Ceiba Airlines e a estranha ponte aérea Guiné – Brasil

EXCLUSIVO

Nos últimos dias o noticiário brasileiro foi tomado pela apreensão recorde da Polícia e Receita Federal das malas que vieram no Boeing 777 do vice-ditador de Guiné Equatorial. Mas para muitos entusiastas, as visitas do Boeing de Guiné não têm nada de novo.

Out 2013: Época do início da “ponte aérea”




A aeronave de pintura belíssima que foi o alvo das atenções é o Boeing 777-200LR de matrícula P4-SKN, anteriormente 3C-MAB na aérea Ceiba Intercontinental, companhia nacional da Guiné Equatorial. Já o seu “antecessor” nos voos ao Brasil é o CS-TQX, que estampa essa matéria.

O CS-TQX foi um assíduo frequentador do Aeroporto de Guarulhos. A aeronave foi fabricada em 2011 e no ano seguinte já começou a dar as caras em São Paulo. As visitas eram tão frequentes que deixaram de ser uma avis rara para mais um mero Boeing no aeroporto.

Decolagem em novembro de 2014

Mas a motivação das visitas sempre foi motivo de suspeita: não era uma rota regular, não havia venda de passagens, na maioria das vezes estacionava na base aérea, poucos passageiros à bordo. Nunca houve uma demanda de passageiros entre os dois países que justificasse um voo direto e praticamente mensal em algumas épocas, quem diria com um Boeing 777 que leva quase 300 passageiros.

A partir desta suspeita, fizemos um levantamento inédito baseado nas fotos do nosso acervo, de colegas e também de registros de terceiros nos sites Flickr, JetPhotos e com dados do FlightRadar24.

Em Guarulhos foram no mínimo 21 visitas entre 2012 e 2017. Em Brasília houve uma em 2016. Colocamos mínimo porque o número é maior (podendo chegar a 30, segundo relatos), mas de registros fotográficos e dados de voo com garantia de datas chegamos ao número de 21 voos. Isto contando apenas o Boeing 777 CS-TQX, pois temos o seu irmão menor, o 767 de matrícula 3C-LLU que também aparecia por aqui.




Este 767 visitou o Rio no ano passado e também neste ano, tendo prosseguido depois para Brasília para o Fórum Mundial da Água. Também passou neste ano por Viracopos, e por Guarulhos duas vezes. Os voos da Ceiba chamavam a atenção porque eram em sua grande maioria nos finais de semana.

Em um vídeo postado no YouTube pelo canal GRUsbgrHD, a aeronave está parada na Base Aérea de São Paulo – BASP como era de hábito. Dentre os comentários de usuários falando das suspeitas sobre os voos serem a mando do ditador, um se destaca. Um usuário declarou ter voado 3x na aeronave trabalhando para a empreiteira A.R.G. Ltda (A.R.G. SA / Grupo ARG).

Esta informação de voos para funcionários de empreiteiras era um rumor antigo, e que fazia sentido já que até a BRA fazia voos fretados para a África com o 767, mas que não duraram muito devido à demanda muito pontual e pequena. Porém os voos da finada BRA eram de conhecimento público e tinham uma certa “sazonalidade”.

Boeing 767 3C-LLU no Galeão em abril de 2017

A ARG é baseada em Belo Horizonte, mas segundo a Bloomberg e o site da própria empresa, tem participações na África. A revista IstoÉ em 2007 revelou que o TCU apontou superfaturamento por parte da ARG em obras do governo, como o Aeroporto de Jaguaruna e a BR-342, sendo assim a empresa seria parte do Mensalão.

A história continua a ficar interessante quando se pesquisa o nome da empresa e ele é destacado em sites jurídicos em processos envolvendo a empresa de mineiração MMX de Eike Batista e a empreiteira Odebrechet.

Pouso em abril de 2014

Realmente os voos do CS-TQX não eram diplomáticos, já que apareciam no HOTRAN (Horário de Transporte Aéreo da ANAC), e até por isso facilitava o grande número de registros por entusiastas: todos sabiam quando a aeronave viria. Mas ao consultar o histórico VRA do Hotran hoje, que mostraria os voos de 2000 até agosto de 2018, por algum motivo desconhecido estes voos não aparecem mais.




O mesmo aconteceu na semana passada: fomos avisados na quarta-feira (12) de que a aeronave iria pousar em Viracopos no dia 14 às 10h00 no horário local. A informação circulou em todos os grupos de aviação que sabemos no WhatsApp. E provavelmente também chegou na Polícia e Receita.

É claro e suspeito o alto número de voos, que continuaram mas em menor quantidade após a “troca” de governo. Aparentemente a ponte que governos anteriores estabeleceram com a Guiné Equatorial não foi apenas troca de favores ilícitos segundo revelou a Operação Lava-Jato, e sim uma verdadeira ponte-aérea de fins igualmente suspeitos.

Polícia apreende milhões de dólares no 777 da Guiné Equatorial que pousou em Viracopos