Companhia que contratou pilotos ex-Avianca, Hong Kong Airlines poderá falir

O mega grupo chinês HNA (Hainan Airlines) está passando por uma séria turbulência e pode perder sua primeira companhia aérea: a Hong Kong Airlines.

Airbus A330 Hong Kong Airlines
Airbus A330 da Hong Kong Airlines

De acordo com o South China Morning Post, o governo chinês deu cinco dias para que os executivos salvem a companhia. Isso significa que, se até o dia 7 de dezembro, a empresa não se capitalizar ou achar novos investidores, o seu certificado aéreo será suspenso ou até revogado.

Na prática, sem o Certificado de Operador Aéreo (COA), a empresa não tem autorização para fazer nenhum tipo de voo comercial e, portanto, terá que fechar as portas. Com o agravante de faltar 18 dias para o Natal e tendo 3.500 funcionários.

A ALTA – Autoridade de Licensa de Transporte Aéreo – concluiu que as finanças da terceira maior companhia aérea da cidade-estado Hong Kong estão “deteriorando rapidamente”. A empresa já passava por apertos que incorreram no atraso no pagamento de salários e lessores, corte de todas as rotas internacionais de longa duração e até chegaram ao ponto de desligar o sistema de entretenimento de bordo para cortar custos.

Como chegou a esse ponto?

Apesar de estar fisicamente na China, a Hong Kong Airlines não serve diretamente ao mercado de aviação chinês, o que mais cresce nos últimos anos. Por ter uma liberdade administrativa maior e já ter sido mais independente no passado, Hong Kong impõe regras diferentes da China para a aviação.

Um exemplo é que companhias chinesas baseadas fora da cidade-estado não podem operar voos internacionais a partir de Hong Kong, como é o caso da Air China e China Southern, sediadas na capital Pequim, e da China Eastern, de Xangai. Essas três empresas podem apenas fazer voos domésticos a partir de Hong Kong.

Para evitar esta restrição e poder explorar um dos maiores mercados do país, o grupo HNA fundou em 2006 a Hong Kong Airlines.

Foto de Edwin Leong [CC]

Os 10 primeiros anos foram de crescimento fora de série, assim como de outras companhias aéreas do grupo, como a Hainan Airlines e a Beijing Capital Airlines. Porém, o crescimento exagerado começou a cobrar seu preço em 2018, com perdas oriundas da concorrência crescente.

Para a Hong Kong Airlines um fator contribuiu ainda mais: os protestos em Hong Kong fizeram com que o turismo caísse 50% no mês de outubro passado, quando comparado com o mesmo mês de 2018.

Além disso, o governo chinês tem pressionado a HNA e seus funcionários a tomar partido nos protestos, sendo contra a “rebelião” que acontece na cidade-estado.

Antiga parceira da Azul contratou brasileiros que eram da Avianca

A350 Hong Kong
Airbus A350 da Hong Kong que iria para a Azul

A empresa, que é a terceira maior da cidade atrás da Cathay Pacific e da HK Express (recém-comprada pela Cathay), afirmou que está conversando com os investidores para atender os pedidos da ALTA. Até lá a operação permanece sem alterações.

Vale lembrar que a Hong Kong Airlines recebeu os Airbus A350 que iriam para a Azul, no auge da crise brasileira e da ascensão da chinesa em 2017. Na época, o HNA Group possuía 17% das ações da Azul, e decidiu ajudar a brasileira, que desistiu do A350 para, mais tarde, adquirir o A330neo, reduzindo assim custos em meio à recessão no Brasil.

Em 2018 a HNA desfez o negócio e vendeu suas ações da Azul, que hoje tem a United Airlines como maior companhia aérea acionista. Ainda assim, as empresas mantiveram um acordo de code-share nos voos da Azul em Portugal, assim como os da TAP que também é parceira da HNA.

No início deste ano o grupo HNA fez um roadshow para contratar diversos pilotos brasileiros com experiência. O evento aconteceu em fevereiro, no auge da crise da Avianca Brasil, que culminaria na sua falência efetiva.

Hong Kong Airlines Airbus A330-200; B-LNK@HKG;05.08.2012/671dv

Como muitos pilotos da Avianca Brasil perceberam que o momento era crítico, foram então para a China, já que tinham todas os requisitos que a HNA pedia, como carteira válida de Airbus A320 ou A330.

O salário era atrativo: R$1,1 milhão por ano, sem contar impostos. Infelizmente, agora estes pilotos brasileiros enfrentam o mesmo dilema que enfrentaram no início do ano.

Segundo fontes no setor, algumas dezenas de brasileiros estão voando hoje na Hong Kong Airlines dentre outras empresas do grupo HNA, sendo a maioria absoluta de ex-Avianca Brasil.

Com informações do South China Morning Post

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é Piloto Comercial, Despachante, Bacharel em Ciências Aeronáuticas, membro da AOPA e veterano da Western Michigan University #GoBroncos