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Piloto e avião de Gabriel Diniz não podiam voar por instrumentos, revela CENIPA

O CENIPA divulgou hoje, 30 de outubro, o relatório final do acidente envolvendo o cantor Gabriel Diniz, que faleceu após uma queda de avião no ano passado.

O acidente aconteceu em 27 de maio de 2019, quando o cantor fazia um voo de Salvador para Aracaju a bordo de um Piper PA-28 Cherokee, mesmo modelo da foto acima. A aeronave foi encontrada acidentada a 30 milhas náuticas (55 km) do Aeroporto de Aracaju. O piloto, o cantor e um outra pessoa foram encontrados já sem vida.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) investigou e concluiu que o piloto em comando tinha apenas a licença de Piloto Privado e não possuía a habilitação de voos por instrumento (IFR), que era necessária para a realização de um voo nas condições daquele dia, que contavam com nuvens baixas durante toda a rota.

O Piper de matrícula PT-KLO também não estava homologado para voos IFR e, inclusive, o CENIPA apurou que um dos instrumentos que seriam necessários para este tipo de voo, o horizonte artificial, estava com “discrepâncias a ponto de inviabilizar a sua utilização em uma situação extrema, como a entrada inadvertida da aeronave em condições IFR“.

Sequências de ações e erros

Diante dos fatos apresentados, pode-se afirmar que a aeronave atravessou uma região sob a influência de turbulência e de precipitações de intensidade moderada a forte que, associadas a nuvens TCU (towering cumulus), restringiram a visibilidade e provocaram instabilidade.

Em dado momento, a aeronave teria se desestabilizado pela ação de correntes de ar
ascendentes e descendentes. O piloto, ao buscar uma saída, possivelmente, permitiu que a Velocidade de Manobra (Va), 127mph, fosse ultrapassada. Nesta condição, na tentativa de manter o controle da aeronave, o piloto pode ter reagido com deflexões bruscas nos comandos, o que teria provocado um elevado momento fletor nas asas em razão da ultrapassagem das margens para o fator de carga positivo.

De acordo com o Capítulo 7 do manual, as boas práticas de operação recomendam que se forem encontradas ou esperadas condições de turbulência, a velocidade seja reduzida para Va, a fim de diminuir as cargas estruturais causadas pelas rajadas e deixar uma margem para aumentos inesperados de velocidade, passíveis de ocorrer por efeito de turbulência ou de distrações causadas pelas condições desfavoráveis.

Dessa forma, depreende-se que a falha estrutural experimentada pelo PT-KLO, ainda em voo, foi, possivelmente, induzida pelo piloto, em razão da falta de experiência de voo em condições meteorológicas adversas, associada à ultrapassagem dos limites estruturais
do avião
“, disse o CENIPA.

Conclusões

O CENIPA aponta a uma provável desorientação espacial após concluir os fatos apresentados acima. O órgão também destaca a questão do cantor Gabriel Diniz ter compromissos e como isso poderia ter afetado o processo decisório do piloto, mesmo contando com um outro piloto ao lado, que não exercia função a bordo:

A conhecida relação de amizade entre o piloto em comando e o passageiro, que ocupava o assento dianteiro direito, aliado ao transporte de um segundo passageiro, artista reconhecido nacionalmente, que possuía compromissos familiares em Maceió, pode ter exercido influência sobre a decisão de prosseguir o voo para o destino pretendido, apesar das condições meteorológicas encontradas.

Desse modo, a atenção do piloto pode ter se fixado em contornar as desfavoráveis condições meteorológicas, sob as quais não estava habilitado a operar, sem se atentar para os limites de velocidade da aeronave e desconsiderando outras opções viáveis e até mais seguras para a situação vivenciada”, concluiu o CENIPA.

Por fim o CENIPA aponta que os fatores contribuintes foram as condições meteorológicas adversas, a atitude do piloto, indisciplina de voo, julgamento de pilotagem, planejamento de voo e processo decisório.

Dentre as recomendações emitidas estão a que o Aeroclube de Alagoas seja criterioso ao liberar as aeronaves, que reforce para os alunos e membros que as regras de voos visuais devem ser seguidas de maneira rígida. O relatório final esta disponível abaixo ou clicando neste link.

Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagens pela Avianca Brasil e Azul Linhas Aéreas. #GoBroncos #GoBeach #2A