Como é voar no Airbus A330neo da TAP durante um voo de certificação

O início do verão europeu foi marcado pelo começo de uma nova era na aviação portuguesa: no dia 21 de junho, junto com a temporada mais quente chegava o avião mais falado do mercado nas últimas semanas, o Airbus A330neo da TAP Air Portugal.




A aeronave saiu da fábrica de Toulouse, parou em Lisboa e prosseguiu para o Rio de Janeiro. O regresso à capital portuguesa se deu no início da tarde do dia 21, quando, no acesso ao terminal de carga aérea do Aeroporto de Lisboa, a aeronave era aguardada por alguns entusiastas, aos quais me incluo.

Segundo pouso do A330neo em Lisboa

Registro feito do belíssimo pouso, retornei ao aeroporto no check-in para os clientes Star Alliance Gold / TAP Executiva, onde fui recepcionado pelo Adriano e pelo Luis, parte do time de marketing e vendas da TAP no Brasil. Lá foi apresentado o novo sistema de check-in da TAP, praticamente autônomo, no qual o passageiro faz o seu check-in, etiqueta a bagagem e, por fim, coloca a mesma na esteira por meios próprios.

Check-In da TAP exclusivo para clientes da classe Executiva, dos cartões Victoria Silver e Gold além dos clientes Star Alliance Gold

Self Check-In da TAP: será padrão no Aeroporto de Lisboa até o próximo ano

Com check-in pronto, prosseguimos para o canal de inspeção, bastante movimentado mas quase todo automatizado. O processo é tão eficiente que minha bagagem que continha uma garrafa de refrigerante foi separada automaticamente pela esteira inteligente, e a agente de proteção da aviação logo indicou o que eu deveria descartar e em qual bolso estava, muito prático!

Passada a inspeção, prosseguimos para o lounge da TAP na sala de embarque, em um caminho cheio de lojas, free shops e uma praça de alimentação. A variedade e quantidade de lojas no Aeroporto de Lisboa me surpreendeu: é compacto mas tem de tudo, lembra muito um shopping mas não atrapalha quem quer ir direto ao portão de embarque.

O lounge VIP da TAP é de acesso restrito aos dententores dos cartões Victoria Gold, Star Alliance Gold, Tudo Azul Diamante e também a convidados especiais. Acesso mais que liberado pela ocasião especial e que veio a calhar: o lounge conta com grande bar, buffet, área de descando e até de banho. Este último fiz bom uso após ter chegado de Belo Horizonte na manhã do mesmo dia.

Do lounge já era possível visualizar o A330neo estacionado numa posição remota, para onde prosseguimos dentro de um ônibus da ANA Aeroportos, administradora da maioria dos aeroportos portugueses e que é parte da VINCI Airports, que também administra o terminal de Salvador e de Pudahuel em Santiago do Chile.

Chegando na aeronave foi possível fazer um pequeno walk-around. Mesmo mantendo a “mesma” fuselagem do A330ceo, o neo tem uma aparência maior, é mais imponente, boa parte disso causada por seus novos motores Rolls-Royce Trent 7000 e sua nova asa.

Entrando na aeronave já pude perceber o seu interior mais espaçoso, teto mais alto e mais luminoso, tudo isso parte da cabine Airspace by Airbus. Tomei o meu lugar no assento 6H, janela da nova classe executiva, que é um assento cama da Recaro com uma tela de 22 polegadas touchscreen. A configuração na executiva é 1-2-1 e, na econômica, 2-4-2.

Após estarmos bem acomodados, foram dadas as boas vindas a bordo pelo Comandante José Marques e sua tripulação, que nos levaria neste voo VIP até São Paulo. Também estavam conosco o time da Airbus, instruindo os seus parceiros da TAP e trabalhando na coleta de dados para a certificação.

