Incidente em que avião atingiu pessoa ao pousar em Saint Barth tem análise concluída

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O BEA (escritório de investigação e análise para segurança da aviação civil da França) divulgou nesta semana seu relatório final sobre uma ocorrência registrada na famosa aproximação do aeroporto Saint Barth, em que uma aeronave atingiu uma pessoa que estava no local fotografando.

Embora o relatório final tenha sido emitido apenas agora, o caso com o avião DHC-6 Twin Otter já é bastante conhecido, pois aconteceu em 2014 e até foi registrado em vídeo. Veja a seguir a gravação do momento:

Como tudo aconteceu

Segundo o relatório do BEA, a tripulação operava um voo regular entre o Aeroporto Internacional Princesa Juliana, na ilha de Saint-Martin, e o aeródromo da ilha francesa de Saint-Barthélemy, no Caribe. O comandante era o piloto de voo (PF – Pilot Flying).

Durante a aproximação visual final da pista 10 do aeródromo de Saint-Barthélemy, a tripulação sentiu um choque ao passar pela ‘Col de la Tourmente’ (Passagem da Tormenta), a passagem na montanha que fica no alinhamento da pista, caracterizada por uma espécie de sela entre duas elevações.

Após o pouso, ao chegar ao pátio do aeroporto, o piloto comunicou ao controlador sobre o choque. A tripulação foi informada de que atingiu uma pessoa que observava a aeronave.

Informações adicionais levantadas pela investigação

O comandante indicou que fez a aproximação final para a pista 10 com vento de 090° com 9 nós, variando de 050° a 150°. A aeronave estava na configuração correta de pouso. Passando pela Col de la Tourmente, ele ouviu um barulho, mas declarou não ter visto nenhum pedestre na passagem durante a aproximação.

A companhia aérea Winair indica no seu manual de operações que o aeródromo de Saint-Barthélemy é um aeródromo com procedimentos específicos. A empresa descreve um procedimento de aproximação para a pista 10, especificando a altitude e a configuração da aeronave esperada ao passar verticalmente por vários pontos característicos.

Trecho do manual de operações:

“Em Gras Ilhotas, defina flaps totalmente abaixados e ajuste as hélices. Não desça abaixo de 500 pés com vento leste-norte. Com vento sudeste, uma descida para 400 pés é permitida. Atravesse a sela entre as duas colinas e prossiga com um pouso normal. Com ventos de sudeste, espere correntes ascendentes violentas e, às vezes, correntes descendentes na final. Também espere um vento de cauda logo acima da sela. A aeronave tem tendência a flutuar. Com o vento do norte, espere correntes descendentes violentas e, às vezes, correntes ascendentes com rajadas de vento repentinas.”

Informações sobre o aeródromo e seu ambiente

O aeródromo de Saint-Barthélemy é um aeródromo de categoria D de uso restrito. Uma instrução define que o aeródromo é reservado para aeronaves com características e desempenho apropriados, incluindo o DHC-6 Twin Otter, bem como pilotos reconhecidos como aptos por um piloto instrutor autorizado.

De acordo com esta instrução, a autorização de acesso está condicionada a um programa de treino teórico-prático que inclui pousos, decolagens e aproximações perdidas em duplo comando nos dois sentidos da pista.

O aeródromo possui pista pavimentada com cabeceiras 10/28, com 650 metros de comprimento e largura de 18 metros. A pista 10 tem uma inclinação descendente de 2%. Durante a aproximação à pista 10, a 150 metros da cabeceira, as aeronaves geralmente sobrevoam a menos de dez metros de altura a ‘Col de la Tourmente’. Veja exemplos no vídeo a seguir:

A passagem está dentro da área do aeródromo. Uma estrada passa por essa passagem; pedestres e veículos podem usá-la livremente. Para uso de motoristas e pedestres, há placas proibindo o estacionamento na direção do centro da pista, bem como o acesso à área reservada do aeródromo abaixo da passagem.

Apesar da proibição, dada a natureza espetacular deste cenário, as pessoas regularmente se posicionam na ‘Col de la Tourmente’ na linha central da pista 10 para observar aeronaves na final.

Na data do incidente, pessoas estavam posicionadas:

– No lado oeste da estrada (acima do caminho da estrada), em uma elevação rochosa (onde estava o homem atingido); e
– No lado leste (lado do aeródromo), diretamente na margem da estrada.

Desde o incidente, um muro foi construído para impedir o acesso à elevação rochosa e uma cerca perimetral foi instalada para impedir fisicamente o acesso à área reservada do aeródromo. Em relação ao risco de colisão com veículo circulando na via de passagem, não há estudo de segurança.

