Covid-19: crise está trazendo de volta o brilho do Boeing 747, saiba o porquê

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A crise no setor aéreo, provocada pela pandemia global do novo coronavírus, sem precedentes na história mundial, tem colocado em xeque diversas Empresas Aéreas por todo o planeta, ameaçando milhares de empregos. Mas o cenário devastador tem causado um impacto diferente para o Boeing 747, o clássico Jumbo.

Avião Boeing 747-8F
Boeing 747-8F – Imagem: Boeing

Diversas Companhias por todo o mundo possuem paradas em solo milhares de aeronaves. O panorama apresentado pela crise acelerou a tomada de certas decisões por algumas Empresas, com relação a determinados modelos em suas frotas.

E mesmo o icônico Boeing 747, bem-sucedido por tantas décadas, começou a ser aposentado por diversas Empresas. Foi o caso, por exemplo, da holandesa KLM, que no final de março decidiu retirar suas unidades do modelo. A Qantas também parou seus B747, e aguarda o final da crise com pouca esperança de retornar o modelo as operações.

A crise acabou acelerando o que parecia o ser o fim próximo dos quadrijatos, como já se observava com United Airlines e Delta Air Lines, que abandonaram o Jumbo antes mesmo da pandemia, em favor dos novos bimotores produzidos pela Airbus e pela própria Boeing, conforme destaca o Business Insider.

O portal aponta que, nos EUA, somente companhias estrangeiras operam a versão de transporte de passageiros dessa verdadeira lenda da indústria aeronáutica americana.

Demanda inesperada

Porém, uma demanda de mercado, causada pela própria pandemia, tem dado folego extra ao imponente quadrimotor da fabricante de Seattle: o transporte de carga.

Com a parada de aeronaves de transporte de passageiros, a oferta para transporte de carga de porão caiu drasticamente. Dados divulgados pela Accenture, em 8 de maio, apontam uma queda de 25% na capacidade global de transporte de carga aérea com relação ao ano de 2019.

De acordo com avaliação no The STAT Trade Times, a demanda por equipamentos de proteção individual (PPEs ou, em português, EPIs) cresceu preenchendo o espaço deixado pela redução na demanda de carga tradicional. E com a estabilização da pandemia na China, o país passou a ser o grande fornecedor de equipamentos para o restante do planeta.

As Companhias Aéreas passaram então a transportar, com seus aviões de passageiros que estavam parados, esse tipo carga, que por conta de suas características diferenciadas pode ser levada no espaço destinado aos passageiros, após a devida autorização concedida pelos órgãos reguladores de aviação civil em todo o planeta.

Mas, mesmo com a participação de aviões de passageiros, quem está segurando a parte pesada do transporte de carga é a frota cargueira, segundo a CNN. “Quando se trata dessa pandemia, ver um cargueiro 747 pousar em um aeroporto é como no velho oeste, quando a cavalaria chegava para ajudar as pessoas em perigo”, disse à CNN Henry Harteveldt, analista da indústria de viagens e fundador do Atmosphere Research Group.

Empresas cargueiras desconhecidas do público, como a Silk Way Airlines, Atlas Air, Air Bridge Cargo e Cargolux, passaram a ganhar destaque na mídia, e se tornaram fundamentais no transporte de insumos médicos destinados ao combate à pandemia. Todas operam a versão de carga do 747.

Avião Boeing 747-8F Atlas Air
Boeing 747-8F da Atlas Air

Dados divulgados pela CNN, indicam que existem 286 aeronaves 747 de carga, de diferentes versões, em serviço.

A Air Bridge Cargo, sediada em Moscou, possui 17 aeronaves 747F (F de “freighter”, ou “cargueiro” em português). Destas, quatro são da versão 747-400F e treze da versão mais recente 747-8F. A empresa faz parte do grupo Volga-Dnepr, grande usuária de outro ícone do transporte de cargas, o Antonov AN-124. Segundo a Empresa, seus 747F têm voado, em média, 15 horas por dia.

