Herói do Rio Hudson, Sully comenta acidente do Boeing 737 MAX

O comandante Chesley Burnett Sullenberger III, ou simplesmente Sully, conhecido por ter feito o pouso na água com o Airbus A320 da US Airways no acidente do Rio Hudson, deu sua opinião sobre os acidentes com o Boeing 737 MAX.

© Acervo Pessoal

Sully começou a sua carreira da Força Aérea Americana (USAF) onde chegou a pilotar caças F-4 Phantom II. Após a saída da USAF foi para a aérea californiana PSA, que depois foi absorvida pela US Air (posteriormente renomeada para a US Airways). Foram 40 anos de carreira e 20 mil horas de voo até o acidente no Hudson, onde decidiu aposentar.

A sua opinião sobre o acidente do 737 MAX gira novamente sobre possível falta de treinamento e como aumentar os mínimos para pilotos poderia trazer maior segurança. E é também aí que “surgiu” o anti-herói Sully: muitos pilotos, principalmente em formação ou que voam em regionais não gostam do Sully por defender o mínimo de 1500 horas de voo para um piloto ingressar numa aérea.

Mas antes, veja abaixo a sua postagem traduzida e em seguinte o original do seu Facebook:

Não sabemos ainda o que causou o acidente trágico do voo Ethiopian 302 que ceifou a vida de todos os seus passageiros e tripulações, apesar de que existem diversas similaridades entre este voo e o Lion Air 610, o qual o design do Boeing 737 MAX 8 foi um fator. Tem ficado óbvio depois do acidente da Lion Air que um redesenho no MAX é uma necessidade urgente, porém ainda não foi feito, e o anúncio das correções ainda não é o suficiente.
Eu tenho confiança que a tripulação da Ethiopian tentou e fez de tudo que podiam para evitar o acidente. Foi reportado que o primeiro-oficial (copiloto) neste voo tinha apenas 200 horas de voo, uma pequena fração do mínimo nos EUA e absurdamente baixo para alguém estar no cockpit de um jato de linha aérea.
Não sabemos ainda quais as dificuldades que os pilotos enfrentarem e o que seria possível para eles fazerem, porém qualquer um que é confiado a vida de passageiros e tripulação por ser piloto de um avião de linha aérea deve contar com conhecimento, habilidades, experiência e julgamento para conseguir administrar uma situação não esperada e ser um mestre sobre o avião e todos seus sistemas e a situação em si. Uma tripulação técnica deve ser formado por um time de especialistas, não por um comandante e um aprendiz.
Em situações de emergências extremas, quando não existe tempo para discussão ou para que o comandante aponte cada ação para o primeiro-oficial, os pilotos devem ser de maneira intuitiva o que fazer para trabalharem juntos. Devem ser capaz para trabalharem sem falar algo.
Alguém com apenas 200 horas não saberia fazer isso e nem como. Alguém com pouca experiência apenas voou com supervisão próxima, em um ambiente estéril, sem desafios, que oferece uma operação ambígua do mundo real e provavelmente nunca enfrentou um problema sério na aeronave e que apenas viu apenas uma vez cada estação do ano, uma primavera com vento de través e um verão com tempestades.
Se ele tivesse aprendido em voar apenas em tempo bom, provavelmente nunca voou dentro de uma nuvem.
As companhias aéreas tem a obrigação de não colocar os seus pilotos nessa posição de grande responsabilidade antes de eles estarem totalmente prontos. Apesar de não sabermos qual posição, se algum piloto experimentou estar na situação da tragédia recente, deve ser uma prioridade em cada companhia aérea. Todo mundo que voa depende disso.

Críticas

Apesar de toda a boa fama de Sully, ele foi novamente criticado. A posição de manter o limite de 1500 horas para ingressa em aéreas defendido por Sully criou uma disparidade imensa no mercado: pilotos não conseguem emprego ao formarem com 250 horas e aéreas não tem pilotos suficientes.

Entre as 250 e as 1500 maioria absoluta dos pilotos trabalha como instrutor de voo voando exatamente com as mesmas aeronaves e condições de sua formação. Para muitos esta experiencia por mais que significativa em números não muda tanto o profissional por manter a mesma rotina da formação.

Na postagem do Facebook não foi diferente. O piloto Greg Kelly que atualmente voa no Oriente Médio afirmou que a regra de 1500 não tem muita diferença. “O fato continua que maioria do mundo recruta pilotos com 200 horas e tem históricos de segurança excepcionais devido a sua boa qualidade no treinamento e voltada para padrões profissionais”.

Já Hanna Debela comentou que “o comandante tinha mais de 8100 horas de voo. O mundo todo sabe que o 737 MAX 8 tem problemas no design, por favor não tente esconder isso”. Já Hans Baldwin que pilota Airbus no Vietnã lembrou que “existem muitas pessoas no mundo com pouco mais de 200 horas voando aviões militares com capacidade nuclear. Se o treinamento é bom, então não é o problema”.

No Brasil a GOL Linhas Aéreas que possui o 737 MAX 8 no seu último recrutamento estava exigindo 500 horas de voo totais (a maior exigência do mercado). Porém no recrutamento interno o mínimo de horas era o exigido pela ANAC: 150 horas. Existem diversos pilotos brasileiros com menos de 200 horas e voando em aéreas aqui, sem nenhum incidente ou acidente. Prova disso é que muitos deles sucederam e voar no exterior comandando o maior avião do mundo. E o Brasil tem menos acidentes que os EUA.

O mesmo se repete na Europa onde o piloto mais jovem do mundo foi contratado aos 19 anos e com 280 horas de voo. Para muitos Sully defende essa posição por ser americano (assim como a Boeing que fabrica o MAX) e por não ter passado pela problema de ser contratado ao sair da vida militar, já que possuía milhares de horas de voo e mesmo se na época valesse a regra atual, o exigido para veteranos é de 800 horas, não 1500. O próprio Sully estava voando o principal caça dos EUA na época com menos de 500 horas de voo totais.

Carlos Martins

Despertou a paixão pela aviação em 1999 em um show da Esquadrilha da Fumaça. Atualmente é Piloto Comercial, Despachante, Bacharel em Ciências Aeronáuticas, membro da AOPA e veterano da Western Michigan University #GoBroncos