Indonésia divulga relatório do acidente do 737 MAX, que pode atrasar mais o retorno do modelo

A Boeing, agindo sem a supervisão adequada dos órgãos reguladores dos EUA, não conseguiu captar riscos no design do software de comando de seu avião 737 MAX, lançando as sementes do acidente da Lion Air, que também envolveu erros dos funcionários e tripulantes das companhias aéreas, informam os investigadores indonésios no relatório final.

Avião Boeing 737 MAX Lion Air
737 MAX da Lion Air – Imagem: Huy Do

O acidente fatal, seguido por menos de cinco meses por outro na Ethiopian Airlines, levou ao aterramento global do Boeing 737 MAX, que já dura 8 meses, e a uma crise da maior fabricante de aviões do mundo, que nesta semana trocou seu chefe da divisão de aviões comerciais.

Em seu relatório final sobre o acidente da Lion Air que matou todas as 189 pessoas a bordo em 29 de outubro de 2018, a Indonésia fez recomendações à Boeing, à companhia aérea, à Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) e a outras agências.

Segundo informou a Reuters, que teve acesso antecipado ao relatório, o mesmo deve ser divulgado publicamente ainda nesta sexta-feira (25) ou no sábado, disse um investigador.

Críticas à Boeing

A Reuters afirma que os reguladores indonésios criticam o design do sistema de controle conhecido como MCAS, que automaticamente empurrou o nariz do avião para baixo, deixando os pilotos lutando pelo controle.

“O projeto e a certificação do MCAS não consideraram adequadamente a probabilidade de perda de controle da aeronave”, afirma o relatório.

Avião Boeing 737 MAX 8
Primeira decolagem do 737 MAX-8

O relatório também diz que “deficiências” na comunicação da tripulação e nas ações de controle manual da aeronave contribuíam para o acidente, assim como alertas e distrações no cockpit.

Outros fatores

O acidente foi causado por uma complexa cadeia de eventos, disse o investigador indonésio Nurcahyo Utomo a repórteres em uma entrevista coletiva, recusando-se repetidamente a definir uma única causa dominante.

“Pelo que avaliamos, há nove fatores que contribuíram para esse acidente”, disse ele. “Se um dos nove não tivesse ocorrido, talvez o acidente não tivesse ocorrido.”

Durante o voo, o primeiro oficial (co-piloto) não conseguiu identificar rapidamente uma lista de verificação em um manual ou executar tarefas que ele deveria ter memorizado, e ele também teve um desempenho ruim nos exercícios de treinamento.

O comandante não informou adequadamente o primeiro oficial quando entregou o controle pouco antes do avião entrar em um mergulho fatal, também disse o investigador.

O relatório observou que, de acordo com o gravador de voz do cockpit, o primeiro oficial disse ao comandante que o voo não estava em sua escala inicial e ele foi chamado às 4 da manhã para ser informado sobre a mudança, enquanto o comandante disse que estava gripado.

O relatório também aponta que um sensor de ângulo de ataque crítico (AOA) que fornece dados ao sistema MCAS foi mal calibrado por uma empresa na Flórida, e que havia fortes indícios de que ele não foi testado durante a instalação pela equipe de manutenção da Lion Air.

A Lion Air deveria ter tirado o jato de operação após falhas em voos anteriores, e 31 páginas estavam faltando nos registros de manutenção da companhia aérea em outubro de 2018.

A Boeing afirmou em comunicado que estava atendendo às recomendações de segurança da Indonésia e tomando medidas para melhorar a segurança do 737 MAX.

A FAA disse que acolheu com satisfação as recomendações do relatório e as consideraria cuidadosamente, enquanto continua analisando as alterações propostas pela Boeing ao 737 MAX.

Confiança

Apesar de toda a crise, a Southwest Airlines, maior operadora mundial da família 737, segue confiante de que o MAX é o melhor avião existente na categoria:

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.

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