Número de aproximações para pouso desestabilizadas dispara segundo IATA

Boeing 747-8 se aproxima no Aeroporto Internacional de Guarulhos

ANÁLISE – As incertezas da crise na aviação causada pela pandemia do coronavírus podem estar afetando os pilotos e um estudo mostra que o número de aproximações destabilizadas cresceu nos últimos meses.

Segundo dados da Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA) revelados pela FlightGlobal, os números para aproximações destabilizadas dispararam desde abril deste ano, quando comparado aos anos anteriores.

O que são aproximações desestabilizadas

Aproximações desestabilizadas se definem quando um avião está na última fase de voo, antes do pouso, e quando a aeronave não consegue manter algum destes items dentro do padrão esperado: velocidade, altitude, razão de descida ou navegação lateral.

Algumas entidades como a Flight Safety Fundation definem uma aproximação desestabilizada quando a tripulação, de maneira consciente, mantém a velocidade 20 nós para mais ou para menos do que o esperado e/ou mantém uma razão de descida acima de 1 mil pés por minuto. Estas definições variam de acordo com as entidades e manuais das empresas aéreas, mas, no geral, referem-se a quando o cone de aproximação (uma espécie de tubo virtual que deve ser mantido durante a chegada) não é mantido.

Com a aproximação destabilizada, as chances do avião chegar mais alto, mais rápido ou até antes na pista são maiores, resultando num pouso ruim ou até num acidente. A recomendação é sempre arremeter quando não for possível estabilizar a aproximação.

Segundo dados da própria IATA, entre 2011 e 2015, 65% dos acidentes aconteceram durante a fase de aproximação, sendo que 14% destes tiveram a aproximação destabilizada como fator contribuinte.

O Fator Psicológico

© IATA – Flight Global

Dentre o principal fator que ocasiona a aproximação destabilizada está a falta de planejamento, quando a tripulação não se prepara para iniciar o procedimento de descida/aproximação na hora certa ou com os recursos necessários. Mas outro fator contribuinte pode ser a falta de concentração. No caso desta crise, ela estaria causando estresse e preocupações acerca do futuro da aviação e dos empregos.

Lembremo-nos que, lamentavelmente, centenas de pilotos e outros funcionários foram demitidos de empresas aéreas de todo o porte, exatamente pela falta de demanda, que causou a redução dos voos e aterramento de aeronaves, deixando os funcionários ociosos.

O medo de ser infectado também influencia nas operações e no psicológico da tripulação. Outro fator é um tabu, em que a arremetida é considerada uma falha, um erro por parte dos pilotos, sendo que na verdade é apenas um mecanismo de segurança que deve ser utilizado sempre que necessário.

Com isto, o resultado está no gráfico acima: em abril a ocorrência de aproximações destabilizadas é de 27% e subindo para 37% em maio, muito acima dos anos anteriores, onde nunca passava de 15% nos voos comerciais pelo mundo.

Existe uma metáfora difundida nas aulas de segurança aeronáutica e que merece ser repetida: “O pouso é uma arremetida que “dá errado”, sempre faça uma aproximação para arremeter, se for seguro, pouse!”.

O caso mais recente de acidente devido a uma aproximação desestabilizada aconteceu com um Airbus A320 da Pakistan International Airlines em maio. Os pilotos vieram para um pouso totalmente destabilizado, que começou com uma descida tardia e procedimentos deixados de lado.

Além disso, os pilotos estavam preocupados com os casos de coronavírus em suas famílias e acabaram deixando a segurança de voo em segundo plano, o resultado foi uma tragédia que vitimou 98 pessoas:

Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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