Por que tem uma chapa verde na fuselagem do Boeing 737 da Azul?

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Reparo Azul Cargo 737-400F

Após a matéria e as fotos que publicamos ontem e hoje, mostrando com exclusividade o novíssimo hangar de manutenção da Azul Linhas Aéreas no Aeroporto de Viracopos, em Campinas/SP, muitos leitores nos questionaram sobre uma chapa verde que notaram na fuselagem do Boeing 737 visível nas imagens.

Embora pessoas que possuem um contato mais próximo com a aviação saibam do que se trata, para aqueles que não possuem esse conhecimento, traremos a seguir mais detalhes sobre a questão.

Em primeiro lugar, relembramos que a Azul possui dois Boeings 737-400 em sua frota que já foram, no passado, aviões de passageiros. Mas eles foram adquiridos pela empresa já convertidos em cargueiros para uso pela divisão de logística da companhia, a Azul Cargo.

A Azul Cargo Express sempre representou um segmento importante nos negócios de companhia, e até mesmo na integração logística do Brasil, em função da ampla conectividade da malha da Azul, levando cargas nos porões das aeronaves de passageiros. Seu crescimento levou à decisão de adquirir aeronaves para o transporte dedicado de carga, culminando com a chegada do primeiro 737 em julho de 2018, e do segundo pouco tempo depois.

De lá para cá, os dois únicos aviões de fabricação da Boeing na frota da Azul trabalharam intensamente, e mais ainda após o início da pandemia, quando a parada quase completa das aeronaves de passageiros fez com que os cargueiros puros fossem ainda mais requisitados.

Porém, no último dia 25 de junho, um dos 737-400, o de matrícula PR-AJY, acabou danificado por um veículo no Aeroporto de Viracopos quando estava sendo carregado (você pode relembrar os detalhes do incidente clicando aqui). Assim, a aeronave acabou se tornando um dos estreantes da nova estrutura de manutenção inaugurada pela Azul em Campinas.

Mas, e a chapa verde?

Reparo Azul Cargo 737-400F

Mas, afinal, por que existe a placa verde na fuselagem? Vamos aos detalhes técnicos.

Sempre que uma aeronave sofre algum tipo de dano, sua estrutura precisa ser avaliada quanto à extensão dos danos, que podem ser simples amassados superficiais facilmente reparáveis até deformações mais sérias de estruturas internas abaixo da superfície atingida.

Nos casos em que há comprometimento de estruturas, geralmente as companhias aéreas fazem um trabalho conjunto com o fabricante da aeronave para que este oriente quanto à melhor forma de fazer o reparo da área danificada. E não por falta de competência da companhia, já que a Azul possui uma equipe com grande qualificação, mas sim pela maior experiência do fabricante em relação ao histórico de muitos outros incidentes e do próprio projeto original do avião. Em muitos casos, até mesmo uma equipe de técnicos do fabricante se desloca até a aeronave para cumprir os reparos.

Pois bem, para que um reparo seja feito quando envolve a remoção de partes estruturais, é necessário que a chapa superficial danificada seja removida, seguida do corte dos componentes internos afetados, como frames (as cavernas que dão a forma ovalizada da fuselagem) e stringers (que interligam as frames e ajudam na fixação das chapas superficiais).

Diante disso, faz-se necessário que a fuselagem seja toda apoiada em pontos específicos, para que ela não se deforme quando os componentes estruturais são retirados de suas posições. Você notou nas imagens que o jato da Azul Cargo tem vários suportes, ao invés de ficar diretamente apoiado em seus trens de pouso?

Reparo Azul Cargo 737-400F

Depois da remoção das partes afetadas, novas partes substitutas são adquiridas junto ao fabricante para instalação. É o que deve estar ocorrendo atualmente com o 737 da Azul. Aquela chapa está verde porque se trata de uma nova peça ainda sem pintura, somente com a camada verde que a recobre para protegê-la.

Mas a presença de fixadores mostra que ela ainda não deve estar completamente instalada, mas sim apenas posicionada enquanto a Azul aguarda a chegada de peças que substituirão as internas que foram removidas.

E existe ainda um fato interessante sobre este caso, que costuma levar a um maior tempo da aeronave fora de serviço. Mas não é exclusivo da Azul, e sim comum aos incidentes que envolvem um avião convertido como este.

Você se lembra que dissemos no começo desta matéria que os Boeings 737 da Azul já foram de passageiros e depois convertidos em cargueiros? Pois bem. Esse tipo de conversão costuma ser desenvolvido por outra empresa que não a Boeing. A empresa desenvolve um projeto de engenharia para essa modificação, fez testes e apresenta tudo à autoridade regulatória, que então aprova o projeto.

Veja na imagem a seguir como o interior dele é diferente de um 737 de passageiros.

Interior Azul Cargo 737-400F
Interior do Boeing 737-400F da Azul Cargo

Logo, existem peças ali que são originais da Boeing, mas outras peças podem ter sido instaladas depois quando a aeronave foi transformada em um cargueiro. Em casos assim, o trabalho de reparo passa a envolver uma comunicação tripla entre a companhia aérea, a fabricante do avião e a empresa que certificou a modificação.

Assim, todo o processo de análise dos danos e de definição da intervenção a ser feita acaba demorando mais do que se fosse unilateral entre companhia aérea e fabricante. Possivelmente, esse é o motivo para o 737 da Azul Cargo ainda seguir em manutenção desde o incidente.

Assim que tudo estiver concluído, o PR-AJY deve estar apto em poucos dias a ganhar os céus novamente, após mais esse trabalho de excelência das equipes de manutenção e de engenharia da Azul!

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Murilo Bassetohttp://www.aeroin.net
Formado em Engenharia Mecânica e Pós-Graduando em Engenharia de Manutenção Aeronáutica, possui mais de 6 anos de experiência na área controle técnico de manutenção aeronáutica.

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