Embraer e Boeing: opinião de Ozires Silva sobre a parceria

A parceria entre Embraer e Boeing, como era de se esperar, não poderia resultar em nada diferente de muita polêmica. Amor e ódio se digladiam entre aqueles que vêem benefícios na união e aqueles que discordam dos termos do negócio.

Ozires Silva Embraer e Boeing

Ozires Silva




Mas se, entre as diversas opiniões, há muita gente contrária professando a perda de tecnologia e de empregos com o acordo, um dos homens mais importantes da história da Embraer tem uma opinião diferente. Ozires Silva, um dos fundadores da fabricante brasileira e um ícone da indústria aeronáutica nacional, enxerga o momento como uma nova evolução para a empresa. De tal importância a ponto de se comparar ao passado, não tão distante, em que houve a privatização que salvou e fabricante do fracasso e a alavancou para o sucesso mundial.

E mesmo nos primeiros rumores sobre a abordagem da Boeing à Embraer no final de 2017, Ozires já havia se pronunciado à favor e declarado o quão vantajosa seria uma aproximação com a gigante norte-americana.

A seguir, você lê na íntegra o artigo de opinião escrito por Ozires sobre o presente e o futuro da parceria entre Embraer e Boeing.

Juntos, somos mais fortes
Por Ozires Silva

A indústria aeroespacial global está passando por profunda transformação. Consolidação entre fabricantes e fornecedores prometem impactar a competitividade do setor. Países como Japão, Rússia e China, contando com apoios governamentais e foco nos jatos de até 150 assentos, estão dispostos a ganhar mercados externos, no qual a Embraer é líder mundial.

Sabemos ser difícil manter posição de destaque em mercados competitivos como a indústria aeroespacial. Os países emergentes cresceram e descobriram que não podemos fazer o que queremos. Temos de fazer o necessário, mesmo com sacrifícios, com menos direitos e mais obrigações. Por isso, a Embraer está focada em manter sua competitividade no futuro: a parceria estratégica com a Boeing, a maior fabricante de jatos comerciais do mundo, faz sentido.

Quando a Embraer foi criada, em 1969, a indústria aeronáutica era mais diversificada, mas não menos competitiva. Anos de trabalho árduo construíram a imagem e a reputação da Embraer no mercado internacional, desde que expusemos o Bandeirante uma primeira vez no Salão Aeronáutico de Le Bourget, em 1977. Desde então, a Embraer se dedicou a identificar certos nichos de mercado, com atenção total aos clientes para entregar produtos inovadores que atendessem às suas necessidades.

A parceria com a Boeing poderá tornar a Embraer empresa mais forte e preparada para competir nos próximos anos. Juntas, as duas empresas criarão novos produtos e poderão crescer, explorando oportunidades nos mercados. A Boeing reconhece a capacidade técnica da engenharia e da mão-de-obra da Embraer e afirma que o Brasil será o centro de excelência da joint venture, garantindo produção, criação de empregos e exportações para o Brasil.




Há um paralelo deste momento com a privatização da Embraer, em 1994. Como agora, havia apreensões e vozes contrárias, mas sabíamos que a privatização era a única saída para mantermos a Embraer viva e, mais ainda, preparada para o futuro. A história mostrou que a decisão foi mais do que acertada e, desde então, a Embraer cresceu, se modernizou e se internacionalizou.

Tornou-se, assim, líder mundial na fabricação de jatos de passageiros de até 150 assentos, ingressou no segmento ultracompetitivo da aviação executiva com produtos superiores e inovadores – o jato Phenom 300, por exemplo, há anos é o modelo mais vendido de sua categoria – e tem aumentado sua atuação internacional na área de defesa, cujo expoente atualmente é o jato de transporte multimissão KC-390. Com grande potencial de exportação, o KC-390 vem para substituir parte da frota global de antigos C-130 Hercules, de origem norte-americana, ainda em operação.

Vivemos um momento que exige coragem e ousadia para tomar as decisões corretas e, assim, criar as oportunidades necessárias para o futuro. Entre outras vantagens, essa parceria estratégica com a Boeing fortalecerá ambas as empresas, posicionando-as de forma adequada para competir no novo cenário global da indústria aeroespacial.

Não menos importante, veremos preservados os interesses da FAB e do Governo Brasileiro, mantendo a capacidade tecnológica e industrial instaladas no Brasil, o que garante também a soberania e a autonomia da nossa nação.

Com linhas de produtos complementares, filosofias de trabalho e culturas semelhantes, dedicadas à inovação e excelência, a parceria estratégica se beneficiará de uma cadeia global de suprimentos, com fornecedores nossos e uma rede de serviços que fortalecerá as marcas Embraer e Boeing, criando assim uma nova proposta de valor para funcionários, clientes, parceiros e investidores.

Como um apaixonado pela Embraer, à qual dediquei a maior parte de minha vida, vejo esta nova rota como essencial na construção do futuro da Embraer, que, tenho certeza, será um sucesso ainda maior!

Avião Embraer E-Jet E2 Boeing 797

Embraer E2 e Boeing 797

 

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.