Boeing 777 VIP bateu asa e estabilizador no solo em desastrada arremetida, aponta investigação

Investigadores franceses detalharam a tentativa de pouso mal sucedida da tripulação de um Boeing 777-200ER VIP, que bateu sua asa esquerda e seu estabilizador horizontal no solo em Paris Le Bourget, antes dos pilotos executarem uma arremetida.

N777AS Boeing 777-200 Mid East Jet
Boeing 777-200 N777AS – Imagem: Markus Eigenheer [CC]

A autoridade de investigação BEA diz que a tripulação tentou corrigir o percurso de voo do 777 depois de ultrapassar o alinhamento central da pista em uma curva de baixa altitude, apesar da inércia do grande jato bimotor, que dificulta essa manobra. A abordagem era instável, e foi abortada tardiamente.

A aeronave em questão, registrada nos EUA com a matrícula N777AS, era operada pela Mid East Jet, ligada à Arábia Saudita, e chegava de Riad em 5 de junho de 2016.

O incidente ocorreu na aproximação da pista 25 de Le Bourget, que exige que a aeronave se aproxime do Leste em uma direção de 276° – deslocada do rumo da linha central da pista em 26° – antes de virar levemente para a esquerda para alinhar. Isso é feito para evitar conflito com o tráfego do principal aeroporto de Paris, o Charles de Gaulle.

Veja a seguir um vídeo gravado a bordo de um Boeing 777 executando a aproximação:

Como tudo ocorreu naquele dia

Os dados mostram que a tripulação desacoplou o piloto automático antes de ultrapassar a altitude mínima de descida de 800 pés (240 metros), e quando a aeronave atingiu 300 pés (90 metros) acima do nível do aeroporto, estava descendo a 900 pés/min, momento em que a tripulação retardou as manetes de potência.

A aeronave estava em um rumo de 275° e a 1.100 metros da cabeceira quando o comandante começou a curva à esquerda para alinhamento.

O BEA diz que a aeronave mudou para uma ligeira atitude de nariz para baixo e, embora o comandante tenha elevado um pouco o nariz da aeronave, a tripulação recebeu um aviso de ‘sink rate’ (taxa de afundamento), pois sua taxa de descida aumentou para 1.200 pés/min a 150 pés (45 metros) de altura.

À medida que o comandante aumentava a atitude de nariz para cima e avançava as manetes de empuxo, o 777 ultrapassou a linha central da pista a 100 pés (30 metros) de altura, enquanto inclinava suas asas em 19° para a esquerda.

Não arremeteu

Em vez de executar uma arremetida imediata, a tripulação permitiu que a aeronave voasse ao longo do alinhamento da borda direita da pista – deslocada da linha central em 50 metros – por vários segundos a 100 pés de altura, antes de aparentemente tentar fazer uma correção tardia na aproximação.

O BEA diz que o comandante “fez mais uma curva à esquerda para voltar à pista” e a aeronave começou a descer mais uma vez. Note na imagem a seguir a trajetória sobre a borda direita da pista entre os pontos 2 e 3 da linha vermelha.

BEA trajetória N777AS Le Bourget

O 777 ultrapassou a cabeceira deslocada da pista 25 a cerca de 50 pés de altura com uma taxa de descida de 1.000 pés/min, acionando outro alarme de ‘taxa de afundamento’.

Embora os pilotos tenham aumentado a potência – avançando as mantes da posição de 36° para 70° – eles não ativaram a opção de arremetida.

A potência do motor aumentou, mas a aeronave continuou a descer e o trem de pouso principal direito tocou com um impacto de 1,96 G, com a aeronave com o nariz para cima em 10° e inclinado 16° para a direita. Dois segundos depois, o 777 decolou novamente.

Finalmente a arremetida

A velocidade da aeronave em relação ao ar caiu para 117 nós e a tripulação avançou novamente as manetes de empuxo, para a posição 82°, antes de a aeronave ganhar altura novamente. O pouso definitivo ocorreu mais tarde na pista 07.

O 777 foi examinado depois de pousar, e essa inspeção revelou que o jato havia sofrido danos no bordo de ataque de sua asa direita e na ponta do estabilizador horizontal direito.

As marcas de atrito com o solo, com cerca de 28 metros de comprimento, estavam localizadas no lado direito da pista 25, cerca de 161 metros além da cabeceira deslocada.

Conclusões

O BEA diz que a aeronave permaneceu acionada por muito tempo após o pouso, de forma que os dados do gravador de voz da cabine foram perdidos por terem sido sobrepostos pela continuidade da gravação (após um acidente ou incidente, o fornecimento de energia deve ser cortado para que o gravador para de funcionar e preserve os dados já registrados).

“Na ausência da gravação, foi difícil avaliar com segurança o processo de tomada de decisão da tripulação”, afirma. O BEA diz que não pôde confirmar quando foi declarada a arremetida, nem determinar o envolvimento de um terceiro piloto que também estava situado no cockpit junto com um engenheiro.

Mas diz que o comandante tinha pouca prática ou experiência recente das peculiaridades da abordagem na pista 25 de Le Bourget, e que a falta da busca por uma aproximação estabilizada e a arremetida tardia do pouso instável contribuíram para o grave incidente. Cinco passageiros estavam a bordo e não sofreram qualquer lesão.

Após esse grave incidente, o operador do aeródromo instalou um PAPI (Precision Approach Path Indicator – as luzes vermelhas e brancas na lateral da pista) e está estudando a implementação de um segundo auxílio para monitorar a rota de descida.

Veja nas matérias a seguir mais alguns casos de aproximações não estabilizadas:

Murilo Bassetohttp://www.aeroin.net
Formado em Engenharia Mecânica e Pós-Graduando em Engenharia de Manutenção Aeronáutica, possui mais de 6 anos de experiência na área controle técnico de manutenção aeronáutica.

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