Em crime contra a história, DC-3 que foi da VARIG é destruído no RIOgaleão

Numa demonstração de falta de respeito e responsabilidade para com a história da aviação brasileira, um Douglas DC-3 PP-VBF, que pertenceu à VARIG, foi destruído na tarde desta sexta-feira, 31 de janeiro de 2020, dentro da área restrita do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, o RIOgaleão.

Antes e depois da tarde de hoje

Fotos feitas por pessoas que trabalham no local circularam rapidamente pelas redes sociais e em grupos de Whatsapp, provocando grande revolta entre aqueles que gostam da aviação, tendo-a ou não como sua fonte de renda. Nós também recebemos dezenas de mensagens pedindo para que procurássemos entender as razões que levaram a isso e não à preservação da aeronave.

Onde aconteceu

Por estar em uma área privativa, dentro do aeroporto do Galeão, num lote próximo ao hangar da TAP M&E e da GE Celma (veja imagem abaixo), é possível inferir que alguém está limpando o terreno para algum futuro empreendimento, embora ainda não esteja claro o que é.

Informações da RIOgaleão:

“O RIOgaleão esclarece que a aeronave em questão estava localizada em uma área cedida pela concessionária, sobre a qual não havia gerência da administração do aeroporto. A EX Aviation Center, responsável pela massa falida da Varig, conduziu todo o processo de remoção. Mais esclarecimentos devem ser feitos com os responsáveis pela massa falida da empresa.”

O VBF estava num lote próximo do hangar da TAP e da GE Celma – Google Maps

Ele tem (tinha) muita história

Segundo o Projeto DC-3, essa aeronave foi entregue inicialmente pela Douglas à USAF em 1942. Depois, voou na Hughes Tool, tendo sido propriedade do lendário milionário Howard Hughes, criador do Constellation e fundador da TWA. Por fim, o avião acabou na VARIG, onde transportou passageiros, mercadorias e até vítimas de um acidente aéreo em Bagé, no Rio Grande do Sul. 

Maio de 1967 em Porto Alegre – Foto do Projeto DC-3

Seu último voo aconteceu em 18 de agosto de 1971, de Congonhas para o Santos Dumont. Depois disso, foi inteiramente restaurado pela VARIG Engenharia e Manutenção e colocada como decoração no aterro do Flamengo, entre as ruas Ferreira Viana e Correia Dutra, no Rio de Janeiro, onde ficou por 30 anos.

Foi alvo de vândalos e moradia para mendigos, e acabou então retirado daquele local e colocado no jardim de frente a um edifício da Fundação Ruben Berta, no Aeroporto do Galeão.

Motor destruído na tarde de hoje

País que não preserva sua história

O fato lamentável corrobora com a máxima de que o Brasil é péssimo em preservar sua história. Com museus caindo aos pedaços, falta de patrocínio à cultura e de boa vontade dos governos, dificilmente era de se esperar algo diferente para a aviação.

Enquanto em outros países, inclusive sub-desenvolvidos, como Colômbia, Chile e África do Sul, os museus aeronáuticos são destaque, com modelos (inclusive novos) preservados, no Brasil eles são escassos e a falta de recursos e incentivos os tornam impossíveis de serem mantidos como deveriam.

Restos do DC-3, ao fundo o edifício da Fundação Ruben Berta

Não precisamos ir muito longe para lembrar do Museu TAM, que fechou as portas mais recentemente, bem como o Museu de Bebedouro. Isso sem contar o Museu VARIG, abandonado em Porto Alegre, e o MUSAL, que mal tem dinheiro para pagar as próprias contas.

Infelizmente, são raros os bons exemplos, como fez o centro comercial Boulevard Laçador, em Porto Alegre, que expôs num cenário incrível um outro DC-3 da VARIG, na denominada VARIG Experience. Ações como essas são a exceção e não a regra.

Carlos Ferreira
Managing Director - MBA em Finanças pela FGV-SP, estudioso de temas relacionados com a aviação e marketing aeronáutico há duas décadas. Grande vivência internacional e larga experiência em Data Analytics.

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