Entrevista exclusiva com o brasileiro Pablo Tees, o mais jovem piloto de A380 do mundo.

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Comandante Pablo (esq.) e o co-piloto Glauco Luciano. Brasileiros na cabine do A380 da Emirates.

O primeiro voo comercial de um A380 para a América do Sul esteve sob o comando de um experiente brasileiro. No comando de aeronaves de grande porte da Emirates desde 2011, Pablo Tees Leite é atualmente um dos mais jovens pilotos de Airbus A380 do mundo.

Carioca e com formação no Aeroclube de Itápolis, no interior de São Paulo, Pablo foi recebido por uma multidão após seu desembarque no Brasil, fruto do orgulho que os brasileiros têm ao ver os conterrâneos se destacando mundo afora.




Antes de regressar a Dubai, na madrugada desta segunda feira, 16 de novembro, o jovem comandante, concedeu uma entrevista exclusiva ao AEROIN, respondendo perguntas feitas pelos nossos leitores. Confira essa grande lição de motivação e superação.

 

AEROIN: Qual foi sua reação ao saber que seria o responsável em comandar o primeiro voo comercial do A380 ao Brasil?

Pablo Tees: Fiquei muito feliz com notícia e a primeira coisa que fiz foi avisar minha família, por que eles são os que mais vibram junto comigo e eu precisava dividir este momento de felicidade com eles. Depois, foi como uma contagem regressiva até o dia do voo. Outro aspecto importante de comentar foi o minucioso planejamento da operação, numa primeira operação como essa, você precisa ter todas as informações operacionais para não ter surpresas de ultima hora. O resultado todos sabem, a operação foi realizada com grande sucesso e exatamente como a gente queria seguindo os padrões da empresa.

 

AEROIN: Qual foi a sensação de pousar em solo brasileiro com o maior avião do mundo?

Pablo: O pouso foi feito pelo co-piloto, o também brasileiro Glauco di Giacomo, mas só pelo fato de estar ali presenciando tudo foi muito gratificante. Até procurei o famoso ‘morrinho’ durante aproximação, mas me informaram que estava do meu lado direito e então não consegui ver o público que nos aguardava. Sobre a sensação de fazer o voo histórico para o Brasil, foi algo único. Contatamos o controle de tráfego aéreo em bom português: “boa tarde, aqui e o Emirates, dois meia uno” e foi a primeira sensação de felicidade e surpresa por ver todos felizes durante os contatos e conforme o voo foi se aproximando outros amigos da aviação começaram a chamar o meu nome e o nome do Glauco na fonia. Após o pouso em Guarulhos, varias pessoas te chamando na freqüência e você tendo de manter a concentração até os cortes dos motores, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, enfim, hoje não consigo resumir tudo isso, porque foi uma grande festa e claro, as pessoas que estavam lá fora tiveram uma visão melhor que a minha do tamanho deste evento.

 

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AEROIN: Você acredita que o GRU Airport pode receber tranquilamente o A380 ou sentiu falta de alguma coisa durante a operação?

Pablo: Acredito que se tivesse um voo no dia seguinte, o GRU Airport estaria preparado para receber este tipo de aeronave. O pouso foi tranqüilo, dentro do programado e seguindo os padrões de segurança da Emirates, mas acredito que o que afetaria um pouco a operação seria o fato da gente ter de pousar na pista que geralmente e utilizada para decolagens. No entanto, com apenas um voo por dia, acredito que não afetaria as operações do aeroporto. Nossa esperança é que em 2016 a Emirates decida deixar o A380 fixo na rota, já que seria um grande diferencial para os passageiros e a alegria de todos os pilotos brasileiros que voam o A380 na companhia.

 

AEROIN: Você esperava ser recebido por tantas pessoas no saguão do GRU Airport? O que passou em sua cabeça quando viu que aquela multidão lhe aguardando no desembarque?

