Emirates queria um super A380 para 850 passageiros, mas a Airbus desistiu do projeto

O Presidente da Emirates, Tim Clark, saiu disparando para todos os lados na última semana. Além de fortes declarações sobre o programa 777X, o executivo reclamou da demora da terceira pista do aeroporto londrino de Heathrow, da confiabilidade de motores e disse que a Airbus desistiu de um projeto para um super-avião de 850 lugares.

Todas essas declarações foram dadas ao longo de várias entrevistas realizadas durante a Conferência Airlines 2050, organizada pela Flight Global na cidade de Londres.

Disparos no Boeing 777X

À Reuters, o executivo focou suas críticas no atraso do projeto do Boeing 777X, que estaria impedindo o crescimento da Emirates. De fato, a transportadora sediada em Dubai tem 150 desses grandes jatos encomendados e originalmente planejava que eles entrassem em serviço em junho passado. Portanto, faz sentido que a espera prolongada também afete os requisitos mais amplos da frota da companhia aérea do Golfo.

Há pouco tempo, Clark já havia feito observações dizendo que não espera ver a entrega de um único 777X em 2020. A Reuters ainda relata que a expectativa agora se estende até o ano seguinte, de tal forma que a primeira aeronave 777X não chegaria antes de abril ou do segundo trimestre de 2021. Ele reclama que esse atraso “condicionou todo o resto do plano de negócios” e que o crescimento da capacidade só será retomado quando houver “visibilidade” da situação do programa do jato.

Paine Airport Air Picture 777X
Imagem: Paine Airport

É importante lembrar que a Boeing suspendeu os testes de pressurização em seu novo 777X em setembro quando uma porta explodiu enquanto o teste estava em andamento. Isso aconteceu sob a supervisão de engenheiros e inspetores da FAA. Outro problema enfrentado pelo programa inclui um recall do motor pela GE, significando que o primeiro voo de teste não ocorrerá até 2020 .

Reclamação sobre a confiabilidade dos motores que equipam Airbus e Boeing

Em uma entrevista à Skift, Clark reclamou de motores defeituosos, tanto do 777X, quanto do Airbus A380, que provocaram excedentes de custos. Ele continuou dizendo que a Emirates não levaria mais aeronaves da Boeing nem da Airbus até que os problemas de confiabilidade fossem resolvidos. 

Além do problema com os aviões da Boeing, recentemente a Emirates teve que incluir diversas revisões não programadas em motores do Airbus A380, após a emissão de uma nova diretiva de aeronavegabilidade, que requer um tempo menor entre as inspeções dos motores que equipam a aeronave.

Motor GP7200 A380 Air France
Motor do A380 da Air France na falha de 2017

As inspeções baseiam-se na investigação em andamento da agência francesa (BEA) sobre uma falha do motor GP7270 do Airbus A380 da Air France, ocorrida sobre a Groenlândia em 30 de setembro de 2017, que resultou em uma explosão do motor em voo e a queda das peças no solo.

Irritado, Clark disse o seguinte: “Eu digo: ou você nos fornece estruturas e motores que funcionam desde o primeiro dia, ou então simplesmente não produza”.

Pessimismo com a terceira pista de Heathrow

Quando perguntado sobre a perspectiva para a construção de uma terceira pista no aeroporto internacional de Londres-Heathrow, onde a Emirates opera sete voos diários, sendo seis deles com A380, o chefão da Emirates disse ao The Independent que “se tiver sorte, o projeto sai em 2035”. Mas ele acrescentou: “Eu não estou totalmente certo de que isso vai acontecer.”

Pesperctiva do Heathrow já com a nova pista pronta (á esquerda)

Vale ressaltar que a companhia aérea é de longe o maior operador do mundo do superjumbo, possuindo quase metade dos Airbus A380 vendidos, com 112 deles em serviço e 11 com entrega pendente.

Plano master da ampliação do Heathrow

Sir Tim disse que a presente ligação entre Heathrow e o hub da Emirates em Dubai continuaria, mas disse que a demanda adicional seria atendida por aeroportos regionais. Se a expansão de Heathrow não for adiante como planejado, a Emirates enfrentaria um corte em sua capacidade dentro e fora de seu principal aeroporto do Reino Unido.

Airbus não acompanhou os planos da Emirates

Ainda durante a entrevista ao The Independent, Sir Tim expressou sua frustração de que a Airbus não acompanhou os planos da Emirates para uma versão estendida de sua aeronave de deck duplo, o A380. “Se eu pudesse ter um A380 maior, para 850 passageiros em quatro classes de serviço, naqueles seis slots de Heathrow, seria o ideal. Mas não podemos porque eles [A Airbus] cancelaram”, disse.

Ele disse que as maiores aeronaves que espera receber no futuro são os 777-9, que têm 374 assentos, em quatro classes de serviço, contra o A380 que tem 517 assentos. “Nós teremos que adquirir mais slots, o que não sei se aconteceria se não tivermos a terceira pista, ou vamos para outro lugar no Reino Unido”, concluiu o executivo.

Além de Heathrow, a Emirates também serve Gatwick, Stansted, Birmingham, Manchester, Newcastle, Edimburgo e Glasgow.

Heathrow responde

Com base nas declarações de Tim Clark, um porta-voz de Heathrow emitiu a seguinte declaração: “Estamos empenhados em oferecer os benefícios da expansão o mais rapidamente possível, criar mais empregos, impulsionar as exportações e reduzir as tarifas aéreas, aumentando a concorrência entre as companhias aéreas. A política nacional dos aeroportos requer uma nova pista para ser entregue, no mais tardar, em 2030, e nossos planos podem garantir esses benefícios tão cedo quanto 2026.”

Carlos Ferreira

É profissional de marketing e pesquisador de temas relacionados à aviação há quase duas décadas. Leva a câmera fotográfica para onde vai e faz mais fotos de aviões do que dos passeios. Responsável pela linha editorial da revista eletrônica AEROIN.net.