Especialista sobre incidente do Boeing 777: “Gestão do comandante foi impecável”

Segundo o Comandante Perez, referência no setor, todos os membros da tripulação merecem ser reconhecidos.

B777-300ER pousando em Guarulhos. Foto: Eterno Benito Latorre

A única pista do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, o BH Airport em Confins, na região metropolitana, foi totalmente liberada após ter sido considerada impraticável na última quinta-feira (20) por quase 21 horas, causando a necessidade do cancelamento de diversos voos que tinham destino ou se originavam lá.

O que se sabe é que a aeronave Boeing 777-300ER de matrícula PT-MUG, cumprindo o voo LA 8084, estava em rota quando perdeu a transmissão de energia dos motores para diversos sistemas elétricos e de navegação. A falha ocasionou a liberação da RAM Air Turbine, uma pequena hélice geradora acoplada à raiz da asa, que alimenta os sistemas essenciais em caso de extrema necessidade e que permitiram a técnica de overweight landing (pouso acima do peso máximo) em segurança pela tripulação, com a posterior mitigação do início de incêndio nos trens de pouso pelos bombeiros do aeródromo.

Entrevista

Importante: muitos especialistas aparecem em veículos de massa nesse momento para especular o que acreditam ter contribuído para um incidente grave que já teve sua investigação iniciada pelo CENIPA, mas poquíssimos no mundo contam com o know-how e a ética profissional na categoria do Comandante Francisco Perez.

Master do Boeing 777-300ER, Perez é um dos brasileiros com maior quantidade de horas no equipamento. Também conta 47 anos trabalhando no transporte aéreo, é Doutor, possui 22 anos como professor corporativo na empresa e 3 anos universitário. Foi piloto internacional por 18 anos também nas aeronaves A330 e MD11, já formou mais de 400 aviadores em rota e simulador e hoje forma alunos universitários para o setor aeronáutico especializado. Type Rating Instructor, facilitador LOFT (Line-oriented flight training – treinamento de voo orientado à linha aérea) e de CRM (Crew Resources Management – gestão de recursos humanos), exerceu cargos de chefia em operações da companhia envolvida e foi peça chave na fundação e estruturação da aérea de Rolim Amaro, hoje incorporada à LATAM Airlines Group.

Cmte. Francisco Conejero Perez

Hoje é Professor Doutor titular na Anhembi Morumbi e Diretor de Operações e treinamento da TWO FLEX Linhas Aéreas, a feeder regional de cargas e passageiros de maior potencial de crescimento no país, com sede em Jundiaí.

Ele concordou em falar conosco nesta tarde e difundir a cultura de segurança, além de contribuir de forma proativa para evitar a desinformação do público viajante.

Aeroin: Comandante Perez, muito se fala precipitadamente sobre o incidente com o B777 da LATAM Airlines Brasil, que causou alvoroço na malha aérea do país por ter interditado a única pista do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte – o BH Airport. O que já é possível concluir antes da investigação oficial feita pelo CENIPA?

Perez: Temos que esperar a investigação pois não tenho dados para entrar em detalhes, o que se tem que elogiar é a atuação de toda tripulação, pois isso demonstra que a empresa que trabalhei fornece treinamento de excelência. Eles agiram conforme pede o fabricante da aeronave e as normas que lhes foram ensinadas.

Aeroin: Sem dúvida, o profissionalismo e o treinamento da tripulação do voo LA 8084 que saía de São Paulo para Londres foram colocados à prova. Mas com a recente crise econômica afetando todos os setores, o viajante deve se preocupar com segurança do transporte aéreo na hora de adquirir bilhetes comerciais?

Perez: Não, no Brasil temos um alto nível de segurança. As falhas desta natureza não são comuns e os pilotos possuíam treinamento proficiente para poder operar com segurança nestas condições. Eles já foram reconhecidos e largamente elogiados por terem feito sua missão, inclusive aplaudidos pelos passageiros.

É preciso aguardar o CENIPA para poder dar mais informações.

Aeroin: A Infraestrutura Aeroportuária e o Controle do Espaço Aéreo estão igualmente preparados para este tipo de evento?

Perez: Sim, perfeitamente. Os bombeiros, a equipe de solo, o controle, todos contribuiram para que a ocorrência fosse resolvida de forma magistral.

Cabine de comando da aeronave

O que se espera

Caso comprovada pane nos sistemas elétricos da aeronave sem interferência de fatores humanos em sua manutenção, além de o equipamento ter sido mantido em conformidade com as diretivas do fabricante, é esperada uma posição tanto da fábrica de Everett quanto do FAA, que podem emitir boletins de segurança ou diretivas de aeronavegabilidade, já que não são conhecidos incidentes com as mesmas características no modelo, um dos equipamentos recordistas em segurança e confiabilidade do planeta.

Toda investigação ocorre em sigilo até que as informações coletadas possam vir a contribuir com a segurança na aviação civil, e o objetivo do CENIPA, que segue as diretrizes do SIPAER, é sempre a prevenção de novas ocorrências através de normas, recomendações e informações sem a interferência de bandeiras ou entidades, buscando sempre os fatores materiais e humanos que possam ter vindo a contribuir com o incidente ou acidente, nunca um único culpado.

O equipamento

A aeronave conta com os motores mais potentes da aviação comercial, os General Electric 90-115B, e comandos fly-by-wire, introduzidos na comercial pela Airbus no início da década de 90 e nas rotas inter-oceânicas pela Boeing com o modelo em questão.

A real importância do Boeing 777 no cenário da aviação comercial, tanto por sua capacidade quanto por sua inovação tecnológica, foram destacadas nestas matérias da nossa comunidade:

O estado da arte

Três vezes sete

André Le Senechal

Piloto comercial, ICAO 5. Formando no Bacharelado de Aviação Civil. Respira o ar do Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos. Profissional de infraestrutura aeroportuária e controle/despacho operacional de voos. Plane Spotting e Simuladores de voo.