Era falsa a licença do piloto do Boeing 737 que mergulhou durante arremetida, afirma Rússia

Um acidente que matou todas as 50 pessoas a bordo de um Boeing 737 no aeroporto de Kazan, na Rússia, em 2013 foi resultado de erros cometidos pelos dois pilotos, incluindo um que obteve sua licença usando documentos falsificados, disseram investigadores russos nessa quinta-feira, 14 de novembro.

Acidente Tatarstan 737-500 Kazan 2013 Destroços
Destroços da aeronave acidentada em Kazan

A aeronave Boeing 737-500 era operada pela agora extinta Tatarstan Airlines, que mais tarde teve sua licença revogada pela Agência Federal de Transporte Aéreo da Rússia, a Rosaviatsiya.

O avião realizava uma arremetida durante a noite, quando mergulhou na pista e explodiu em chamas, conforme mostra o impressionante vídeo do acidente. Todos os 44 passageiros e 6 tripulantes foram mortos.

O filho do presidente da província rica em petróleo do Tartaristão e o chefe regional do serviço de inteligência do FSB estavam entre os mortos. Os mortos também incluíam dois estrangeiros, um britânico e um ucraniano, além dos demais passageiros russos.

O Comitê de Investigação da Rússia disse em comunicado nessa quinta-feira que concluiu sua investigação sobre o acidente e disse que o erro do piloto causou o acidente.

O comandante da aeronave, Rustem Salikhov, não possuía habilidades de pilotagem suficientes e cometeu uma série de erros, assim como seu co-piloto Viktor Gutsul.

A investigação descobriu que Salikhov obteve sua licença de piloto usando documentos falsificados.

“Salikhov, mesmo não possuindo conhecimentos básicos, habilidades e experiência como piloto, começou a realizar voos aéreos de passageiros como piloto”, afirmou.

O Comitê de Investigação disse que acusou Valery Portnov, então vice-diretor geral da Tatarstan Airlines, que havia enviado os documentos de Salikhov contendo informações falsas em 2009, por violar as regras de segurança do tráfego aéreo, resultando na morte de pessoas.

O então chefe regional da agência Rosaviatsiya no Tartaristão, Shavkat Umarov, também foi acusado de negligência.

Entenda o acidente

Segundo dados divulgados pela Rosaviatsiya com base em resultados preliminares de investigação, durante a aproximação o Boeing 737 estava significativamente fora (quase 4 km!) do alinhamento com a pista, levando o controle de voo a questionar a tripulação.

Após o contato, correções foram feitas, mas a aeronave permaneceu significativamente à direita da linha central da pista, até a tripulação selecionar o rumo 250 no modo de seleção de direção do piloto automático e a aeronave interceptar o localizador automaticamente cerca de 2 milhas náuticas (3,7 km) da cabeceira da pista, a cerca de 1000 pés de altitude (300 metros).

No entanto, o sinal do glideslope (auxílio eletrônico para fazer a descida de aproximação) não foi capturado devido à altura incorreta. Depois de passar o ponto de aproximação perdida, a tripulação discutiu uma arremetida e se comunicou com o controle de voo.

Então, os dois pilotos automáticos envolvidos na aproximação foram desativados e a tripulação continuou o voo manualmente com base no diretor de voo. Os motores aceleraram para potência próxima à de decolagem.

A aeronave começou a levantar o nariz sob a influência da aceleração do motor e retração dos flaps atingindo 25 graus de nariz para cima, quando então o sistema de compensação do estabilizador horizontal começou a agir no sentido de comandar a aeronave para mergulhar.

Enquanto isso, a tripulação recolheu o trem de pouso e não efetuou qualquer atuação no manche desde a desativação do piloto automático até aquele momento, e a velocidade do ar decaía de 150 nós para 125 nós.

Diante da queda de velocidade, a tripulação aplicou manche total à frente e a aeronave começou a acelerar novamente. Depois de atingir uma velocidade mínima de 117 nós a 2300 pés (700 metros) acima da pista, começou a descer rapidamente.

O sistema de EGPWS passou a alertar “SINK RATE” e “PULL UP” (avisos dados quando há risco de atingir o solo), mas não houve reação da tripulação à extrema atitude do nariz para baixo e a aceleração vertical tornou-se negativa.

A aeronave atingiu o solo a 75 graus do nariz para baixo a cerca de 450 km/h, e o impacto ocorreu 45 segundos após o início da arremetida e 20 segundos após atingir a altura máxima.

Acidente Tatarstan 737-500 Kazan 2013 Destroços
O Boeing 737 ficou completamente destruído

Avaliações laboratoriais e simulações de voo

O exame técnico da aeronave e dos sistemas da aeronave foi concluído sem que nenhuma falha técnica fosse identificada. Em particular, os sistemas hidráulicos de acionamento do profundor e os estabilizadores horizontais foram analisados ​​em laboratório, e não foi identificada nenhuma anomalia.

A modelagem matemática de falhas dos atuadores de profundor ou estabilizadores horizontais resultou em trajetórias de voo diferentes das experimentadas no voo de acidente. A comissão técnica concluiu, portanto, que não havia evidências de nenhum problema técnico que contribuísse para a sequência do acidente.

As recomendações iniciais de segurança divulgadas são para que seja fornecido treinamento em simuladores em situações de pousos impedidos, especialmente quando perto da altitude alvo para a arremetida, fornecendo também treinamento sobre o reconhecimento de desorientação espacial complexa e recuperação de perturbações.

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.

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