“As soluções de carga aérea nunca foram tão importantes quanto são agora para os serviços globais de saúde. Atualmente, nossas equipes internacionais enviam vários voos diariamente para garantir que suprimentos médicos vitais protejam os necessitados”, disse Tatyana Arslanova, diretora executiva da Air Bridge Cargo, à CNN.

Avião Boeing 747-8F AirBridge
Boeing 747-8F da AirBridgeCargo

Dados do Flightradar24, analisados pelo The Air Current, apontam um crescimento de 51% nas operações da Air Bridge, com relação aos dois meses anteriores, segundo a CNN.

A UPS, que possui uma frota de vinte e oito 747F, com mais 15 unidades da versão 747-8F encomendadas, também tem colocado seus Jumbos cargueiros em ação intensa no transporte de insumos destinados ao combate à pandemia.

Avião Boeing 747-8F UPS
Boeing 747-8F encomendado pela UPS

Em declaração à CNN, Michelle Polk, porta-voz da UPS, disse que a UPS já estava bem posicionada “para apoiar esforços na transferência de suprimentos críticos para as áreas que mais precisam”. Ela ainda acrescentou que, com os governos e autoridades públicas classificando a UPS como um provedor de serviços essencial, a empresa está combinando a flexibilidade de sua rede global para responder à pandemia de coronavírus.

Jumbos por todo o mundo

Conforme levantamento feito pelo Aeroin no começo de abril, enquanto quase toda a aviação mundial de passageiros estava em solo, nada menos do que 143 aviões Boeing 747 estavam em voo, sendo que apenas 8 não eram cargueiros.

E cerca de um mês depois, na última segunda-feira (11), o FlightRadar24 revelou que a demanda continua sendo mantida em alta, já que havia 150 Jumbos simultaneamente em voo. E, curiosamente, um terço de todos eles estavam voando para ou tinham decolado do Aeroporto Internacional Ted Stevens, em Anchorage, Alasca. O local tem uma característica especial que o tornou um entreposto importante na ligação entre a Ásia e as Américas, conforme divulgamos aqui.

Capacidade de carga

O 747-8F é a versão cargueira mais recente do Jumbo, sendo baseada no modelo de passageiros, o 747-8. Com pouco mais de 250 pés (76,2 m), é o mais longo de todos os Jumbos, com novos motores e aerodinâmica aprimorada. O 747-8F pode transportar até 300.000 libras (136 toneladas) de carga.

Tatyana Arslanova, da Air Bridge Cargo, ainda na CNN, aponta para a carga climatizada do 747-8F como um dos trunfos do Jumbo. Há três compartimentos que podem ter diferentes configurações de temperatura de 4°C a 29°C, possibilitando o transporte de cargas perecíveis, como produtos farmacêuticos sensíveis à temperatura e equipamentos médicos que salvam vidas.

Na sequência, os dados das versões 400F e 8F do Jumbo dão a dimensão da capacidade cargueira do avião.

Especificações Boeing 747-400F

Sistema MétricoSistema Imperial
Peso Máximo na Decolagem (PMD)396.900 kg875.000 lbs
Carga Máxima Paga113.000 kg249.000 lbs
Dimensões
Envergadura (asa a asa)64,40 m211 ft
Altura19,40 m63 ft
Comprimento70,70 m232 ft
Largura da cabine (nível do piso)5,90 m19 ft
Comprimento da cabine56,40 m185 ft
Capacidade Volumétrica Típica
Deck Principal610,1 m321645 ft3
Compartimentos inferiores (porão)130,3 m34601 ft3
Bulk (porão traseiro)14,7 m3520 ft3
Fonte: Cargolux

Especificações Boeing 747-8F

Sistema MétricoSistema Imperial
Peso Máximo na Decolagem (PMD)449.056 kg990.000 lbs
Carga Máxima Paga134.000 kg295.000 lbs
Dimensões
Envergadura (asa a asa)68,45 m224 ft 7 in
Altura19,40 m63 ft
Comprimento76,25 m250 ft 2 in
Largura da cabine (nível do piso)5,90 m19 ft
Comprimento da cabine56,40 m185 ft
Capacidade Volumétrica Típica
Deck Principal692,7 m324462 ft3
Compartimentos inferiores (porão)150,9 m35330 ft3
Bulk (porão traseiro)14,5 m3520 ft3
Fonte: Cargolux

Dentre as aeronaves cargueiras da própria Boeing e versões de carga da Airbus, a versão 747-8F é a que possui a maior capacidade de transporte de carga, conforme pode-se notar nas duas tabelas a seguir.

