Boeing ‘manipulou’ testes durante recertificação do 737 MAX, diz Congresso

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Mesmo com a volta do 737 MAX, as dores de cabeça para a Boeing não acabaram e, agora, a fabricante está sendo acusada pelo Congresso Americano de “manipulação” nos voos de recertificação. O pleito ainda será avaliado para identificar o impacto que isso pode ter tido na re-certificação. Entenda.

Em um documento divulgado pelo Comitê de Comércio do Senado Americano, a empresa é acusada, juntamente da FAA, de manipular os testes do jato durante sua recertificação, ao dar dicas “indevidas” aos pilotos. Durante os voos recentes de testes, foram avaliados diversos itens da aeronave, principalmente relacionados ao tempo de resposta dos pilotos para a desativação do MCAS.

Como foi recentemente explicado pelo Comandante Sérgio Quito, da GOL, em último caso os pilotos podem desabilitar o sistema MCAS utilizando os procedimentos de Runaway Stabilizer. Inclusive, foi este o procedimento que uma outra tripulação da Lion Air fez um dia antes do acidente fatal com um MAX da mesma empresa. Este procedimento também é conhecido nas gerações anteriores de 737, como a Classic e a Next Generation (NG).

E foi exatamente nos simuladores mais avançados da série NG que o procedimento foi executado, mas “manipulado”, segundo aponta o relatório do senado americano.

O documento foi divulgado pelo jornalista Jon Ostrower (e você pode acessar clicando neste link). Nele, estão suprimidas algumas partes, escondendo o emissor e recebedor do e-mail polêmico.

O relatório cita que um observador oficial do congresso, que estava presente no teste de simulador, viu funcionários da Boeing instruindo os pilotos de teste a pegarem rapidamente no compensador, um dos procedimentos de Runaway Stabilizer.

A ideia na época era entender o tempo de reação dos pilotos neste procedimento e como o uso (ou a falta dele) poderiam contribuir para um acidente nas mesmas circunstâncias do ocorrido na Lion Air e Ethiopian Airlines.

A “ajuda” da Boeing foi tão decisiva, que o piloto de certificação da FAA, que foi instruído previamente, reagiu ao problema em 4 segundos, enquanto um piloto de testes reserva (que era do grupo de avaliação formado por empresas aéreas) e que foi convocado de última hora, demorou 16 segundos para reagir, quatro vezes mais de tempo.

No final, entre identificar e tomar ações diante da pane, e solucioná-la, os pilotos demoraram de 49 a 62 segundos, um tempo considerável, mas que foi suficiente para recuperar o jato da descida fatal.

Segundo o relatório, “oficiais da Boeing instruíram de maneira inapropriada os pilotos de testes no simulador do MCAS, indo contra os protocolos de testagem […] parece que nesta situação a Boeing e a FAA estava tentando cobrir informações importantes que possam ter contribuído para as tragédias do MAX”.

Testes com pilotos da Southwest apontaram outros resultados

Logo após, outros testes foram feitos com pilotos da Southwest Airlines, maior operadora do mundo do Boeing 737, e principal cliente do modelo MAX.

Os pilotos, com larga experiência no modelo, foram convidados a fazer um “voo com um procedimento de emergência”. A Boeing, no seu manual original do 737, afirma que demora um segundo para reconhecer e iniciar procedimentos de memória (em que o piloto tem que saber de cor as ações) de um problema que leve ao procedimento de Runaway Stabilizer.

Porém, a Southwest Airlines não adota os procedimentos de memória, que são os famosos Memory Itens, e sim um “Checklist de Reação Rápida”. Esta diferença chamou a atenção do observador do congresso, que também notou que os pilotos da Southwest demoram ao menos 7 segundos para reconhecerem o problema e pedir o checklist, ao contrário do um segundo que a Boeing colocou na certificação do jato décadas atrás.

Apesar desta diferença de procedimentos, filosofia e tempo não são o alvo da ação do congresso ou o escopo da recertificação do 737 MAX (já que afeta também outros modelos), o Senado chamou a atenção para este ponto e pediu que fosse revisado.

Até o momento nem a Boeing nem a FAA pronunciaram sobre o assunto. A Southwest Airlines também não comentou o caso.

Nesse sábado, 19 de dezembro, matérias sobre o assunto começaram a aparecer na mídia americana, como o Yahoo! News e o The Verge.

Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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