A380 salva aérea venezuelana do caos, pousa em aeroporto com restrições, mas governo destaca “aviação pujante”

Neste domingo (14), anunciamos em primeira mão que um Airbus A380 pousaria na Venezuela pela primeira vez. No entanto, além de omitir o real motivo da visita, o governo local ainda tentou usar voo como capital político para promoção de uma aviação que se deteriora a cada dia.

Quem acompanha o Twitter, viu ontem uma enxurrada de postagens de vários órgãos governamentais venezuelanos enaltecendo o primeiro pouso de um Airbus A380, maior avião de passageiros do mundo, no país e creditando o feito à pujança e avanço da aviação do país. No entanto, os fatos observados, as instruções dadas ao voo e as imagens, contradizem esse cenário de avanço desenhado pelo governo ditatorial local.

Inicialmente, é importante entender o por quê de a empresa venezuelana Estelar Latinoamerica ter alugado o A380 da HiFly para  realizar seus voos entre Londres, Madrid, Buenos Aires e Caracas.

A Estelar é uma empresa especializada em voos fretados que, devido à grave crise que enfrenta a Venezuela e ao abandono dos voos para Europa da estatal Conviasa, se tornou a única aérea nacional a realizar voos para o velho continente.

Com um A340-300 alugado, ela tenta manter três voos semanais para Madrid, além de fretamentos ad hoc para outros destinos. No entanto, na última sexta-feira (12), esse avião, que é o único de longo alcance da empresa, teve uma avaria em um dos motores ainda no solo em Caracas. Por consequência, centenas de passageiros nos aeroportos de Caracas e de Madrid foram deixados na mão.

Com o próximo voo se aproximando e sem uma solução imediata nas mãos, não houve alternativa à empresa aérea que não fosse encontrar rapidamente uma aeronave para substituir o A340 avariado, a fim de evitar o caos. Nesse contexto é que entra o A380, que é alugado pela Hifly para empresas que precisam recompor suas frotas rapidamente, e que não deve cobrar nada barato por isso.

No entanto, embora toda a comemoração pela chegada do gigante que, sem dúvida, é mesmo um fat marcante, é importante notar que o Aeroporto de Maiquetia, que atende Caracas, não possuía todas as condições para a operação do avião. Veja as restrições que o A380 teve para operar no aeroporto da capital venezuelana:

  • O governo pediu que as operações aconteçam preferencialmente de dia, por que a Venezuela tem tido apagões frequentes, que afetam, inclusive, os aeroportos;
  • Logo após o pouso, os motores 1 e 4 (mais nas pontas das asas) devem ser desligados para evitar sucção de objetos, já que a pista e as taxiways não têm a largura ideal para a aeronave;
  • A HiFly teve que trazer consigo a barra que conecta o veículo de pushback ao A380, já que o aeroporto não conta com uma barra adequada;
  • Embarque e desembarque apenas pela segunda porta da aeronave no primeiro piso (M2), já que as pontes de embarque não comportam a aeronave; e
  • Táxi apenas na pista 10/38, não podendo utilizar a taxiway F. Realização de backtrack está autorizada desde que seguida por carro de escolta (Follow Me).

O pouso foi noticiado por todas as agências de notícias, todas enaltecendo a pujança da aviação do país. A agência estatal AVN afirmou que a “chegada deste avião confirma a qualidade e segurança que tem, em âmbito internacional, o aeroporto Simon Bolivar”.

A qualidade é tão “notável” que a aviação venezuelana se deteriora dia após dia (veja esse grande cemitério de aeronaves modernas sendo canabalizadas ao relento, que noticiamos). Além das aéreas estrangeiras que operam cada vez menos no país já que as tripulações estavam sofrendo com a violência das ruas e as empresas não conseguiam repatriar o dinheiro gerado pelas vendas locais, inviabilizando as operações.

Além disso, ver um A380 em se país pela primeira vez é de encher os olhos, mas é importante destacarmos também o quanto pode ser nociva a manipulação das informações por parte da mídia e, pior ainda, por parte do governo.

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é Piloto Comercial, Despachante, Bacharel em Ciências Aeronáuticas, membro da AOPA e veterano da Western Michigan University #GoBroncos