Air France-KLM cogita usar trens como alternativa aos voos de curto alcance

O Grupo Air France-KLM avalia uso de transporte ferroviário como alternativa aos voos de curto alcance, como forma de cumprir requisitos ambientais exigidos pelo Governo francês como parte da concessão de resgate financeiro ao Grupo.

O grupo franco-holandês recebeu recentemente um aporte de $7 bilhões de euros do governo francês, destinado a suportar o caixa da empresa, enquanto combate os efeitos econômicos provocados pela pandemia do novo coronavírus.

Segundo o ministro das Finanças da França, Bruno le Maire, este pacote de ajuda é acompanhado por requisitos de sustentabilidade vistos como necessários pelo governo. Por sua vez, o socorro por parte do governo holandês, que varia de $2 a $4 bilhões de euros, ainda está em negociação, segundo o The Brussels Times.

Uma das condições estabelecidas pelo governo da França na concessão do resgate é que o Grupo trabalhe de forma a reduzir suas emissões de CO2 durante as operações. Para isso, algumas medidas já estão sendo tomadas.

Dentre as ações previstas, o conglomerado pretende utilizar aeronaves e combustível ecológicos, além da inusitada ideia de usar a integração com trens como uma opção alternativa para completar diversas rotas domésticas da Air France.

Assim, segundo o The Brussels Times, o Grupo estaria estudando a possibilidade do emprego de trens ao invés de aeronaves em certas ligações de curto alcance. O anúncio foi feito antes da Assembleia de acionistas do Grupo.

Após o verão europeu, a empresa apresentará uma atualização de sua estratégia. A Air France entende que há muito a ganhar com uma revisão da maneira como opera seus voos domésticos que, em 2019, lhe causaram uma perda de €200 milhões.

Operação já realizada pela Air France

A Air France já opera um serviço conjugado com o TGV, o trem de alta velocidade francês, que proporciona aos clientes da aérea francesa, em uma única reserva, utilizar o transporte ferroviário com destino aos dois aeroportos na capital francesa, o Charles de Gaulle e o Paris-Orly. Em Orly, a fase final da viagem entre a estação parisiense Massy-TGV e o aeroporto é feita de táxi, que já está no pacote da reserva.

Para o Charles de Gaulle são disponibilizados via TGV 14 destinos, dentre eles Lion, Nantes, Estrasburgo e Le Mans. Para Orly são 11 destinos, destacando-se entre eles também a ligação para as cidades de Lion, Nantes, Estrasburgo e Le Mans. O serviço oferecido é de ida e volta.

O passageiro deve utilizar, o transporte ferroviário dentro de 24 horas antes do embarque no voo, seja regional ou internacional, em ambos os aeroportos. Na volta o procedimento é inverso, o usuário tem 24 horas após a chegada de seu voo, para utilizar o transporte ferroviário.

Mas a exigência do governo deve levar essa ideia além, fazendo com que a empresa francesa troque efetivamente seus voos por viagens de trem, de forma mais intensiva.

Serviço Air France-TGV no deslocamento sentido aeroportos. Fonte: Air France
Serviço Air France-TGV no deslocamento partindo dos aeroportos (sentido inverso). Fonte: Air France

Crise no setor aéreo

A Air France-KLM acredita que várias companhias aéreas não sobrevivam à crise, levando à uma consolidação do setor. Se surgirem oportunidades, o grupo também se beneficiará delas, mas esse não é o caso no momento, acrescentou o Grupo durante o anúncio.

Ainda, segundo o The Brussels Times, o Grupo não espera que os voos voltem aos níveis pré-crise antes de 2022. Para economizar, os investimentos planejados foram reduzidos em um terço, para € 2,4 bilhões. Além disso, os custos operacionais também deverão ser reduzidos.

O Grupo Air France-KLM é resultado de uma fusão entre a Air France e a KLM em 2004. De acordo com o MarketScreener, seus maiores acionistas são o Governo Francês com 14,3% de participação e o Governo Holandês com 14% das ações. Também detém participação no grupo as aéreas China Eastern Airlines e Delta Air Lines, com 8,76% de participação cada.

O Grupo possui uma pequena participação na brasileira Gol, com 1,55% de ações, segundo o MarketScreener.

No final de 2019, o grupo possuía uma frota de 554 aeronaves (incluindo 224 próprias e 330 arrendadas) divididas entre as frotas domésticas da Air France (302), KLM (172) e Transavia (80), conforme dados do MarketScreener.

Rodnei Diniz
Engenheiro aeronáutico e mecânico, atuante em gestão de manutenção aeronáutica, aviação geral, executiva e comercial. Atento aos detalhes, gosta de ler e escrever sobre a história da aviação.

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