Pablo: Antes de sair de casa em Dubai, estava falando com os meus familiares e amigos e eles comentavam as noticias publicadas pelo AEROIN, dos números de acessos e compartilhamentos e eles perguntavam o que eu achava que iria acontecer quando chegasse no Brasil.  Eu achava que algumas pessoas iriam entrar no avião para fazer fotos, mas eu acreditava que tudo seria normal, além de encontrar familiares e amigos no desembarque. O mais engraçado é que fui o primeiro a sair pelo portão e olhei como a gente sempre faz, procurando por pessoas conhecidas. De repente começaram todos os aplausos e pessoas gritando meu nome, fiquei sem reação, realmente me pegou de surpresa. Fiquei com um sorriso no rosto por, pelo menos, uns dois dias, eu não imaginava tanta repercussão em cima desta noticia. Até mesmo pelo fato de estar morando há tanto tempo fora e vir ao Brasil apenas duas vezes por ano, então você acaba esquecendo o quanto nós brasileiros somos calorosos e apaixonados por certos tópicos, sei que a aviação é algo muito forte, tendo nosso o ídolo-maior Santos Dumont. Os brasileiros ainda cultuam automobilismo e futebol, então foi muito gratificante ver tudo isso e sem duvidas vai ficar guardado comigo pelo resto da minha vida, foi um grande momento.

 

AEROIN: Fale mais sobre como você soube da matéria publicada no AEROIN e da grande repercussão.

Pablo: Assim que foi publicada a matéria, comecei a receber de amigos da aviação o link com o texto que estava no site e todos davam os parabéns. Depois comecei a receber de pessoas não envolvidas com aviação os números de acessos. Quando vi que tinham mil acessos comemorei, depois fui acompanhando a evolução da matéria, com 20 mil, 50 mil e 100 mil e hoje passando dos 160 mil. Fiquei muito feliz em saber que a matéria serviu de inspiração para todos aqueles que têm um sonho e buscam realizar, foi muito gratificante.




 

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AEROIN: Como é operar a super-máquina da Airbus? O conforto e prazer em voar é o mesmo oferecido aos passageiros? 

Pablo: Voar o A380 como piloto impressiona muito, até pelo fato de que, quando voava o A330-200, fazia 4 a 5 voos por semana devido às etapas mais curtas e no A380, como fazemos etapas mais longas, acabamos voando menos dentro do mês. E quando você passa mais tempo sem voar e entra na cabine do A380, tem um sentimento de realização muito grande. Em termos de conforto, para o passageiro é diferente pois tem chuveiro e na executiva tem o lounge na parte traseira, onde ele pode ficar em pé e se distrair, o voo passa muito mais rápido.

 

AEROIN: Que aeronaves você já voou na Emirates? 

Pablo: Os aviões que voei na Emirates foram o A330-200, o A340-300, o A340-500 e neste ultimo ano o A380-800

 

AEROIN: De todas as aeronaves que já pilotou, qual foi a que marcou a sua vida?

Pablo: De todas as aeronaves que pilotei, a que marcou a minha vida foi o A330 porque foi a aeronave de onde saí comandante. Foi uma expectativa muito grande, pois o curso de comandante da Emirates é um dos mais rigorosos que existem no mundo. Foi muito estudo, sempre puxado e que exige muita dedicação para alcançar seu objetivo. No final, foi muito gratificante eu sair comandante em um widebody, porque geralmente em muitas empresas você sai em um avião menor, regional, e depois vai assumindo aeronaves maiores.

 

AEROIN: Como foi a transição da aeronave que você pilotava anteriormente para o gigante A380? A adaptação foi fácil?

Pablo: A transição para o A380 foi fácil, porque a gente voava antes no A330 e A340 e foi relativamente normal esta mudança. Da mesma forma, as rotas que a gente voa hoje com o A380, antes fazíamos com o A330 e A340. Embora o A380 seja mais moderno em termos de aviônicos, não tive problemas na adaptação e instrução porque eles te preparam de uma forma que te preparam para tudo o que vai vir pela frente.

 

AEROIN: Sua família influenciou sua formação? 

