O Airbus A340 da TAP e o pouso na pista de táxi em São Paulo

A TAP Air Portugal fez sua despedida da era dos quadrijatos com o seu último voo com o Airbus A340-300 nesta semana. E a clássica aeronave já foi protagonista de um dos casos mais famosos da aviação nacional.

Airbus A340 TAP

O Airbus A340-300 fez seu último voo comercial na companhia portuguesa no último sábado, ligando Recife a Lisboa. Inclusive já voamos nesta rota na Executiva e você pode conferir clicando aqui.

A cidade pernambucana foi uma das que recebeu o quadrijato dentre as várias do Brasil: Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Natal, Rio de Janeiro e São Paulo também receberam o memorável Airbus.

E São Paulo ficou marcada por um episódio que é motivo de discussão e até de piadas maldosas no meio aeronáutico: o A340 português pousou na pista de táxi, e não na de pouso.

O caso aconteceu em 21 de fevereiro de 2006 com o avião de matrícula CS-TOD, o último do tipo a ser recebido pela TAP.

Operando o voo TAP 97 de Lisboa para o Rio de Janeiro e São Paulo, a aeronave estava autorizada para pouso na pista 27R do aeroporto de Guarulhos quando pousou na taxiway B (“Bravo”), ao lado direito da pista.

Como aconteceu

Vista de satélite da pista (verde) e a taxiway (vermelho)

O avião seguia normalmente seu voo até iniciar a aproximação VOR da cabeceira, que não estava com o mais preciso instrumento ILS (auxílio de pouso) em funcionamento e as luzes ALS (luzes de indicação antes da cabeceira da pista) também estavam desligadas.

Apesar do tempo adverso, com chuva recente e praticamente encoberto, a tripulação fez a aproximação manualmente, já que tinha avistado a pista a 10 milhas náuticas de distância (18 km).

Quando a aeronave estava mais próxima da pista, o sol voltou a aparecer entre as nuvens, iluminando o chão e refletindo sua luz na cabine de comando devido à pista molhada, fenômeno conhecido como espelhamento.

Carta da Jeppesen mostra a taxiway B (em vermelho) e a pista 27R

Com esta dificuldade visual, os pilotos da TAP acabaram por confundir a pista 27R com a taxiway Bravo. Momentos antes de tocarem o solo, foram informados pela torre para arremeter, já que estavam pousando no local errado, com os dizeres “Portugal 97, pull up“.

O controlador brasileiro que havia feito toda a fonia com o avião em português decidiu mudar para inglês, sendo assim os pilotos portugueses acharam que o aviso não era para eles.

Além disso, o controlador utilizou o termo errado: pull up significa puxar para cima e normalmente é um aviso de cabine para evitar colisão com o solo (GPWS). Para arremetidas, o termo correto é Go Around.

Sendo assim o avião prosseguiu até o pouso e, apesar de ter aterrissado na taxiway, a aeronave não sofreu danos.

Mais tarde os pilotos foram informados do erro e negaram de início, até que uma inspeção na taxiway Bravo identificou as marcas do toque do trem de pouso.

O investigação do CENIPA emitiu recomendações, como a de não utilização da língua portuguesa com tripulações não brasileiras, devido às diferenças linguísticas que podem ocasionar problemas.

Outro ponto recomendado pelo órgão foi que o aeroporto mantenha as luzes ALS acesas, independente da hora e da condição meteorológica. Todas as medidas foram tomadas logo após o ocorrido, e hoje nenhum TAP se comunica em português no Brasil – e até mesmo em Portugal, salvo ocasiões especiais e/ou emergência.

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é Piloto Comercial, Despachante, Bacharel em Ciências Aeronáuticas, membro da AOPA e veterano da Western Michigan University #GoBroncos