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Análise: faz sentido tudo que foi dito sobre a Itapemirim decolar de novo?

Há quem diga que os árabes dominarão o mundo. Ao menos por aqui, parece que eles já estão empenhados nessa missão. E o resultado das últimas negociações entre brasileiros e árabes trouxe saudosas lembranças à mente dos amantes da aviação, sobre os clássicos Boeings 727 cargueiros da Itapemirim, os amarelões que voavam pelo país.

Mas faz sentido tudo que foi dito nessa semana sobre o assunto?

Avião Boeing 727 Itapemirim Cargo
Boeing 727 da Itapemirim Cargo – Imagem: Aero Icarus [CC]

Segundo a ANBA, o governador do estado de São Paulo, João Doria, encerrou na última quarta-feira, 12 de fevereiro, a nona e também maior missão de negócios do estado no mercado externo. A estimativa é que os aportes árabes no plano de desestatização de São Paulo alcancem até R$ 30 bilhões até o final de 2022.

Dentre os negócios discutidos, destacou-se nessa semana a informação de que a Viação Itapemirim receberá investimento de um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos para a criação de uma companhia aérea. Seria essa a volta dos clássicos trijatos amarelões de cargas? Certamente não, mas seria uma volta com outro foco, no mercado de passageiros.

Aporte bilionário e planos

A Itapemirim anunciou que receberá um investimento de US$ 500 milhões do fundo dos Emirados, ou cerca de R$ 2,15 bilhões pela cotação atual do dólar. O presidente da companhia, Sidnei Piva, foi quem se pronunciou sobre os detalhes do negócio, que ele teria fechado na própria quarta-feira de encerramento da missão no Oriente Médio.

Em entrevista à ANBA no jantar de encerramento da missão, Piva disse que sua proposta para a viagem era buscar investimentos para a reformulação de frota rodoviária da Itapemirim e trazer investimento para a empresa aérea do grupo, que deve receber sua primeira aeronave comercial de passageiros em 2022.

A ideia é que o investimento traga retorno em número de passageiros do Brasil para os Emirados. “O nosso projeto é trabalhar todo o Brasil, principalmente os seus aeroportos regionais, onde vamos formar um grande contingente, o maior número de pessoas possível para levar para as capitais, para que haja condições de trazer mais pessoas não só para os Emirados mas para a Europa, América do Norte, enfim, montar um hub Brasil-Emirados”.

O interesse do fundo de investimento na empresa de transportes é pela logística, segundo Piva. “Nós atendemos 22 estados e temos toda a logística necessária não só para um bom atendimento de passageiros, mas também para levar o aéreo para a população. O retorno para o fundo prevemos que seja de US$ 1,5 bilhão em cinco anos. Isso é muito dinheiro para muito pouco tempo”, completou.

Segundo a Folha, já estariam confirmadas as encomendas de 35 aeronave da Bombardier, sendo 15 unidades com capacidade para 80 passageiros e as outras 20 com capacidade para 100. Possivelmente, tratam-se dos turboélices Dash 8 e dos jatos CRJ 1000, respectivamente.

Avião Bombardier CRJ1000
Jato regional CRJ1000 – Imagem: Bombardier

Mas tudo isso faz sentido?

Certamente torcemos para que os planos sejam tão concretos quanto são grandes e entusiasmados. Nova empresa aérea, novos empregos, novas opções para os passageiros, movimentação da economia, é o que mais queremos para nossa aviação. Mas vamos analisar, mesmo que de forma simples, as informações veiculadas nessa semana.

Se o que Piva falou à ANBA foi exatamente “o maior número de pessoas possível para levar para as capitais, para que haja condições de trazer mais pessoas não só para os Emirados mas para a Europa, América do Norte, enfim, montar um hub Brasil-Emirados”, causa alguma estranheza a mistura de informações.

O acordo é com os árabes, para montar um hub Brasil-Emirados? Ou o foco será dividido para parcerias também com outras companhias aéreas para alimentar voos para a Europa e a América do Norte?

A única ligação direta dos Emirados Árabes com o Brasil se dá pelos voos da companhia aérea Emirates Airlines, feitos de Dubai para Guarulhos com o Airbus A380 e de Dubai para o Rio de Janeiro com o Boeing 777.

Levar pessoas de cidades regionais para qualquer outra das capitais brasileiras não faria sentido no modelo de hub Brasil-Emirados. Falta clareza nesse objetivo.

Encomenda de aeronaves

Também causa alguma estranheza a informação sobre a encomenda de 35 aeronaves já feitas junto à Bombardier. Por dois motivos principais.

Primeiramente, porque grandes encomendas como essa não ficam restritas à divulgação apenas pelo comprador. Onde está a mídia especializada internacional divulgando uma grande compra de mais de três dezenas de aviões comerciais? Onde está a fabricante ou o lessor anunciando a conquista de mais um cliente?

Em segundo lugar, o aporte dos árabes teria sido confirmado no último dia da missão, a quarta-feira dia 12, não foi? Quão rápido foi esse contato com a fabricante de aeronaves ou com algum lessor, para que no dia seguinte, 13, estivesse fechado um acordo desse porte para a compra de tantas aeronaves?

Tudo parece especulativo demais até o momento. Um pouco de ceticismo é sempre bem-vindo, mesmo diante do desejo e da torcida para o surgimento de uma nova empresa regional integrada com o modal rodoviário. Aguardemos ações mais concretas.