Bombardier C Series pode ser taxado em 200% após processo da Boeing

Bombardier CS100 da Delta Airlines

Na última terça-feira o Departamento de Comércio dos EUA divulgou uma decisão preliminar sobre a apelação da Boeing a respeito de subsídios ilegais que a canadense Bombardier estaria recebendo. O órgão americano não apenas acatou por agora o pedido da Boeing, que seria para 160% de tarifa alfandegária, mas subiu a taxa para 219,63% por avião vendido, mais do que dobrando o preço da aeronave.




O programa C-Series tem sido alvo de polêmicas desde o início, devido ao número baixo de pedidos (360 até o momento), a ter recorrido ao financiamento público da província de Quebec e às acusações de subsídio ilegal. A briga entre a fabricante canadense e a americana começou já no anúncio da família C-Series, que competiria diretamente com os Embraer E-Jets, que levam de 72 a 146 passageiros. Porém a Bombardier surpreendeu o mercado ao anunciar apenas dois modelos, ambos maiores que os brasileiros: o CS100 de 108 à 135 assentos, e o CS300 de 130 à 165 assentos.

Estes dois modelos surpreenderam Airbus, Boeing e Embraer por dois motivos. Primeirente por não ser compatível com as regras estabelecidas para tamanho máximo de aeronaves de aéreas regionais, principal mercado do antecessor CRJ-200/700/900 e dos E-Jets. Mas o principal motivo, gerador desta polêmica, é a competição direta com o Boeing 737-600/-700/MAX 7 e o Airbus A318. Competir com produtos consolidados e de empresas bem maiores é arriscado, mesmo estando apenas o 737-700 em fabricação atualmente – o MAX 7 ainda está em processo de certificação. Mas os novos aviões da Bombardier significam uma ameaça para o mercado da Boeing, uma vez que o 737-700 leva de 120 à 148 passageiros, e o MAX 7 levará entre 138 e 153 passageiros.

Guerra pelo mercado americano

Boeing 737 MAX da United

A primeira batalha foi em uma encomenda para a United Airlines em janeiro de 2016. A vitória era quase certa por parte da Bombardier, mas a Boeing aumentou os descontos (supostamente chegando a 70% abaixo do preço de lista) e garantiu 40 encomendas do 737-700 para a companhia norte-americana, que foram acrescidas de mais 15 unidades em março. Porém, um mês depois a Delta escolheu a Bombardier para renovação de frota, com 75 encomendas do CS100.

Dar grandes descontos em grandes pedidos é algo extramemente comum na indústria, principalmente na aviação, mas em abril deste ano a Boeing iniciou uma ação junto ao Departamento de Comércio dos EUA com acusação de dumping (colocar o preço abaixo do custo para prejudicar o concorrente). Segundo a Boeing, o CS100 foi comercializado por $19.6 milhões de dólares, abaixo do custo unitário estimado de $33.2 milhões para cada aeronave (o preço de lista da aeronave é de $80 milhões).

A Boeing acusa que a venda para a Delta foi a salvação para o modelo CS100, que contava com apenas 48 encomendas até a aérea norte-americana fechar o negócio. A alegação da Boeing sobre a irregularidade da Bombardier também diz respeito aos subsídios ilegais feitos pelo governo do Canadá para permitir que o projeto C-Series seja viável. Segundo a fabricante norte-americana, estes subsídios colocam em risco diversos empregos, já que ameaçam o 737 e, para reparação disso, seria necessário taxar em 160% cada avião da Bombardier vendido para a Delta. O Departamento de Comércio, em decisão preliminar, acatou as acusações da Boeing e elevou a taxa para 219,63%, fazendo com que cada aeronave custe $40 milhões, aumentando o custo final do negócio em mais de $3 bilhões de dólares.




A Bombardier se pronunciou sobre o assunto dizendo que “discorda da decisão preliminar e que a magnitude da punição proposta é absurda e desconexa da realidade de financiamento de um programa aeronáutico multibilionário”. Já a Delta foi além e disse que “a Boeing não tem produto para oferecer na categoria de 100 até 110 assentos, já que o 717 encerrou a produção há mais de 10 anos. A outra opção oferecida pela Boeing seriam unidades do Embraer E190 de segunda mão, que curiosiamente seriam negociados pela Air Canada”.

A decisão final do Departamento de Comércio será tomada no próximo ano, mas rumores apontam que a punição será mantida, podendo haver modificação no seu valor.

A carta na manga do Canadá

CF-18 Hornet da Royal Canadian Air Force (esq. e centro) e F-18F da US Navy (dir.) fotografados na Academia da Força Aérea

Com atrasos e aumento de custos do programa F-35 Lightning II da Lockheed Martin, o Canadá decidiu comprar 18 unidades do caça Boeing F/A-18 Super Hornet para substituir a curto prazo os atuais CF-18 Hornet que estão chegando ao final de sua vida. Esta compra tem um valor de $5 bilhões de dólares, e a ameaça de cancelamento destas encomendas está sendo usada pelo primeiro-ministro canadense Justin Trudeau.

Trudeau novamente se vê num embate com o presidente americano Donald Trump, que está ao lado da Boeing com suas medidas protecionistas e disse que “estará atento aos subsídios ilegais estrangeiros que possam prejudicar a indústria americana”. A batalha entre os dois países vizinhos e irmãos está longe de acabar, e no fim pode ser uma grande oportunidade para a Embraer, que já domina o mercado regional de ambos os países.

Com informações do Business Insider, e Assessorias de Imprensa da Delta Airlines e da Bombardier Aerospace.

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é Piloto Comercial, Despachante, Bacharel em Ciências Aeronáuticas, membro da AOPA e veterano da Western Michigan University #GoBroncos