Tripulação da TAP sempre foi muito simpática e receptiva

Portas fechadas, iniciamos o push-back e taxiamos até a cabeceira 03. O silêncio da aeronave era notável: ouvia-se mais o barulho do sistema de ar-condicionado do que do motor (detalhe que o assento 6H é do lado do motor). Alinhado na 03, potência ao máximo e o motor Rolls-Royce Trent 7000 rugiu alto como uma música para os ouvidos de qualquer entusiasta. A boa notícia para os outros passageiros é que o ruído alto é apenas na corrida para decolagem.

A performance do A330neo, em todos os mínimos detalhes que um voo de teste pode oferecer

Percorremos a maioria da pista antes da aeronave sair do chão. Apesar de ser um voo com apenas 27 pessoas, a aeronave foi despachada com um peso de 216 toneladas, que representa o peso de um voo normal Lisboa – São Paulo com o máximo de carga e passageiros, mas ainda assim bem abaixo do peso máximo de decolagem do A330-900neo, que é de 242 toneladas.

Ponte Vasco da Gama e Rio Tejo

Após a decolagem cumprimos a carta de saída LIGRA 5N fazendo uma curva à direita sob o Rio Tejo, com um belo visual da famosa Ponte Vasco da Gama. Em 25 minutos após a decolagem já atingimos o nível de voo 370, nosso nível de cruzeiro até as Canárias, onde subimos para o 38 mil pés de altitude (11.582 metros).

Formação um pouco atípica sobre as Ilhas Canárias

Estabilizados em cruzeiro, fui conhecer a aeronave por completo. Logo na primeira seção da Econômica estão dois engenheiros de voo da Airbus, que contam com uma grande mesa mas com um simples laptop da HP para monitorar quaisquer dados de voo. A tripulação da Airbus foi totalmente receptiva conosco, inclusive mostrando detalhes dos dados. Navegamos nas páginas de todos os parâmetros que podiam ser explorados no programa. Um deleite para qualquer piloto ou engenheiro aeronáutico!

Mesmo não estando na cabine, era possível visualizar tudo que os pilotos lá visualizavam. No momento exato que passávamos pelas Ilhas Canárias, o avião estava com 87,5% de potência aplicada em ambos os motores, sendo que cada um consumia 2.684kg de querosene por hora. O tanque central da aeronave estava vazio, o tanque esquerdo externo contava com 2.858kg, o interno com 25.624kg, o traseiro com 3.670kg, o interno da asa direita com 25.828kg e o externo com 2.732kg, totalizando 60 toneladas de combustível.

Mantínhamos o nível de voo 380 numa velocidade de solo de 438 nós (811km/h) que, nas condições daquela atmosfera do momento, nos colocava a 0.820 da velocidade do som (Mach .82). Poderíamos ir mais rápido se não fosse um leve vento de proa de 36 nós (66km/h). A temperatura externa era de -24ºC e o nosso centro de gravidade (CG) estava em 15.8% da corda média aerodinâmica.




A grande diferença do A330neo para o antigo A330ceo é o conjunto asas e motores, como já foi amplamente divulgado. No caso do passageiro, é o Airspace Cabin (opcional) que traz maior espaço e conforto. Mas e para o piloto? Apesar da performance melhorada, nada muda além de um detalhe: a APU – Unidade de Força Auxiliar, o famoso “3º motor”, que fica na cauda da aeronave: não é mais pneumática, e sim elétrica.

O tempo de um piloto migrar do A330ceo para o A330neo é de apenas 4 horas do chamado ground school, abordando a nova asa e, principalmente, os novos motores Rolls-Royce e a APU. De resto é exatamente o mesmo cockpit e mesmos procedimentos, reduzindo custos e permitindo utilizar a mesma habilitação para voar duas gerações diferentes do A330.

O serviço de bordo da nova classe Executiva da TAP Air Portugal: padrão Star Alliance Gold! 

