Empresa aluga quatro aviões Boeing 777, mas não pode voa-los porque não tem pilotos para eles

O futuro da Zimbabwe Airways soava brilhante. Fundada em janeiro de 2018, a empresa encomendou logo de cara quatro Boeing 777-200ER. Em certo ponto após a chegada das aeronaves, ela “descobriu” que era caro demais ter pilotos

Boeing 777 Zimbabwe

Seus planos ambiciosos tinham tudo para tornar a Zimbabwe Airways a próxima Emirates, conectando Harare ao mundo. E tenho certeza de que os agentes da Skytrax já estavam a caminho de Harare com um troféu de cinco estrelas quando ouviram as notícias da nova companhia aérea (por que se a Emirates pode obter uma classificação de cinco estrelas, qualquer um pode).

Tira, põe, deixa ficar

Voltando um pouco no tempo, certa vez, Patrick Chinamasa, ex-ministro das Finanças do Zimbábue, havia declarado que a Zimbabwe Airways foi criada pelo governo para aliviar a outra transportadora estatal, Air Zimbabwe, que tinha mais de US$ 300 milhões em dívidas. É algo mais ou menos assim: sou o dono e a empresa quebrou, mas vamos esquecer do passado, vou abrir outra empresa igual, você me dá crédito e começamos do zero de novo.

E, naturalmente, quando você deseja iniciar uma nova companhia aérea, você solicita imediatamente quatro widebodies e vai ‘para as cabeças’, porque, de novo, se a Emirates pode, eu também posso, certo?

Diziam que a empresa não tinha ligação com o ditador Mugabe, até chegar o Boeing

A fim de melhorar sua reputação e acesso a novos mercados, a alegação do governo era de que a nova companhia aérea não tinha nada a ver com o ditador Robert Mugabe e sua família, mas era gerida de maneira independente, apesar de ser estatal. Acontece que, quando o primeiro avião chegou, surpresa: ele estava “coincidentemente” registrado como Z-RGM, exatamente as iniciais de Robert Gabriel Mugabe, inclusive seu genro emergiu do avião usando um uniforme de comandante, embora não se saiba se ele é realmente um piloto.

Com toda a honestidade, está claro que há alguma coisa errada aqui (o que é terrivelmente triste quando você pensa em como esse dinheiro poderia ser gasto, mas isso não é novidade no Zimbábue). Eles têm o avião, então o que vem a seguir? 

Não vamos entrar no detalhe, no entanto, dos quatro Boeings encomendados, dois foram pintados com as cores da Zimbabwe, sendo que apenas um foi entregue e outro continua na Malásia, esperando por seu fim.

A Zimbabwe Airways ‘descobriu’ que pilotos são caros

O exposto acima nem é a parte mais bizarra da história. O ponto é que a companhia aérea não possui nem autorização para voar e nem tem pilotos qualificados para operar o avião, inclusive ela percebeu que os pilotos são muito caros.

Por volta de Maio de 2018, o governo emitiu o seguinte comunicado à imprensa internacional (por mais bizarro que possa parecer), conforme reporta o Zimbabwe Herald:

“Infelizmente, se o atraso na organização de tudo continuar, os custos de manutenção continuarão aumentando, especialmente considerando o fato de que não está ganhando dinheiro – o que levanta mais questões sobre como chegamos onde estamos. Primeiro, ninguém queria aqueles aviões antigos e, portanto, eles poderiam ter nos custado muito, muito menos. Em segundo lugar, a Zim Airways claramente não tem capacidade para operar essas aeronaves, pois não possui pilotos e engenheiros treinados para elas. Isso significa que precisaremos contratar expatriados para pilotar os aviões, e a taxa para um capitão do B777 é de pelo menos US$ 20.000 por mês, o que não é acessível neste mercado, onde você nem tem passageiros para justificar o investimento”.

A história também sugere que o avião foi levado para Harare por cinco pilotos da Malaysia. Mas espere um segundo, o genro de Mugabe desceu daquele avião vestindo um uniforme com quatro listras o ombro. Você vai me dizer que ele não é um comandante experiente do 777, com milhares de horas voadas? Ninguém soube ou não quis explicar.

Resumo da ópera

Eu sinceramente não acho que alguém pensasse que o governo do Zimbábue estava falando sério, embora seja especialmente triste que isso pareça ter sido apenas um esquema para fazer desaparecer vários milhões de dólares. Dinheiro que poderia ter sido melhor gasto com o povo do Zimbábue.

Boeing 777 Zimbabwe

Desde a queda do falecido Robert Mugabe, em 2017, o atual Presidente Emmerson Mnangagwa tem se comprometido a pedir uma maior transparência dos órgãos do governo, incluindo desvendar os escândalos financeiros das últimas três décadas.

Uma auditoria realizada em julho de 2019 revelou que um montante de US$51 milhões foi desembolsado pelo Banco da Reserva do Zimbábue para a Malaysia Airlines como parte do acordo de arrendamento de dois dos quatro Boeing 777-200, sem que houvessem as aprovações necessárias para isso.

Carlos Ferreira

É profissional de marketing e pesquisador de temas relacionados à aviação há quase duas décadas. Leva a câmera fotográfica para onde vai e faz mais fotos de aviões do que dos passeios. Responsável pela linha editorial da revista eletrônica AEROIN.net.