Pablo: Eu vim de uma família formada por comandantes e co-pilotos, então você tem a influencia por que, invariavelmente, o papo acaba indo para o lado da aviação. Por este motivo, você acaba adquirindo uma cultura aeronáutica muito grande mesmo antes de iniciar o curso oficialmente. Mas eles nunca me forçaram a nada. A pessoa tem que fazer o que gosta, mas claro, que quando você vai voar com o seu pai aos 5 anos de idade e depois aos 10 anos de idade, quando tem a oportunidade de voar em um simulador de voo, tudo isso fica guardado pra sempre em sua mente e você e você acaba seguindo para o mesmo lado.

 

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AEROIN: Como é viver em Dubai e o que a EMIRATES tem de diferente das outras companhias na visão de um tripulante?

Pablo: Morar em Dubai é muito bom, primeiramente pelo clima sempre bom. Dubai é uma cidade feita para estrangeiros, assim quando você chega em Dubai, sente pouco o choque cultural e diferenças de cultura, principalmente por que Dubai foi feita para os estrangeiros. Lá você tem todas as opções de restaurantes, vida social e todos os esportes que você gosta de fazer e isso faz uma diferença muito grande se você tem família e filhos. O importante é levar tudo em consideração quando vai morar no exterior, por que não é apenas a empresa e o salário que importam, mas a qualidade de vida que você vai ter. Sobre a empresa, sempre voamos em aeronaves modernas e novas e a companhia cresce cada vez mais e tem um futuro muito promissor. Eu sei que faço parte desta historia e deste crescimento e realmente tudo isso é muito gratificante.

 

AEROIN: Qual a maior dificuldade encontrada em voar nos Emirados? Como se adaptou a cultura? Algo muito impactante?

Pablo: A maior dificuldade encontrada em voar nos Emirados foi o acento do inglês, por lidar com pessoas de varias nacionalidades, tem dia que você voa com um australiano, outro com um escocês e no outro com um americano. Claro que mantemos uma fraseologia padrão durante o voo, mas com as conversas do dia-a-dia, o acento às vezes fica difícil de entender, mas isso até você se acostumar , acho que foi o mais complicado no início. Sobre a cultura não tive nada de diferente, como disse, é um pais feito para estrangeiros. O mais importante é você respeitar a cultura do país, claro que existem diferenças, ainda mais quando você vem do Brasil, mas se você souber respeitar você será respeitado.

 

AEROIN: Qual mensagem você gostaria de deixar a todos os estudantes de aviação que se inspiram no seu trabalho?

Pablo: Acredite em você e não desista nunca. Muitas vezes a gente tem mania de colocar barreiras e obstáculos em nossas vidas quando não precisa, então acredite e tenha foco, corra atrás e não deixe nada atrapalhar a sua vida. Se tiver que deixar a casa dos pais para correr atrás do seu futuro, vá em busca dos seus sonhos, faça sacrifícios em sua vida, pois no final vai valer a pena e o futuro irá lhe recompensar.

 

O DESEMBARQUE EM SÃO PAULO

Ao chegar no GRU Airport, Pablo Leite foi muito assediado por funcionários do aeroporto e pelas dezenas de pessoas que o aguardavam no saguão do aeroporto. A grande maioria era formada por estudantes de aviação, alunos do aeroclube de Itápolis e de vários outros aeroclubes do Brasil, além de amantes de aviação.

Quando o Cmte. Pablo e sua tripulação apareceram, foi um empurra-empurra, fotos, selfies, abraços e seguranças tentando abrir caminho. As pessoas que estavam embarcando ou desembarcando queriam saber quem era aquela pessoa. Uma pequena senhora, com duas amigas, se aproximou perguntou do por quê de todo aquele alvoroço.

Para Douglas Araújo, que veio de Vinhedo, São Paulo, apenas para ver a aeronave, foi prazeroso poder conhecer o Cmte. Pablo Tees Leite e saber que no começo ele também pilotou o Paulistinha, mesma aeronave na qual voa atualmente. “Alimentei ainda mais o meu sonho de voar bem alto” disse Douglas.

Confira fotos do desembarque do comandante Pablo.

Apoio fotos saída desembarque créditos Peter Wilson

Luis Neves

É agente de turismo e acompanha a evolução da aviação brasileira desde o final da década de 80. Fotografa tudo o que voa e tem uma das maiores coleções de fotos de aviação do Brasil.