Como o uso do pronome ‘senhorita’ causou erros de balanceamento em vários aviões

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As complexidades linguísticas não estão limitadas ao português, e causaram erros de 1 tonelada num voo comercial no Reino Unido.

Avião Boeing 737-800 TUI
Imagem: Alan Wilson / CC BY-SA

Tudo começou no verão passado, no meio da pandemia, num voo da TUI Airways que seguia do Reino Unido para Palma de Mallorca, parte das Ilhas Baleares espanholas, no Mediterrâneo. O voo aconteceu no dia 21 de julho, dias depois de a TUI ter migrado seu sistema de peso e balanceamento de aeronave, que calcula a quantidade de carga e passageiros a bordo do avião para gerar um relatório que os pilotos analisam e o configuram a para que ele decole da maneira mais eficiente possível.

No entanto, havia algo diferente na programação desse novo sistema: o uso do pronome feminino “Miss” (senhorita). Este termo é utilizado principalmente quando a pessoa vai se referir a uma mulher que não se sabe se ela é casada ou não. Apesar de ser algo bem coloquial e para alguns até machista, acaba sendo um parâmetro que ajuda no cálculo de segurança na aeronave.

Peso pesado

Obviamente, como sabemos, os passageiros não são pesados antes de entrarem nos aviões, sendo assim é considerada uma média de peso (que varia de companhia para companhia). No caso, as passageiras mulheres adultas são consideradas com um peso padrão de 69 kg, as meninas com 35 kg e os bebês com 10 kg. Homens adultos normalmente são considerados com 75 kg.

Durante o pré-embarque e já usando o novo sistema, a equipe de atendimento em solo começou a fazer o check-in das passageiras colocando o título “Miss” para todas, fazendo com que o sistema entendesse que eram 38 meninas e não 38 mulheres adultas – isso porque, enquanto no Reino Unido o pronome “Miss” é utilizado para mulheres adultas, onde o software foi programado esse termo era utilizado para meninas.

O termo para adultas no novo programa era “Ms” e não “Miss”.

Com isso, o peso das mulheres foi calculado em 1.330 kg ao invés de 2.622 kg, uma diferença de mais de uma tonelada.

Pilotos estranharam, mas não interferiram

Após esse cálculo, a ficha de peso e balanceamento foi gerada e entregue aos pilotos, que a conferiram e estranharam. A aeronave estaria mais de uma tonelada mais leve que o previsto pelos pilotos. Além disso, tinha o fato de que eram 65 crianças e não 29 como anteriormente previsto.

Mesmo assim, o comandante decidiu prosseguir, já que a possível discrepância seria normal em tempos de pandemia, onde existem muitas mudanças de itinerários de viagem, cancelamentos, entre outros. Com isso, a aeronave decolou considerando um peso menor que o real, mas mesmo com uma diferença de mais de uma tonelada, o Boeing 737-800 não teve dificuldades e cumpriu o voo normalmente.

O erro depois foi analisado pelo AIBB, órgão britânico responsável pela investigação de acidentes e incidentes aéreos. As autoridades descobriram que pelo menos mais dois voos tiveram o mesmo erro, mas que nenhum incidente ou acidente ocorreu por causa destes cálculos errados.

No caso concreto do voo para Palma de Mallorca, a única diferença é que se os pilotos tivessem recebido os dados corretos, deveriam decolar com 1 nó (1,8 km/h) de velocidade a mais que o realizado, algo praticamente imperceptível.

Como o erro no software foi corrigido semanas depois, a investigação foi concluída e o AIBB declarou que “em nenhum momento a segurança de voo foi comprometida” segundo reporta a FlightGlobal.

Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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