Comparativo entre modelos Boeing – versões cargueiras

 747-8F777F767F
Carga137.700 kg (303.700 lbs)102.010 kg (224.900 lbs)52.480 kg (115.700 lbs)
Alcance*4.1204.9703.255
Comprimento76,3 m
(250 ft 2 in)
63,7 m
(209 ft 1 in)
54,94 m
(180 ft 3 in)
Envergadura68,4 m
(224 ft 5 in)
64,8 m
(212 ft 7 in)
47,57 m
(156 ft 1 in)
Altura19,4 m
(63 ft 6 in)
18,6 m
(61 ft 1 in)
15,85 m
(52 ft)
*Milhas náuticas (1 nm = 1,85 km)
Fonte: Boeing

Comparativo entre modelos Boeing X Airbus – versões cargueiras

 747-8FA330-200FA330-200P2F
Carga137.700 kg
(303.700 lbs)
65.000 kg
(143.300 lbs)
60.000 kg
(132.277 lbs)
Alcance*4.1204.0004.250
Comprimento76,3 m
(250 ft 2 in)
58,8 m
(193 ft 11 in)
58,36 m
(191 ft 46 in)
Envergadura68,4 m
(224 ft 5 in)
60,3 m
(197 ft 10 in)
60,3 m
(197 ft 10 in)
Altura19,4 m
(63 ft 6 in)
16.9 m
(55 ft 5 in)
17,41 m
(57 ft 11 in)
*Milhas náuticas (1 nm = 1,85 km)
Fonte: Boeing e Airbus

Em termos de capacidade de carga, rivaliza com o 747 somente o Antonov AN-124, porém, em termos de frota, o número de Jumbos da Boeing em operação é bem superior à do gigante ucraniano.

Produção expressiva

O Boeing 747, em sua primeira versão para passageiros, fez o voo de estreia em 9 de fevereiro de 1969, entrando em serviço pela Pan American World Airways (Pan Am) em 22 de janeiro de 1970, em sua versão 747-100.

A primeira versão do 747-400F foi entregue em maio de 1993. A versão 747-8F vou pela primeira vez em 08 de fevereiro de 2010, com a primeira unidade sendo entregue para a Cargolux em 12 de outubro de 2011.

Dados da página da Boeing demonstram que em 28 de junho de 2014 foi entregue para a Lufthansa o 1.500º Boeing 747 produzido (somando-se todas as versões), tornando o Jumbo o primeiro widebody a atingir a marca de 1.500 unidades na história.

Dados apontam para a entrega, até abril de 2020, de 1.555 unidades do Jumbo, estando entre elas 126 unidades da versão 747-400F e 90 unidades da versão 747-8F.

Assim, apesar de toda dificuldade e transtorno trazidos pela pandemia à população do planeta, o poderoso Jumbo, no alto de seus cinquenta anos de vida, está demonstrando toda sua capacidade e utilidade, readaptando-se e reinventado-se, como a fênix ressurgida das cinzas.

Apoiando a humanidade em um momento tão complicado como o atual, revelando-se um meio importantíssimo na luta sobre a grave crise de saúde que se abateu sobre o planeta, tudo indica que o futuro dessa incrível aeronave deva ser coroado por mais este reconhecimento e glória, em mais um marco de sua passagem na história da aviação mundial.

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Rodnei Diniz
Engenheiro aeronáutico e mecânico, atuante em gestão de manutenção aeronáutica, aviação geral, executiva e comercial. Atento aos detalhes, gosta de ler e escrever sobre a história da aviação.

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