Após o sério incidente de Tallinn, Airbus revisa lógica do A320 e fará retrofit em 2020

A Airbus está desenvolvendo uma atualização para reduzir o risco de uma nova falha na lógica do sistema automático de controle de profundor do modelo A320, segundo reportou o FlightGlobal nesta terça-feira, 05 de novembro.

A medida vem como consequência do grave incidente ocorrido em fevereiro de 2018, quando um Airbus A320 sofreu sérios danos em um pouso de emergência.

Acidente A320 Smartlynx Tallinn 2018
Danos na fuselagem do A320 após o pouso de emergência

O A320-200 da companhia aérea Smartlynx, de registro ES-SAN, realizando o voo de treinamento MYX9001 em Tallinn, na Estônia, com 7 tripulantes, estava fazendo toques e arremetidas na pista 08 do aeroporto, mas depois de um dos procedimentos, a aeronave não conseguiu ganhar altura, tocando de volta na posta com muita força.

Faíscas e chamas foram vistas até que a aeronave conseguisse levantar voo novamente, e o transponder (equipamento que recebe e transmite informações como altitude, velocidade e posição) falhou devido à força da pancada.

A tripulação declarou emergência, posicionou-se para a aterrissagem e pousou na pista 26, quando um estrondo foi ouvido e a aeronave desviou-se para fora da pista, perdendo algumas partes.

Acidente A320 Smartlynx Tallinn 2018

Acidente A320 Smartlynx Tallinn 2018

As investigações mostraram que a aeronave perdeu o controle do profundor (parte móvel horizontal da cauda) logo após o pouso daquele toque e arremetida, mas a tripulação descobriu a perda apenas quando acelerou novamente para a arremetida.

O A320 retornou ao ar antes do previsto como resultado da posição incorreta do estabilizador horizontal (parte horizontal completa da cauda), o que gerou o afundamento posterior com impacto na pista e, na sequência, uma subida acentuada com os motores danificados e o profundor inoperante.

Descobertas da investigação

A autoridade de investigação estoniana OJK descobriu que, durante cada uma das várias aterrissagens anteriores, o piloto instrutor estava segurando a roda de compensação (uma roda preta que fica na cabine para que o piloto possa fazer ajustes da posição do estabilizador) para impedir que o estabilizador retornasse ao ponto neutro, a fim de manter uma configuração de decolagem para as arremetidas.

Pitch Control Wheel Roda de Ajuste de Profundor
Roda de compensação, usada pelo piloto para ajustar o profundor

Essa ação teria sido observada pelos computadores da aeronave como uma discrepância entre as posições real e comandada do estabilizador.

Para que essa situação não seja interpretada pelo sistema como uma fuga do padrão, há um mecanismo de segurança projetado para detectar a ação de controle manual e desengatar a roda de compensação, fazendo com que o computador atue no controle da aeronave, ao invés do piloto.

Mas a investigação constatou que um tipo errado de óleo – com o dobro da viscosidade do óleo necessário – foi usado no mecanismo de segurança, resultando na ativação incorreta do desengate da roda.

Também foi verificado que a documentação de manutenção da aeronave não requer nenhum teste do mecanismo durante verificações regulares, o que pode ter contribuído para que o uso do óleo errado não fosse percebido.

Bagunça nos computadores de voo

Avião Airbus A320
Airbus A320

A OJK diz que a pressão manual do instrutor da roda de compensação do estabilizador não foi registrada corretamente pelo sistema, gerando um acionamento irregular e a perda do funcionamento dos dois computadores que controlam o profundor e os ailerons.

Quando o sistema do A320 identifica que não há computador de controle de profundor e ailerons disponível, a lógica do sistema muda para que o controle passe para o computador de profundor e spoilers. Então a aeronave deveria ter continuado com funcionamento normal do profundor.

Mas a OJK também descobriu que uma “falha de design” permitiu que, devido à pancada do pouso, uma discrepância lógica de consolidação entre os dois canais do computador de profundor e spoilers ocorresse, fazendo com que eles não se comunicasse e um computador se mantivesse na lei de voo e o outro computador na lei de solo. Ou seja, a aeronave não sabia se estava voando ou se estava em solo.

Isso resultou na perda de controle de ambos os profundores pelos computadores de profundor e spoiler e, posteriormente, no movimento e travamento dos profundores na posição neutra – configurando a falha quando o A320 acelerou para a decolagem.

Atualização e retrofif

Assim, a Airbus está desenvolvendo uma modificação de software para este computador, com o objetivo de “mitigar as consequências” de uma falha na detecção de controle manual do estabilizador horizontal através da roda de compensação. A certificação dessa atualização e o retrofit global estão planejados para meados de 2020.

Todos os sete ocupantes do A320, incluindo os quatro estudantes pilotos, sobreviveram depois que o instrutor e um piloto de segurança conseguiram usar apenas impulso dos motores danificados e o ajuste do estabilizador horizontal para retornar a Tallinn para um pouso de emergência. Ambos os motores falharam antes de a aeronave pousar e o jato foi posteriormente tirado de serviço.

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.