Início Acidentes e Incidentes Jornalista questiona papel do governo em voo sequestrado em 1990

Jornalista questiona papel do governo em voo sequestrado em 1990

Boeing 747-136 da British Airways, sequestrado em 1990. IMAGEM: Tim Rees/Wkimedia

O jornalista Stephen Davis, dos Estados Unidos, lança nas próximas semanas um livro em que detalha fatos que podem fortalecer uma antiga suspeita até agora considerada apenas teoria da conspiração: a de que a British Airways e até mesmo o governo britânico podem não ter revelado tudo o que sabem no caso do sequestro do voo BA-149 em 1990.

Em 2 de agosto de 1990, um Boeing 747 da British Airways foi invadido por tropas iraquianas logo após pousar no Aeroporto Sultan Abdul Aziz Shah, no Kuwait. Naquele dia, as tropas de Saddam Hussein, ditador do Iraque, invadia o país vizinho, dando início à 1ª Guerra do Golfo. A tomada da aeronave estava entre os primeiros atos de agressão contra europeus, o que provocou imediata reação internacional, embora passageiros e tripulantes ainda permaneceriam em cativeiro por cinco meses.

O caso agora é detalhado no livro “Flight 149 – A Hostage Crisis, a Secret Special Forces Unit, and the Origins of the Gulf War” (ou “Voo 149 – Uma crise de reféns, uma unidade secreta de forças especiais e as origens da Guerra do Golfo”), que Davis lança na Inglaterra no início de setembro e sem previsão de lançamento em português.

Ao jornal britânico Daily Mail, o autor resumiu alguns dos principais pontos curiosos da história.

Sem alerta

O jumbo G-AWND decolou de Londres com destino a Kuala Lumpur, na Malásia, em 1 de agosto de 1990. A rota previa paradas na Índia e no Kuwait, país árabe que estava sendo ameaçado pelo vizinho Iraque. No entanto, nenhuma restrição no espaço aéreo da região havia sido divulgada e os aeroportos funcionavam normalmente. Diante da tensão crescente, o piloto, Clive Earthy, fez questão de anunciar a todos a bordo que ‘era seguro voar para o Kuwait’ e que, se houvesse algum problema, o voo seria desviado.

Após todos os passageiros estarem embarcados, um pequeno grupo de retardatários chamou a atenção dos tripulantes. Um membro de alto escalão da família real kuwaitiana, seguido por nove ou dez jovens atléticos e de porte militar entraram silenciosamente e sentaram-se nos seus assentos. Um deles apresentou passaporte diplomático e a documentação do grupo.

O voo partiu às 19h04. No caminho, o piloto mantinha contato com colegas que faziam a rota contrária, que confirmavam que não havia qualquer problema no Kuwait até o momento. Nesse ponto, a história começa ganhar contornos obscuros. Quando o 747 se aproximou do aeroporto kuwaitiano, todos os outros voos com o mesmo destino estavam sendo desviados e sua aproximação negada. Nenhum controlador de voo ou piloto passou essa informação ao avião britânico.

Às 4h13, o voo 149 da BA pousou na Cidade do Kuwait. Naquele momento, as tropas iraquianas já haviam invadido o país e tomado a capital com tanques e armamento de guerra. O aeroporto estava sitiado. Antes mesmo de sair da pista, o jumbo foi cercado. Todos os 368 passageiros e 17 tripulantes foram detidos e feitos reféns.

O ditador iraquiano Saddam Hussein exibiu em transmissão de TV o pequeno Stuart Lockwood, de apenas cinco anos, sequestrado junto com os pais, todos passageiros do voo 149. IMAGEM: Daily Mail

Mais perguntas que respostas

O que Stephen Davis relata em seu livro é que a primeira-ministra do Reino Unido à época, Margaret Thatcher, estava muito preocupada com a possibilidade de Saddam Hussein se apossar dos campos de petróleo do oriente médio, sobretudo na Arábia Saudita, maior produtor do mundo e vital para a economia mundial. Segundo Davis, ela cogitava até o uso de armamento nuclear se isso acontecesse.

Ciente que já era tarde demais para impedir a invasão do Kuwait, Thatcher teria enviado ao país um grupo de homens escolhidos a dedo – alguns militares e outros empregados do governo. A ideia é que eles chegassem antes do ataque iraquiano e se juntassem a uma rede de resistência kuwaitiana e informassem sobre os movimentos de tropas, depósitos de suprimentos de combustível e depósitos de armazenamento militar e direcionasse ataques aéreos para destruí-los.

Discussões detalhadas ocorreram sobre a melhor maneira de colocar a equipe no Kuwait. Tinha que ser rápido e confiável, além de evitar travessias de fronteira e postos de controle.

Teria sido então decidido voar direto para o Kuwait em um voo civil comum. A escolha foi o voo 149 da BA. Mas não deu certo. Logo após o pouso, o avião foi cercado, invadido, e todos a bordo levados para hotéis. Era o início de uma jornada de cinco meses de negociações, ameaças, trocas de cativeiro e demonstrações midiáticas. Muitos sofreram, posteriormente, de estresse pós-traumático.

Após a libertação, em 6 de dezembro, muitas dúvidas ficaram no ar. Alguém denunciou a presença de militares britânicos a bordo? Por que o voo 149 teve permissão para pousar quando uma invasão estava chegando? Quais eram os verdadeiros objetivos de Saddam Hussein? Por qual motivo o 747 foi destruído por caças americanos logo após incidente?

Até hoje essas perguntas ainda não foram respondidas, o que levantou uma série de teorias (algumas conspiratórias), que ganham um novo fôlego agora com a publicação do livro.

O jumbo G-AWND destruído a mando do governo britânico, após libertação dos reféns. IMAGEM: U.S. DoD/Wikimedia
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