Após um longo papo de piloto sobre tudo que há de novo no A330neo, o comissário Luís nos avisou para retornamos aos assentos, pois o jantar seria servido. Ao chegar no meu assento, a mesa já estava montada e me esperando juntamente com uma belíssima necessaire da Castelbel.

Logo após checar a necessaire que contém um par de meias (bem portuguesas e coloridas), máscara para os olhos, escova de dente, pente, creme para pele e um saquinho perfumado que deixou um ótimo aroma em toda a classe Executiva. Em seguida o comissário chegou com os aperitivos: canapé de lagosta com sementes de girassol torradas, ambos bem apetitosos.

Canapé de Lagosta com Sementes de Girassol torradas

Em seguida foi servida a nossa entrada. O peixe do nordeste do pacífico e pouco conheicido no Brasil: o Halibut, da mesma família do Linguado e que foi servido em finos filés acompanhados de semente de abóbora e verduras secas. Pessoalmente não lembro a última vez que comi peixe, mas tive a vontade de provar e não me arrependi. Gosto muito suave e carne sem gordura.

Halibut acompanhava sementes de abóbora e alface

Como prato principal, os passageiros tiveram três opções: Lombo de Vaca acompanhado de Batata Sauté, Brócolis Cozido e Molho de Mostarda; ou outra Caldeirada de Cherne com Batata Migada; ou, para quem não queria carne vermelha ou de peixe, poderia optar por Macarrão Carbonara com Frango. Eu escolhi a primeira opção que veio em ótima apresentação, com carne bem passada e batas crocantes por fora e macias por dentro.

Lombo de Vaca com Molho Mostarda, Brócolis e Batata Sauté

Por estar já satisfeito, recusei boa parte da sobremesa, que era sopa acompanhada de variedade de pães. Optei apenas pelo chocolate Passport nas variedades chocolate ao leite e Dark 70%. Não falamos muito sobre bebidas (que são um grande diferencial na TAP devido a sua extensa cartela de vinhos) porque a aeronave não foram embarcadas bebidas alcoolicas por pedido da Airbus, fato informado assim que embarcamos.

Faltando duas horas para o pouso, foi servida uma espécie de “café da tarde” com frutas, pães, pastrami e peito de peru defumado e, claro, acompanhado do famoso Pastel de Belém. Fiz um sanduíche combinando peru e pastrami, deixando o pastelzinho para o final e ficando completamente satisfeito. Só fui me alimentar de novo no outro dia, já que chegamos no GRU Airport poucos minutos antes da meia-noite.


Sistema de entretenimento

Após o belo jantar, decidi relaxar um pouco e navegar pelo sistema de entretenimento da aeronave. As telas são muito grandes (chegam até a incomodar um pouco se o assento está totalmente na vertical) e mudam de ângulo com o puxar de uma alavanca. O sistema Wi-Fi será instalado em todos os A330-900neo da TAP. A rede TAPWIFI estava inclusive ligada neste voo, mas sem conexão de dados funcionando ainda.

Por ser um voo de teste o sistema de entretenimento estava com um catálogo limitado, mas ainda com bons filmes como Os Passageiros e 15:17 Destino Paris. Música em pequena variedade agradava, com um bom número de artistas brasileiros como, por exemplo, a dupla Anavitória (que estreiou há pouco no Rock In Rio Lisboa) e Músicas para Churrasco do Seu Jorge.

Mas o que mais chamou a atenção de todos os passageiros foi o mapa interativo. Assim como na econômica, as telas da executiva contam com sistema touchscreen e funciona como um tablet para clicar, dar zoom e interagir. E o sistema de mapa explorava tudo isso: era possível navegar com o Google Earth por qualquer cidade (consegui localizar meu bairro sem problema algum) e ver a tela de cockpit que mostrava os dados do voo em uma espécie de HUD (Head-Up Display), tudo isso ao alcance dos dedos.

