Comandante teria limpado para-brisas em voo após nuvem de insetos. É possível?

Na última quinta-feira, 9 de janeiro, um Boeing 737-700 da Ethiopian Airlines atingiu uma enorme nuvem de gafanhotos e gerou uma situação incomum.

Incidente 737 Ethiopian Nuvem Gafanhotos
A aeronave envolvida

A aeronave registrada sob a matrícula ET-ALN estava operando o voo de número ET363 entre a cidade de Djibuti e Dire Dawa, e a princípio atingiu alguns gafanhotos. A tripulação decidiu continuar a aproximação.

Logo depois, o avião encontrou uma enorme nuvem de gafanhotos, impactando contra os insetos de forma que todas as superfícies do avião ficaram tomadas de sujeira, incluindo os para-brisas, impedindo a visão dos pilotos.

A tripulação executou uma arremetida por conta da visibilidade reduzida, usando os limpadores para tentar limpar o para-brisa. Após uma segunda tentativa, novamente frustrada pela nuvem de gafanhotos, a tripulação solicitou o desvio para Addis Abeba, capital da Etiópia, onde aterrissou cerca de 34 minutos depois.

Incidente 737 Ethiopian Nuvem Gafanhotos
O motor esquerdo todo marcado pelos gafanhotos

Comandante teria limpado manualmente

Junto às imagens que circulam pelas redes sociais a respeito do caso, chama atenção o que seria um print de uma conversa sobre a sequência dos fatos.

A mensagem diz: “Durante a aproximação para a pista 15 de HADR, nós entramos em uma nuvem de gafanhotos, eram 1 ou 2 inicialmente e então era como uma chuva. Os para-brisas ficaram completamente cobertos e os limpadores não eram capazes de limpá-los. Executamos uma arremetida, nivelamos em 8500 pés, despressurizamos a aeronave, abrimos a janela lateral e limpamos manualmente. Na segunda tentativa, a mesma coisa aconteceu, visibilidade zero, arremetida. Nivelamento em 8500 pés, redução da velocidade de aeronave, abertura da janela e limpeza do para-brisas, alternamos para HAAB.”

Incidente 737 Ethiopian Nuvem Gafanhotos

Incidente 737 Ethiopian Nuvem Gafanhotos
O para-brisas após o pouso

A imagem mostra o que parece realmente ser uma limpeza manual, uma vez que a trajetória de deslocamento do limpador de para-brisas não corresponde com a área limpa. Mas a conversa coloca um questionamento em discussão: é possível abrir a janela lateral do cockpit em voo e efetuar a limpeza do para-brisas?

A janela lateral do Boeing 737

O Boeing 737 possui janelas laterais em ambos os lados do cockpit, que podem ser abertas pelos pilotos, permitindo comunicação com pessoas do lado de fora ou circulação de ar quando a aeronave está em solo, bem como uma saída de emergência no caso de incidentes ou acidentes. Outros modelos de aviões também possuem, mas nem todos.

No caso do Boeing 737, em voo a abertura da janela é naturalmente bloqueada pela pressurização da cabine. O mecanismo de abertura da janela funciona por deslocamento para dentro do cockpit, de forma que a maior pressão interna gera uma força no sentido contrário, mantendo-a fechada e fortemente selada.

Mas seria possível mantê-la aberta em voo no caso de uma despressurização, como descrito na conversa?

A Boeing responde

Um clássico vídeo de treinamento apresentado pelo comandante Ray Craig, chefe de pilotos do 737 da Boeing, mostra que sim, é possível.

Nas instruções do vídeo de treinamento, Craig demonstra o procedimento correto usado para agir caso uma janela do cockpit acabe abrindo-se na decolagem. Veja nas imagens a seguir, externas e internas, que a aeronave segue voando normalmente até que o piloto feche a janela:

Portanto, embora não seja nem um pouco recomendável, e talvez até proibido por procedimentos padrão das companhias aéreas, a abertura das janelas laterais é perfeitamente possível.

Só resta saber se, com a alta velocidade de uma aeronave, seria possível estender um braço ou qualquer objeto para fora e efetuar a limpeza do pára-brisa. A mensagem é real? Teria o comandante limpado em voo? Ou teria feito um pouso por instrumentos e limpado somente após o pouso?

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.