Substituir outros A380 mais velhos

Embora possa parecer estranho, o A380 também deve substituir outros A380. Vamos colocar isso em contexto.

A British Airways disse que, em vez de retirar sua frota de aeronaves A380 e substituí-la por outro modelo, ela simplesmente comprará aeronaves A380 mais novas de outras companhias aéreas. A vantagem é o custo, pois permanecerá com o mesmo avião (portanto, não terá que alterar nenhum de seus processos ou treinamento de pessoal), reduzirá os gastos com manutenção, e tudo isso com um custo menor do que se tivesse adquirido mais unidades novas de fábrica.

Avião Airbus A380 British Airways

Companhias que optarem por essa estratégia podem até aproveitar a vantagem de contar com interiores diferenciados, caso comprem unidades usadas de empresas como a Emirates, a Etihad ou a Singapore. Foi exatamente o que aconteceu com a Hi Fly: em seu A380, possui as suítes de primeira classe do A380 que era da Singapore. Um grande negócio!

Avião Airbus A380 Singapore Interior Suíte
Suíte do A380 da Singapore – Imagem: Singapore

Retornar ao locador

Muitos dos A380 pertencem a empresas de leasing, que retomarão suas aeronaves devido à suspensão do contrato. Nesse caso, caberá ao dono da aeronave determinar o fim do gigante: um novo leasing, uma transformação em um A380 VIP para algum bilionário, entre outras opções.

A380 Air France Pintura Branca Malta
A380 todo branco para devolução ao lessor – Imagem: John Visanich

É exatamente o que está acontecendo com o primeiro super-jumbo a ser retirado da frota da Air France, o exemplar de matrícula F-HPJB. Ele recentemente foi pintado completamente de branco enquanto ainda opera na companhia francesa, porque em breve voltará ao lessor. As demais 9 unidades serão todas removidas até 2022.

Segundo dados do FlightRadar24, até a data de ontem o F-HPJB tem efetuado voos de Paris para diversos destinos em todas as partes do planeta.

FlightRadar24 Voo A380 F-HPJB Branco Air France
Voos do A380 F-HPJB nos últimos dias – Imagem: FlightRadar24

Servir de estoque de peças

A prática de separar algumas unidades de um modelo, para que sejam canibalizadas com o objetivo de fornecer peças para o restante da frota, é muito comum em aeronaves antigas. Após anos ou décadas fora de produção, não há mais peças disponíveis para compra, sendo a única alternativa o uso de componentes removidos dos aviões mais antigos.

No caso específico do A380, a prática parece não ser aplicável já que a Airbus ainda tem a linha de produção ativa, e por algum tempo ainda fornecerá suporte aos seus clientes. Porém, a Emirates, aproveitando-se de sua enorme frota de mais de 100 unidades, já declarou que canibalizará alguns aviões.

Isso ocorrerá porque o A380 precisa fazer uma complexa substituição de seu conjunto de trens de pouso a cada 10 anos, e a companhia aérea árabe definiu que é mais econômico retirar alguns gigantes de operação e utilizar os trens de pouso em outros, do que pagar pelo serviço definido pela Airbus. Veja no vídeo a seguir o processo de substituição:

Ser desmontado

Além da opção anterior, em que a própria companhia aérea desmonta partes de suas aeronaves para uso em outras, vários Airbus A380 também terão o triste fim de serem completamente desmontados para que suas peças abasteçam o mercado secundário de fornecimento de partes.

TARMAC Aerosave Primeiro A380 desmontado
A380 desmontado – Imagem: TARMAC Aerosave

Nesse caso, empresas especializadas no desmonte de aviões são contratadas para efetuar o serviço, ou compram os exemplares a preços bastante depreciados e depois revendem as partes removidas.

Essa opção também já começou a ser colocada em prática. Em novembro desse ano, o primeiro A380 a ser desmontado na história, que pertenceu à Singapore Airlines, teve sua “desconstrução” concluída pela TARMAC Aerosave, e a segunda unidade da história também já está passando pelo mesmo processo.

Escolha na seleção de matérias a seguir mais informações e curiosidades que você queira saber sobre a gigante aeronave A380 da Airbus:

Murilo Bassetohttp://www.aeroin.net
Formado em Engenharia Mecânica e Pós-Graduando em Engenharia de Manutenção Aeronáutica, possui mais de 6 anos de experiência na área controle técnico de manutenção aeronáutica.

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