Airspace Cabin

Após assistir um filme e ainda sem sono, fui ver em detalhes a cabine da aeronave. A classe executiva conta com assentos Recaro CL6710, com assento que reclina 180º e tem vários modos/posições com um controle próximo ao pequeno armário pessoal de cada assento. Na configuração da TAP são 34 assentos na classe executiva.

Na segunda seção da aeronave encontram-se a Econômica Premium e a Econômica com, respectivamente, 86cm e 78cm de espaço para as pernas. Os assentos também são da Recaro modelo CL3710, com telas de 13 polegadas, apoio para os pés e reclinam mais do que os atuais assentos da econômica da TAP no A330-300.

Nova econômica do A330neo

Outro destaque é o bagageiro superior, que tem 66% a mais de capacidade que os do A330ceo. Como foi um voo de teste, não houve despacho de bagagem. Mesmo assim, não houve problema para colocar a minha mala rígida tamanho M (48cm de comprimento, 43 de largura e 64 de altura).

Na terceira seção da aeronave está a segunda parte da classe econômica e as galleys traseiras, que são disposta como um corredor, um pouco diferente do que normalmente é encontrado nas aeronaves da própria Airbus, mas mesmo assim bem espaçosa. Poderia até ser maior por opção do cliente: a TAP optou por ter uma galley um pouco menor para colocar um banheiro a mais na parte traseira, totalizando três toiletes para maior conforto do passageiro.

Com o voo já chegando na sua 5º hora, decidi retornar ao meu assento para dormir um pouco com o assento na posição 180º. Não é uma cama, mas é mais do que suficiente para um bom descanso. Porém, pode vir a ser um pouco apertado para passageiros mais altos (foi na medida para mim, sendo que meço 1.82m).

Considerações Finais 

Era a minha primeira experiência em classe executiva em um voo de longo curso (5h+). Para chegar até Lisboa, havia ido na Econômica da TAP no A330-300, o que me valeu uma comparação entre os dois serviços.

A TAP acertou em muito ao escolher a Airspace Cabin para o A330neo: muitos leitores e amigos queixam-se de que as novas gerações de aviões que não são projetos clean-sheet (ou seja, que não começaram do zero como o A350 ou o 787) estão com mudanças que são boas apenas para as companhias: novos motores, asas, winglets, etc, que trazem maior economia. Porém nada para o passageiro além de um assento de marca nova.

Na TAP com o Airspace Cabin, comparando com o A330-300 que é o antecessor direto do A330-900neo, é realmente mais espaçoso, com menos ruído e até um incômodo menor nos ouvidos durante a subida e descida, mesmo utilizando a mesma fuselagem (segundo os técnicos da Airbus, o diferencial de pressão e o sistema de pressurização são os mesmos do A330ceo, mas não sei porque senti menos os efeitos da pressurização do que no voo na aeronave antiga).

O serviço de bordo da TAP me surpreendeu. Tinha esquecido de que os portugueses são os europeus mais receptivos e nós brasileiro herdamos isso deles (e potencializamos, claro). Lembro que a última vez que fui chamado pelo nome durante todo o voo foi na Singapore Airlines (num Flight Report que você confere aqui). A comida, apesar de ser um pouco diferente ao meu paladar, agradou e os pratos combinaram.

A avaliação final é extremamente positiva, ainda mais para um voo de testes não-comercial, que não tinha a “obrigação” de apresentar muito. Tem alguns pontos que podem ser melhorados, mas nada anormal para um equipamento novo. Mantenho minha escolha primordial com a Star Alliance em voos para a Europa, principalmente com a TAP Air Portugal.

O AeroIN viajou de Lisboa para Guarulhos à convite da TAP Air Portugal e da Airbus Industrie.

Agradecimentos especiais ao Adriano e Luis da TAP, e Crawford H. da Airbus.

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é Piloto Comercial, Despachante, Bacharel em Ciências Aeronáuticas, membro da AOPA e veterano da Western Michigan University #GoBroncos