Pesquisa alerta: ar do interior dos aviões contém partículas tóxicas vindas do motor

Aviões que pesam toneladas, cruzando o planeta a 40 mil pés de altitude, onde a atmosfera é tão rarefeita que não há ar suficiente para uma pessoa ficar consciente por mais do que alguns segundos, antes de desmaiar e seu cérebro morrer por falta de oxigênio. Então, como podemos respirar normalmente? De onde sai o ar do interior das aeronaves durante cada voo?

Bleed Air System Report Mainz
Composição gráfica da sangria de ar do motor para a cabine – Imagem: Report Mainz / Youtube

O fornecimento de ar ambiental nas aeronaves é dado por uma complexa tecnologia de sangria do fluxo de ar do motor, mas que, apesar de tecnológica, parece não ser livre de riscos à saúde, conforme revela uma pesquisa na Europa.

Vários têm sido os reportes e vídeos de fumaça a bordo em voos comerciais, e pilotos tendo suas habilidades motoras momentaneamente debilitadas por odores no cockpit.

A comissária Gabriele Ragheb sentiu na pele uma situação assim há 4 anos. Ela descreve: “Eu me senti como se não tivesse controle sobre meu corpo. Sentia uma pressão na região frontal da cabeça. Sentia como se não houve umidade nos meus olhos, e uma total perda de controle.”

Gabriele Ragheb Report Mainz
A comissária Gabriele Ragheb – Imagem: Report Mainz / Youtube

Mas não há nada pegando fogo nesses diversos casos de fumaça. São vapores de óleo vindos do motor.

Gabriele completa: “Minhas mãos estavam dormentes e formigadas, então percebi que algo estava muito errado ali. Estava realmente mal.”

Uma pesquisa conduzida na Alemanha revelou que têm ocorrido em média dois eventos de emissão de vapores a bordo por dia no país, mas a maioria deles não é divulgada publicamente. E o pior é que muito pouco se sabe sobre a toxidade do ar da cabine.

Mais de 750 tripulantes de linhas aéreas participaram da pesquisa. Surpreendente, 75% dos participantes afirmaram que já experimentaram um evento de fumaça. Centenas deles relataram sintomas de adoecimento que às vezes são graves.

Como os gases tóxicos entram na cabine?

Para especialistas em aeronaves, o design do sistema de ventilação é claramente o responsável pela contaminação do ar. O que muitos passageiros provavelmente não suspeitam é que o “ar fresco” da cabine é retirado dos motores. É o caso de quase todas as aeronaves de passageiros atuais.

No entanto, óleos lubrificantes nocivos são usados ​​nos motores. Quando os motores aquecem, esses óleos evaporam. Como não há filtros específicos para eles, os poluentes podem entrar livremente no sistema de ar condicionado.

Dieter Scholz Report Mainz
Professor Dieter Scholz – Imagem: Report Mainz / Youtube

O professor Dieter Scholz, da Universidade de Ciências Aplicadas de Hamburgo, explica: “Quando o óleo entra em contato com o ar quente do compressor, ele pirolisa ou queima, produzindo centenas de substâncias tóxicas. Isso não deveria ocorrer. De acordo com os regulamentos de aprovação da aviação, o ar deve estar livre de componentes perigosos”.

Mas, aparentemente, não está.

Sequelas da exposição

Comunidades de vítimas foram fundadas em todo o mundo, como em Nuremberg. Eles estão lutando para que as companhias aéreas reconheçam os danos à saúde resultantes de eventos de vapores tóxicos a bordo.

Günter Knorr, ex-comandante de linha aérea, fala sobre suas sequelas: “Eu não aguentava mais nada. Meu andar era vacilante e inseguro. Problemas de linguagem, problemas para buscar as palavras.”

Günter Knorr Report Mainz
Ex-comandante Günter Knorr – Imagem: Report Mainz / Youtube

Embora a tripulação de cabine geralmente esteja ciente dos perigos, é difícil para os passageiros associarem possíveis danos à saúde como tendo surgido em consequência de um incidente a bordo. Infelizmente, os sintomas surgem meses ou anos depois e ninguém pode relacioná-los ao evento.

O interior do sistema de ventilação

Em uma empresa britânica que desmonta aviões de passageiros, dutos do sistema de ventilação foram desmontados para uma verificação de seu interior. O resultado? Os tubos estavam negros de fuligem por dentro.

Duto Ar Fuligem Óleo Motor Report Mainz
Duto de ar com fuligem de óleo queimado – Imagem: Report Mainz / Youtube

O professor Scholz comenta: “Isso também deixa claro que você nunca pode limpar algo assim. Porque o local não é acessível sem desmontagem”. O que significa que os poluentes permanecem na ventilação. E isso se estende por diversos outros pontos dos tubos de ventilação, completamente sujos e muitos até mesmo cobertos com uma película de óleo preto.

E o que diz a Agência Europeia para a Segurança da Aviação responsável, quando questionada no estudo?

“Pesquisas anteriores […] mostraram que a qualidade do ar em aviões […] é semelhante ou melhor que a de interiores normais. […] Não temos conhecimento de algo que justificasse alterações no projeto.”

Análises mostram o contrário

Antonietta Gatti Report Mainz
Doutora Antonietta Gatti – Imagem: Report Mainz / Youtube

Em um laboratório em Modena, na Itália, a Doutora Antonietta Gatti examinou os óleos de aeronaves e os comparou com amostras de tecido colhidas de tripulantes. Usando um novo processo de microscopia, ela demonstrou que os poluentes da cabine são provenientes dos motores. E essas partículas de metal são tão pequenas que podem penetrar profundamente no corpo.

Um corpo estranho encontrado no cérebro foi avaliado, e concluiu-se que era feito de titânio, ferro e alumínio. “A poluição é liberada dentro da aeronave, especialmente no cockpit. Se os pilotos respirarem, ela poderá levar a reações tóxicas, especialmente danos ao cérebro”, afirma a pesquisadora.

Tentativa de solução, ao menos provisória

O especialista em aviação Markus Tressel vem lidando com o problema há anos e está pedindo às autoridades que finalmente tomem medidas: “O que se pode fazer de imediato é recomendar sistemas de filtro na aeronave. E, a longo prazo, é necessário abrir mão do uso de sistemas de sangria do motor”.

A propósito, um representante da equipe da Lufthansa está atualmente pedindo máscaras respiratórias para todas as tripulações. As autoridades e os fabricantes não veem necessidade de ação para os passageiros.

A Lufthansa não comentou se pretende usar máscaras de proteção para evitar as consequências para a saúde de eventos de vapores para o pessoal de bordo. Segundo a companhia aérea, o ar nos aviões é “seguro e às vezes até melhor do que nos escritórios”. No entanto, novos estudos sobre o assunto estão sendo planejados.

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.