O operador do aeródromo indica que a movimentação de veículos “sobredimensionados” é objeto de coordenação entre as empresas, os serviços técnicos da comunidade e o aeroporto. Se necessário, a passagem de tal veículo é organizada fora do horário de funcionamento do aeródromo.

Além disso, no caso de detecção inesperada de um veículo que represente um risco para a aeronave, os oficiais do AFIS (serviço de informação de voo) podem notificar os pilotos e suspender temporariamente as operações de voo.

Nota dos investigadores: na data de publicação do relatório, o AIP (manual de informações sobre a operação aeronáutica) relativo ao aeródromo de Saint-Barthélemy lista os “perigos da navegação aérea” citando os riscos relativos ao relevo e turbulência durante as aproximações às pistas 10 e 28, a possível presença de pedestres na praia próxima à cabeceira 28 ou mesmo de veleiros na baía. Não há menção aos riscos associados à presença de obstáculos em movimento (pedestres ou veículos) na ‘Col de la Tourmente’ durante as aproximações na pista 10.

Em geral, os pilotos devem manter uma separação visual de qualquer obstáculo durante esta aproximação. Nos últimos anos, entre os acidentes em Saint-Barthélemy, o BEA registrou apenas um outro possível incidente grave ou acidente relacionado à passagem na ‘Col de la Tourmente’ a baixa altura por uma aeronave em aproximação para a pista 10.

Em 2016, um agente do AFIS teve sua atenção atraída para uma aproximação muito baixa de um Pilatus PC-12. Depois que a aeronave pousou e os passageiros desembarcaram, ele viu o piloto inspecionar o avião e caminhar até a ‘Col de la Tourmente’. No retorno, o piloto decolou novamente sem relatar nenhum incidente.

Durante a vistoria solicitada pelo agente do AFIS, logo em seguida, os bombeiros observaram danos em uma placa de trânsito na passagem.

Além disso, em 4 de janeiro de 2013, o instrutor no comando do Cessna 172 registrado sob a matrícula F-OPLC perdeu o controle do avião durante uma arremetida iniciada devido à forte turbulência ao se aproximar da ‘Col de la Tourmente’.

Os outros acidentes de decolagem ou aterrissagem em Saint-Barthélemy consistem, em particular, em excursões na pista de pouso nas pistas 10 e 28, pousos próximos à cabeceira na pista 28 ou colisão na decolagem com um pedestre posicionado na praia localizada no prolongamento imediato da pista 10.

Informações sobre o homem

O pedestre é um fotógrafo profissional. Disse que se encontrava na ‘Col de la Tourmente’, à beira da estrada, e que não viu nenhuma placa que o proibisse de permanecer naquela zona.

Ele estava tirando fotos da aeronave na aproximação final. Segundo ele, o avião atingiu e destruiu sua câmera e ele próprio foi jogado ao chão. Depois de ser rapidamente atendido pelos serviços de emergência e levado ao hospital para novos exames, saiu sem diagnosticar qualquer lesão.

Segundo os investigadores, é provável que ele tenha sido derrubado ao solo pelo deslocamento de ar da aeronave.

Conclusões

O relatório conclui que o grave incidente é resultado da passagem da aeronave a baixa altura na ‘Col de la Tourmente’ durante uma aproximação final visual para a pista 10, bem como da presença do pedestre no eixo da aproximação, ainda que marcada como uma área de risco.

A trajetória anormalmente baixa da aeronave pode ser resultado de uma avaliação incorreta da altura por parte do piloto, de uma desestabilização ligada à turbulência usual ali, ou mesmo da combinação desses dois fatores.

A investigação não conseguiu determinar se o pedestre tinha consciência do perigo que corria, apesar dos sinais instalados para o efeito.

Além do risco de ferimentos a terceiros no solo, este grave incidente ilustra os riscos dessa aproximação específica no que diz respeito à altura de passagem por obstáculos fixos ou móveis. Evitá-los depende essencialmente do gerenciamento da trajetória vertical pelos pilotos durante uma fase de pilotagem extremamente complexa.

Os riscos específicos desta aproximação devem ser vistos à luz da importância que o aeródromo representa para a atividade econômica da ilha e, de um modo mais geral, para a sua acessibilidade. As autoridades competentes têm implementado medidas de mitigação de riscos através de restrições de acesso, cujas condições prescritas exigem formação específica das tripulações, nomeadamente no transporte comercial.

Observação: existe uma câmera que transmite ao vivo, 24 horas por dia, a aproximação de Saint Bath na ‘Col de La Tourmente’. Confira a seguir:

Murilo Bassetohttp://www.aeroin.net
Formado em Engenharia Mecânica e Pós-Graduando em Engenharia de Manutenção Aeronáutica, possui mais de 6 anos de experiência na área controle técnico de manutenção aeronáutica.

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