Latam Argentina tem primeiro voo com avião chileno e sindicato protesta

Às 9 horas e 34 minutos da noite desta segunda-feira (23), o voo LA7820 da LATAM Argentina decolou do Aeroporto Internacional de Buenos Aires com destino a Miami. Seria mais um voo regular, exceto por um pequeno detalhe: ele foi operado pelo Boeing 767-300ER de matrícula chilena, CC-CXC. Foi o que bastou para que o sindicato ameaçasse promover o caos para a aviação argentina.

Acordo de Interchange e pressões

O voo 7820 marcou a estreia do controverso acordo de Interchange, que permite à subsidiária argentina do Grupo Latam operar com aeronaves registradas no Chile, imitando uma modalidade presente em outros países para otimizar o uso da frota de longo alcance do grupo. Vale ressaltar que, apesar da aeronave estrangeira, a tripulação foi totalmente argentina.

Por mais de dois anos, a Latam Argentina ficou de fora desse acordo do grupo por pressões dos sindicatos locais. Os dois Boeing 767 da subsidiária argentina são mais antigos – LV-IQW (antigo PT-MOG no Brasil) e o LV-ZYV com 21 anos de idade cada – e não possuem o equipamento ADS-B, exigido pelo governo dos EUA a partir de 1º de janeiro de 2020 em todas as aeronaves que voarem de e para lá.

No entanto, não seria viável para a Latam parar os aviões para instalar o equipamento, o que comprometeria a operação da rota neste período e registrar mais aviões na Argentina não era parte do plano de frota.

Então, o que a LATAM propôs foi operar esta rota com Boeings de matrícula chilena ou até brasileira, que já estão equipados com ADS-B, porém mantendo a tripulação, mecânicos e funcionários argentinos. Hoje isso não pode ser mudado devido a cláusula de sindicatos.

Com uma forte pressão contrária por quase um ano, a Latam passou a informar ao governo, à sua equipe e à opinião pública que, se não pudesse operar no modo Interchange, cancelaria a rota para Miami, afetando cerca de 200 trabalhos. Pressionado, o governo cedeu.

A Latam, por sua vez, comemorou e afirmou que a incorporação dessa nova regra implica o início de um verdadeiro marco no Plano de Sustentabilidade da empresa e reforça o compromisso da LATAM de unir o país e a região, com altos padrões de segurança, eficiência e qualidade de serviço. 

Sindicato acha que ameaça a sobreania

O sindicato não mudou de ideia. Bastou o avião decolar na segunda-feira para a APLA se opor fervorosamente à aplicação do Interchange, pois veem nela não apenas uma entrega de soberania, mas também a porta de entrada para a possibilidade de que, no futuro, voos com tripulações estrangeiras possam ser operados. Em suas redes sociais, os sindicalistas ameaçaram promover uma greve, bem como convocaram uma assembleia de urgência para definir os próximos passos.

Essa posição institucional da APLA fez com que seus membros da LATAM considerassem se separar do sindicato e abrir o seu próprio, repetindo assim a história que já aconteceu com os pilotos da Austral e o nascimento da UALA.

O plano de frota da Latam

Há vários anos, a companhia aérea criou um pool de nove 767 que gira entre suas diferentes subsidiárias para mantê-las no solo o tempo mais curto possível (enquanto que os de matrícula argentina eram obrigados a permanecer o dia todo em Miami). Assim, por exemplo, é comum ver o mesmo avião operando para a LATAM Argentina, LATAM Equador, LATAM Chile e LATAM Peru.

Carlos Ferreira

É profissional de marketing e pesquisador de temas relacionados à aviação há quase duas décadas. Leva a câmera fotográfica para onde vai e faz mais fotos de aviões do que dos passeios. Responsável pela linha editorial da revista eletrônica AEROIN.net.