Cientistas defendem acabar com os rastros que as aeronaves deixam no céu

photo of airplane across the clouds during night time
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A aviação global é responsável por cerca de 3,5% das emissões de gases poluentes em todo o mundo, segundo estudo publicado antes da pandemia pela revista científica Atmospheric Environment. Alguns cientistas, no entanto, querem reduzir ainda mais esse percentual, mediante a “eliminação” do rastro deixado pelas aeronaves, como forma de combater o aquecimento global no curto prazo.

Em altitudes de cruzeiro, a atmosfera é mais fria e a pressão muito menor. Nas condições adequadas de umidade, os motores das aeronaves deixam rastros brancos semelhantes a nuvens. Os chamados trilhos de condensação são compostos por cristais de gelo produzidos a partir da mistura de fuligem e vapor d’água que saem dos motores. Quando o ar está especialmente frio e úmido, esses rastros podem durar muitas horas e se espalhar para formar uma vasta teia de nuvens.

Segundo uma linha de estudos, o problema é que essas nuvens refletiriam a radiação do Sol de volta ao espaço, o que deveria resfriar a atmosfera, mas também captura a radiação infravermelha refletida da Terra. Em última análise, esse processo contribui para o efeito estufa, pois o aquecimento excede o resfriamento.

Dessa forma, a redução dos impactos climáticos da aviação pode estar na diminuição das partículas que saem dos motores dos aviões. Um segundo estudo científico, dessa vez publicado pelo revista Nature, mostra que a manutenção regular das aeronaves não é suficiente para resolver o problema. A solução estaria na modernização dos combustíveis.

Biocombustíveis

Segundo o estudo, assinado por pesquisadores alemães e dos Estados Unidos, impurezas como naftaleno, entre outras que estão naturalmente presentes em combustíveis fósseis de aeronaves, a exemplo do querosene, são estruturas químicas em formato de anel de carbono que formam as partículas de fuligem.

Para os cientistas, a queima de combustível sustentável, com baixo teor desses compostos químicos, pode resultar em uma redução de 50% a 70% nas concentrações de fuligem e num aumento no tamanho do cristal de gelo. Isso reduziria o tamanho dos rastros, o que causa uma menor deposição de energia na atmosfera e menos aquecimento.

Os biocombustíveis produzidos a partir de safras e resíduos de óleos vegetais, e sintéticos feitos com eletricidade renovável, hidrogênio e CO2, são projetados para reduzir a pegada de carbono dos voos. Resumindo, não haveria impurezas do tipo supracitado nos combustíveis “corretos”.

Atualmente, os aviões comerciais de grande porte só podem ser abastecidos com querosene ou misturas de querosene-biocombustível. Em outro artigo, os pesquisadores previram que a mistura generalizada equivaleria a uma redução no efeito geral de aquecimento dos rastros em aproximadamente 20% a 50%.

Os voos provavelmente serão autorizados a operar com biocombustíveis puros em algum momento no futuro, de modo que a redução potencial no aquecimento do planeta causado pela aviação poderá ser ainda maior. Os cientistas também sugerem que o planejamento das rotas aéreas incluam caminhos menos propensos a formação dessas nuvens como forma de redução de danos na atmosfera.

Fabio Farias
Jornalista e curioso por natureza. Passou um terço da vida entre aeroportos e aviões. Segue a aviação e é seguido por ela.

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