Livro conta a história da Aeroflot por meio da publicidade no período soviético

IMAGEM: Divulgação FUEL Design & Publishing

Um livro recém-lançado usa imagens publicitárias para contar a história de uma das companhias aéreas mais antigas e icônicas do planeta. Por décadas, a Aeroflot simbolizou o orgulho soviético e, tal como o regime que a dirigia, usou a publicidade em escala industrial para ressaltar esse sentimento.

Aeroflot – Fly Soviet, reúne dezenas de pôsteres, fotografias promocionais, campanhas publicitárias e outras imagens dos quase 70 anos que a companhia operou dentro do regime soviético. Nascida em 1923, poucos anos depois da ascensão do comunismo na Rússia, em 1917, se tornou, em pouco tempo, orgulho nacional, e assim se manteve até queda do sistema político em 1991, para depois seguir como símbolo da nova Rússia.

A obra foi publicada pela editora britânica FUEL Design & Publishing e não há previsão de lançamento no Brasil. As imagens foram selecionadas pelo belga Bruno Vandermueren, piloto, engenheiro de aviação e entusiasta por aviões de todos os tipos e modelos. As artes de traços retos e duros, que mostram profissionais fortes, sérios e compenetrados, evidenciam como os soviéticos queriam ser vistos pelo mundo.

Desenhado por A Dobrov em 1983, este pôster de um piloto russo diz que a Aeroflot está 'abraçando o céu com braços fortes'.  Todas as imagens © Bruno Vandermueren / Fuel Publishing
Pôster desenhado por um artista russo em 1983. Personagens sérios e intimidadores. IMAGEM: The Guardian

A companhia valorizava o glamour de voar e o conforto a bordo. Passageiros felizes, comendo bem e fumando durante a viagem eram imagens corriqueiras. O emblema da Aeroflot aparecia em itens como maços de cigarros, isqueiros e caixas de fósforos. A publicidade anunciava novos destinos ou a chegada de aeronaves mais rápidas, modernas e confortáveis.

O uso da simbologia comunista e da cultura russa buscava valorizar o nacionalismo soviético. Já as mulheres, sempre jovens e sorridentes, traziam uma leveza convidativa para viajantes inexperientes. A coleção de imagens não é apenas uma viagem no tempo e da história da aviação, mas também uma reflexão sobre o funcionamento de uma das companhias mais misteriosas do mundo.

Uma capa de revista de 1962, desenhada por A Kirillova
Capa de uma revista soviética em 1962. Imagem: The Guardian

Orgulho nacional

Antes mesmo da guerra-fria, período de tensões crescentes entre Estados Unidos e União Soviética, quando o governo do país comunista buscava inúmeras formas de propagar um suposto sucesso do regime, a aviação já estava plenamente estabelecida no país. Logo após a revolução de 1917, Vladimir Lenin, o primeiro governante soviético, fez da aviação comercial uma prioridade. Já em 1921,uma parceria com o governo alemão criava a Deruluft, primeira ligação aérea entre os dois países.

A Aeroflot Soviet Airlines nasceu como Dobrolet em 1923, apenas três anos da holandesa KLM, pioneira mundial da aviação comercial de passageiros. O objetivo era oferecer uma conexão aérea doméstica entre as continentais distâncias soviéticas. Adotou o nome mais conhecido em 1932 e passou a operar viagens internacionais logo após a segunda guerra mundial.

Durante a guerra-fria, a companhia vivenciou seu período de maior sucesso, incentivada pela concorrência com europeus e norte-americanos e sempre sob mistério sobre a origem de recursos e conhecimento tecnológico.

Em 1956, a Aeroflot apresentou o segundo avião a jato do mundo a entrar em operação comercial, o Tupolev Tu-104. Na mesma década, apresentou o turbo-hélice Tupolev Tu-114, na época o maior avião de passageiros do mundo, com capacidade para transportar mais de 220 pessoas e 30 toneladas de carga.

Em 1975, anunciou o Tupolev Tu-144, o supersônico concorrente direto do franco-britânico Concorde. Foi a companhia aérea oficial dos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, tendo exclusividade na operação de um novo aeroporto em Moscou, construído especialmente para o evento esportivo. No auge, no fim dos anos 1980, chegou a operar mais 11 mil aeronaves, incluindo equipamentos executivos e militares, já que a companhia estatal era a única autorizada a qualquer operação aérea do país.

Os comissários de bordo desembarcam de um Tupolev Tu-104 no aeroporto de Vnukovo em Moscou, 1959. A imagem aparece na capa da revista Ogonek, uma das publicações semanais mais antigas da Rússia
Publicidade de 1959, veiculada em revista de grande tiragem. IMAGEM: The Guardian

Além da cortina de ferro

Apesar de concentrar mercado na zona de influência soviética, a Aeroflot voou para os cinco continentes, incluindo inimigos políticos como Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Espanha, além de Japão, China, Cuba e países da África, América do Sul e Caribe. Assistida por campanhas publicitárias de artistas renomados no regime comunista, como Alexander Rodchenko, a companhia se estabeleceu com símbolo nacional.

Com o fim da União Soviética, em 1991, as novas repúblicas independentes requisitaram aeronaves da Aeroflot para formar suas próprias companhias locais. A gigantesca frota passou a contar com poucas dezenas de aviões, sendo obrigada a abrir mercado para modelos fabricados fora da Rússia, notadamente Airbus e Boeing, algo inédito na história da empresa. A Aeroflot Soviet Airlines passou a se chamar Aeroflot Russian Airlines.

Hoje, voltou a ser um gigante global, mas ainda longe dos tempos áureos. Conta de pouco mais de 250 aeronaves e voa para mais de 100 países em todo mundo.

Com informações do The Guardian.

Arquivo: Tupolev Tu-114, Aeroflot AN2154384.jpg
Tupolev Tu-114, da Aeroflot, desativado na Base Aérea de Monino, próximo a Moscou, na Rússia. IMAGEM: Toshi Aoki/Wikimedia
Fabio Farias
Jornalista e curioso por natureza. Passou um terço da vida entre aeroportos e aviões. Segue a aviação e é seguido por ela.

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