O misterioso som de baleia que é emitido pelos motores do Embraer E2

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© AEROIN e Charmain Hurlbut

O novo Embraer E2 é um game-changer, mais econômico e polui menos, mas um ruído no mínimo estranho tem causado um mistério sobre o jato brasileiro.

A primeira vez que ouvi o barulho do jato foi quando estava no pátio com o Embraer E195-E2 da Azul acionando os seus motores. Em certo momento, ouço uma espécie de uivo, mas que mais lembrava o som que as baleias fazem. Olhei para onde meu ouvido apontava e vi que era emitido pelo E2.

Como ainda era a primeira semana de operação da aeronave, pensei que fosse algo relacionado como um produto novo, que sempre tem uns barulhinhos diferentes. Porém, na decolagem também ouvi a mesma coisa, e depois até quando estava na área externa do aeroporto, com outro E2 pousando.

Comentei com alguns colegas pilotos do equipamento e mecânicos. Todos também ouviam a “baleia cantar” (como o vídeo mostra abaixo), mas ninguém sabia de onde vinha.

Por um momento, achei que tal ruído fosse exclusivo da família de motores PW1000G, que tem um design totalmente diferente e equipa os jatos E2, além dos Airbus A220, A320neo, Irkut MC-21 e Mitsubishi Spacejet.

Lembrei-me que voei no A320neo da Lufthansa com motores PW e não tinha ouvido aquilo. Também não ouvi ao estar próximos dos A320neo da LATAM que tem o mesmo motor. Porém, voltei a escutar ao observar o A220 da Swiss e o E190-E2 da Helvetic em Zurique.

Airbus A220 decolando de Zurique

Logo, era algo relacionado ao PW1500G e 1900G que equipam, respectivamente, os A220 e os brasileiros E190 e E195 de segunda geração.

Em uma pesquisa pela internet, descobri que logo depois do início das operações regulares do A220 em Zurique, em 2018, os moradores reclamaram do som de baleia do novo jato. Com o passar do tempo, a situação só piorou, já que a Swiss recebeu mais A220 e a Helvetic começou a voar os E190-E2 pouco depois. Mas o mistério já havia surgido nas primeiras operações, como mostrou o portal Gate Checked.

Como nenhum colega de companhia aérea sabia responder, fui atrás dos amigos da Embraer, afinal, é a fabricante do avião e devem ter notado desde o primeiro dia que “tinha uma baleia dentro do motor”.

Conversamos com diversos engenheiros que trabalharam na empresa e após muito debate, e considerando que este som apenas ocorre quando o motor está em baixa rotação e é acelerado em seguida, surgiu o ponto de que o som estaria sendo gerado devido ao aumento da velocidade do vento ao passar entre o plug e a bucha de exaustão (Exhaust Plug e Exhaust Sleeve).

O plug é exatamente o cone que se afina e fica para fora do motor, já a bucha seria o metal que está em volta, ainda parte da carenagem do motor. Ambos trabalham juntos para direcionar o jato que dá a propulsão.

Avião Embraer E195-E2 Air Peace
Cone traseiro do E2 coberto por plástico – Imagem: Air Peace

Porém, o russo Irkut MC-21 tem praticamente o mesmo design na saída do motor, que não é tão diferente do A320neo, e ambos não têm esse som de baleia. E se fosse relacionado à velocidade do jato, o barulho deveria ser mais constante, inclusive durante toda a corrida de decolagem.

Falando com outros colegas da Embraer, alguns suspeitaram que o ruído está relacionado ao momento quando o combustível entra na câmara de combustão, principalmente em alta proporção “querosene x ar” (famosa mistura rica), mas também não teria sentido já que a mistura é enriquecida em outros momentos.

Sem uma resposta conclusiva, decidi perguntar oficialmente às fabricantes. A Embraer, até o momento do fechamento da reportagem, estava olhando o assunto e procurando uma resposta. Não muito diferente da Pratt & Whitney, que nos respondeu da seguinte forma:

“O som reportado acontece ocasionalmente durante o movimento da manete do motor em potência baixa. A Pratt & Whitney está ciente disto e trabalhando com autoridades aeroportuárias e com as operadoras e fabricantes para coletarem os dados necessários para identificar as possíveis soluções”, afirmou Jenny Dervin, Chefe de Comunicação da Pratt, ao AEROIN.

E190-E2 da Helvetic em Zurique

Ela também destacou que o avião já é bem silencioso, com ruído em torno de 75% menor quando comparado as gerações anteriores, e está de acordo com o Capítulo 4 da ICAO, que trata sobre ruídos de aeronaves. Tal barulho não tem nenhum impacto na segurança do voo.

Aeronaves que estejam apenas dentro dos limites estabelecidos nos capítulos 1, 2 e 3 não podem voar na maioria dos grandes aeroportos, por serem muito barulhentas. O sucessor do Chapter 4 é o 14, o qual o E2 acaba de ser certificado.

Tabela de ruídos da ICAO por EPNdB e massa máxima de decolagem, o E2 está no quadrado vermelho © ICAO

A ICAO utiliza uma medida chamada EPNdB, que significa “Ruído efetivamente percebido em decibéis”. No Chapter 4 o limite para é de +/- 275 EPNdB, já no 14 é reduzido para em torno de 265 EPNdb.

O novo jato Embraer E2 e seu concorrente Airbus A220 são realmente silenciosos, tornando-se apenas um pouco ruidosos quando “a baleia surge”. Mas o mistério continua: de onde surge o som da baleia? Se você tem alguma sugestão, envie para nós, pois o mistério não foi desvendado (ainda!).

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Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagens pela Avianca Brasil e Azul Linhas Aéreas. #GoBroncos #GoBeach #2A

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