Incidente grave na França se assemelhou ao voo ‘AF-447’ e quase teve fim trágico

Confusão na cabine e copiloto paralisado pela ansiedade levaram à um incidente grave num voo na França, que poderia ter terminado de forma similar à trágica queda do voo Air France 447.

Essas afirmações acima foram feitas pelos investigadores da BEA – Bureau d’Enquêtes et d’Analyses pour la Sécurité de l’Aviation Civile, ou Escritório de Investigação e Análise de Segurança da Aviação Civil. O órgão é responsável pela investigação de incidentes e acidentes aéreos na França, envolvendo aeronaves fabricadas lá ou das suas empresas nacionais. O seu equivalente no Brasil é o CENIPA.

No relatório final do voo 711 da empresa francesa French Bee, de São Francisco para Paris, no dia 4 de fevereiro de 2020, foram identificadas diversas falhas da tripulação do Airbus A350-900 matriculado F-HREV.

Como foi

A aeronave se aproximava para pouso na pista 25 do Aeroporto de Orly, quando recebeu um alarme de tesoura de vento (wind-shear), um fenômeno perigoso e que deve ser evitado sempre que possível. Apesar do tempo bom no local, o comandante, seguindo o procedimento, ordenou uma arremetida ao copiloto, que estava pilotando a aeronave manualmente no momento.

O copiloto então aplicou potência máxima e puxou o “manche” da aeronave, fazendo com que o avião subisse, dentro do esperado para a manobra de arremetida. Logo depois, o comandante ordenou um modo de “arremetida branda”, em que menos potência é aplicada ao motor, para uma subida mais leve. Mesmo assim o copiloto continuou com uma subida íngreme de 8º, apesar de ter reduzido a potência aplicada.

A torre de controle ordenou que o avião subisse a 2 mil pés de altitude, para seguir o procedimento de aproximação perdida. Porém, o copiloto não reagiu ao comando da torre, e continuou subindo com a razão de 1.800 pés por minuto (8º de ângulo).

O comandante também avisou sobre a altitude ordenada de 2 mil pés, mas o copiloto nada fez e a aeronave continuou subindo, inclusive dando o alarme de ultrapassagem da altitude selecionada.

No final, o copiloto só nivelou a aeronave quando ela cruzou 2.800 pés. As instruções da torre também incluíam uma curva à esquerda na proa 180 (rumo Sul), o que não foi feito pelo piloto, fazendo com que o avião sobrevoasse, literalmente, a torre de controle do Aeroporto Orly.

Finalmente, o comandante tomou o controle da aeronave, apenas 1 minuto e 20 segundos após a ordem de arremetida dada por ele. No entanto, outro membro da tripulação, que a BEA acredita ser o próprio copiloto, acionou os freios aerodinâmicos sem avisar.

Estes freios são “placas” que se levantam nas asas, gerando grande arrasto e reduzindo a velocidade da aeronave. Nesta atuação dos freios aerodinâmicos, o velocímetro digital do avião avisa que a velocidade de estol (perda de sustentação) subiu de 166 nós para 188 nós, já que o arrasto aumentou.

Com isso, o comandante acionou o piloto automático que fez com que o avião iniciasse a descida para 2.000 pés, mas, ainda assim, a aeronave chegou a atingir 175 nós, dando um alerta de baixa velocidade e pré-estol (perda de sustentação).

Nesse momento, outro alerta foi gerado pelo TCAS (alerta de proximidade) já que um avião da Air France, decolando de outra pista, chegou a ficar 3 km próximo do A350. O comandante então acelerou a aeronave e estabilizou o jato à 2.000 pés, fazendo a curva para o rumo 180º conforme instruído.

A investigação também mostrou que havia outra pessoa na cabine, um terceiro piloto que fez o revezamento da longa jornada de São Francisco até Paris. Esse terceiro piloto avisou aos outros dois que seria melhor ligar o piloto automático, mas o copiloto ficou apertando o botão do piloto automático sem coordenar com o comandante, que, por sua vez, ao mexer no “manche”, desacoplava o modo automático.

Irritado com a situação, o comandante falou alto na cabine: “todos quietos, eu sou o único dando ordens aqui”. Neste meio tempo o avião acabou descendo para 1.550 pés, abaixo da altitude selecionada, disparando outro alarme.

Novamente, o piloto automático foi desligado e religado, para então, finalmente, seguir o perfil da arremetida e realizar outro pouso na pista 25, desta vez com sucesso.

O BEA destacou que o copiloto ficou paralisado após o primeiro alarme de Wind-Shear, e o comandante não tomou atitude necessária no caso de um tripulante estar incapacitado. Quando a atitude de voo foi retomada, ele acabou se sobrecarregando e cometendo outras falhas.

Segundo os investigadores, este caso teve vários elementos em comum com o voo AF447, do Rio para Paris, onde a aeronave perdeu sustentação devido a uma confusão na cabine causada por uma medição errada dos instrumentos.

Dentre as recomendações feitas pelo BEA, estão o reforço no treinamento de situações-surpresa, como foi o caso de Wind-Shear em condições de tempo boas, ou mesmo de falha de instrumento de velocidade, que foi o que aconteceu no caso do voo da Air France.

Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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