Há 90 anos, quatro pilotos batiam um recorde com voo de 553 horas sem parar

Kenneth conserta o avião em voo enquanto o irmão pilota

Se nos dias atuais falamos de voos comerciais de 20 horas e achamos isso muita coisa, imagine ficar 553 horas (mais de 23 dias) a bordo de uma aeronave. Isso já aconteceu algumas vezes na história, mas alguns dos precursores dessa prática foram quatro irmãos de Sparta, Illinois.

Seu amor pela aviação começou em 1923, quando os jovens John, Kenneth, Albert e Walter Hunter viram um avião pela primeira vez e se apaixonaram. Os irmãos decidiram vender as suas motocicletas para comprar uma aeronave. John foi o primeiro a aprender a pilotar e ensinou os irmãos. Em 1924, os irmãos Hunter já tinham dois aviões e haviam se tornado artistas aéreos, fazendo acrobacias, saltos de paraquedas, caminhada de asas e mudança de um avião para outro no ar. Em 1925, os quatro passaram a voar para os Correios dos EUA.

Jornada do recorde

Poucos anos depois, em 11 de junho de 1930, lá estavam os quatro Hunter começando uma jornada para quebrar o recorde mundial de duração de voo. Os papéis dos irmãos foram definidos da seguinte forma: John e Kenneth eram os pilotos da “City of Chicago”, uma aeronave modelo Stinson-Detroiter, enquanto Albert e Walter trabalhavam como equipe de reabastecimento.

Decolando do aeroporto Sky Harbor, em 11 de junho, o pequeno avião com os dois pilotos permaneceu no ar por 553h 41m 30s, numa distância equivalente a uma volta e meia ao redor do mundo, vindo a pousar em 4 de julho de 1930, no mesmo local. Segundo matéria da época, o pouso aconteceu de maneira forçada, por problemas técnicos.

Reparos no ar

Foi um grande desafio manter a aeronave voando, já que muitos reparos tiveram que ser realizados, desde a lubrificação de peças de motor até a substituição de peças. 

Já preparados para isso, os irmãos montaram um apoio externo em ambos os lados do avião. Este apoio permitiu a Kenneth, o irmão mais novo, saísse da cabine para verificar o motor ou a cauda, ​​ainda que sob alto risco. Enquanto isso, lá embaixo, as pessoas se reuniam para ver o voo dos irmãos, ansiosos pelo dia do pouso.

Para manter o avião em voo era necessário que ele fosse reabastecido com combustível. Para tanto, enquanto John e Kenneth voavam o “City of Chicago”, Albert e Walter voavam outro avião para entregar manualmente os galões de combustível necessários.

Os quatro após o pouso. Albert, Kenneth, John, Walter da esquerda para a direia.

Em 4 de julho de 1930, coincidentemente no feriado do Dia da Independência, os Hunter pousavam aplaudidos e saudados pela multidão de 75.000 pessoas.

O voo e todos os procedimentos foram verificados pela National Aeronautic Association dos EUA, permitindo que o registro fosse posteriormente homologado pela FAI.

Embora eles não tenham sido os primeiros a baterem recordes de permanência no ar e também terem tido seu recorde batido muitas vezes depois, os irmãos Hunter são reconhecidos pelo conjunto de sua obra, como aviadores arrojados, que tiravam o fôlego do público nos shows aéreos da época.

Todos eles seguiram com sua paixão de voar. John e Kenneth morreram em acidentes de aviões enquanto pilotavam, em 1932 e 1974, respectivamente. Walter foi comandante da American Airlines e morreu em 1983, enquanto Albert voava apenas por diversão e morreu de outras causas em 1942.

De uma história como essa é possível tirar algumas lições, uma delas é que, na vida muitas vezes precisamos construir ou consertar o avião enquanto ele está voando. Às vezes é arriscado, mas o voo vai entrar para a história. Assista a um vídeo desses grandes aviadores após o pouso do voo recordista (espere carregar).

Carlos Roman
Managing Director - MBA em Finanças pela FGV-SP, estudioso de temas relacionados com a aviação e marketing aeronáutico há duas décadas. Grande vivência internacional e larga experiência em Data Analytics.

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