O Boeing 797 morreu. Seria esse o renascimento da fabricante?

Você se lembra do projeto NMA da Boeing? O novo e bastante falado avião de mercado intermediário sendo desenvolvido pela fabricante, e que já era popularmente chamado de 797? Pois bem! Ontem, ele morreu. E esse fato talvez venha a ser o renascimento da empresa.

Avião Boeing 797 NMA
Concepção artística preliminar do Boeing 797. Imagem: Jon Ostrower

Proposto há vários anos, o projeto NMA ofereceria cerca de 270 assentos, com alcance de 4.000 a 5.000 milhas náuticas (7.400 a 9.300 km) e entraria em serviço em meados da década de 2020, bem a tempo das aposentadorias dos 757 e 767.

No entanto, desde então, o mercado mudou e – além do aterramento do 737 MAX, um dos principais focos da Boeing – a Airbus lançou em junho de 2019, no Paris Air Show, o A321XLR, que rapidamente se tornou o favorito de muitas companhias aéreas, com mais de 450 ordens e compromissos.

Após profundas mudanças de cenário, a seguinte declaração foi feita ontem, 22 de janeiro, pelo novo CEO da Boeing, Dave Calhoun, sobre os planos para a aeronave: “Vamos adotar, provavelmente, uma abordagem diferente. Vamos começar com uma folha de papel limpa novamente.”

Mas o que teria levado a uma mudança tão drástica ao ponto de descartar por completo um projeto já bastante desenvolvido?

Mudança de mercado?

Calhoun citou uma mudança de foco de mercado como uma das razões para a abordagem revisada do projeto NMA: “As coisas mudaram um pouco. O campo de jogo competitivo é um pouco diferente. Temos que planejar a China.”

A referência aos chineses talvez se relacione a uma antiga questão da capacidade de transporte de cargas nos porões inferiores.

Ainda no meio de 2018, o próprio mercado dava pistas sobre a questão, quando o dono da Avalon, terceira maior empresa de leasing do mundo, alertou que “As maiores companhias dos Estados Unidos têm um apetite por menos carga do que as asiáticas. Tipicamente, nos Estados Unidos são cinco toneladas de carga. Os asiáticos querem 10 toneladas para esta aeronave. Então, para quem você a constrói?”

Influência do 737 MAX?

Adicionalmente, de acordo com o CEO da Boeing, o novo design do NMA deve estar centrado no sistema de controle de voo e na forma como os pilotos interagem com esse sistema, um problema importante desde a queda dos dois 737 MAX.

“Talvez tenhamos que começar com a filosofia de controle de voo antes de realmente chegarmos ao avião”, disse Calhoun. As decisões de projeto relacionadas aos “pilotos que pilotam aviões” são “muito importantes para o regulador e para que possamos entender o assunto”.

Ou uma mensagem profunda ao mercado?

Mas, talvez, jogar no lixo o que foi desenvolvido até agora no projeto NMA e começar tudo do zero tenha uma razão muito mais importante. Passar ao mercado uma mensagem de profundas mudanças.

Com a imagem da Boeing arranhada pela desconfiança quanto à qualidade e confiabilidade dos métodos usados no desenvolvimento das aeronaves mais recentes, que atinge não apenas o 737 MAX mas também o 777X, e poderia afetar da mesma forma o 797, o novo CEO parece querer dizer apenas uma coisa: “Rompemos a ligação com tudo de errado que foi feito. Viramos a página.”

Seria esse o renascimento da Boeing?

Murilo Bassetohttp://www.aeroin.net
Formado em Engenharia Mecânica e Pós-Graduando em Engenharia de Manutenção Aeronáutica, possui mais de 6 anos de experiência na área controle técnico de manutenção aeronáutica.

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