Exame errou: Ryanair não é a primeira a cobrar bagagem de mão

Dois dias atrás vi a notícia em um grupo de entusiastas da aviação de Portugal e ontem estava espalhada de maneira viral em todas as mídias sociais no Brasil: a irlandesa Ryanair, pioneira no modelo Low-Cost Low-Fare na Europa, iria iniciar cobrança de bagagem de mão.




A notícia me supreendeu por um ponto: como a Ryanair demorou tanto para começar cobrar bagagem de mão. A companhia, no passado, já sugeriu cobrar 1 libra esterlina para usar o banheiro de suas aeronaves e também já levantou a ideia de passageiros irem praticamente em pé em voo, e economiza em serviços de solo ao utilizar a escada do próprio 737 para embarque e desembarque dos passageiros.

Mas Ryanair à parte, a notícia bombou no Brasil graças a uma matéria da conceituada Revista Exame, que tem o seguinte titúlo: “O novo passo das aéreas: cobrar bagagem de mão” e que, no seu texto, fala que “Convém ficar atento às inovações da companhia aérea irlandesa Ryanair”. Mas como diz Trump: Fake News, notícia falsa, a Exame errou!

Lembro como se fosse ontem meu primeiro voo na Frontier Airlines, entre Chicago O’Hare e Miami rumo à loucura do Spring Break. Como ficaria mais em um festival do que turistando, queria levar uma mochila de mão, mas não era viável: a companhia cobra por bagagem de mão $30 dólares, contra $25 dólares de bagagem despachada. Acabei levando minha mala grande mesmo.




A companhia começou a cobrar por bagagem de mão em 2014 e é conhecida pelas caudas com pinturas de animais. Tradição copiada pela irmã JetSmart do Chile, ambas do grupo Indigo Partners. E a JetSmart também segue a tradição e cobra por bagagem de mão 7 mil pesos chilenos (R$43).

O fato se repete com as americanas Spirit Airlines ($26 ~ 65), Sun Country Airlines ($15 ~ 30) e Allegiant Air ($15 ~ 50), e com as canadenses Swoop ($36 ~ 92) e Flair ($36 ~ 115). Todas as companhias listadas até aqui são as Ultra Low-Cost Carriers, ou ULCC, que cobram por tudo mas oferecem o melhor preço em 90% dos casos. Na viagem citada acima, estava mais barato ir com a Frontier até Miami pagando até duas bagagens (de mão e despachada) do que ir com a American Airlines que inclui bagagem de mão gratuita.

As ULCCs são um modelo de negócio até recente, mas a cobrança não é uma prática nova. Uma simples pesquisa no Google resolveria. Não parece ser o caso do autor da matéria onde a Exame errou, que viu a notícia em algum portal europeu e achou oportunidade de criar alvoroço em meio ao debate sobre política de bagagens no Brasil.

Voltamos ao ponto que o chefe de uma grande entidade da aviação me perguntou: “As grandes mídias procuram vocês pra falarem sobre aviação?”. A nossa resposta se mantém até hoje: “Nem procuram checar a informação no Google, quem dirá procurar mídia especializada”.

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é Piloto Comercial, Despachante, Bacharel em Ciências Aeronáuticas, membro da AOPA e veterano da Western Michigan University #GoBroncos