Piloto errou no impacto do avião SD-330 gravado em vídeo, aponta relatório final

O órgão de investigação de acidentes NTSB dos Estados Unidos divulgou ontem (27) seu relatório final a respeito da queda do avião Short SD-330, que foi filmado atingindo, praticamente de lado, a pista do aeroporto de Charleston.

Acidente Short SD-330 Cherleston Pista danificada
Pista danificada pelo forte impacto

O avião turboélice de carga, de matrícula N334AC, operava o voo 2Q-1260 de Louisville para Charleston em nome da UPS, em maio de 2017, com 2 tripulantes, sendo o comandante um homem e a primeiro-oficial (co-piloto) uma mulher.

O piloto executou o procedimento VOR-A para aproximação final na pista 05 do Yeager Airport, mas a aeronave atingiu a pista com a asa esquerda e desceu pelo terreno à esquerda da pista localizada no topo de uma colina, terminando destruída. O tempo não era ruim, mas havia uma cobertura de nuvens a baixa altura.

O impacto foi tão forte que a pista ficou com profundas marcas no local e precisou ser reparada para retorno das operações.

Em 5 de junho de 2018, foram publicados vídeos de vigilância que capturaram o momento do acidente.

Ainda em 2018, durante a investigação, o NTSB divulgou um boletim contendo mensagens de texto SMS que a co-piloto trocou com suas amigas, um trecho destacando bastante a atmosfera no cockpit:

17/01/2017 23:24:56 O capitão está dormindo. Vou precisar que você me mantenha entretido pelo resto do voo.

Amiga: 17/01/2017 23:26:24 Espere, espere, espere. Há um piloto e um copiloto, e agora o piloto está dormindo e o copiloto está mandando mensagens. É isso mesmo?

17/01/2017 23:27:09 Sim

A co-piloto ainda sugeriu às amigas que o comandante – com quem ela já havia voado anteriormente – era excelente em voar VFR (voo visual), no entanto ela tinha preocupações com as habilidades de voo IFR (instrumento em condição de visibilidade ruim).

Uma testemunha de solo informou que viu a aeronave sobrevoando logo abaixo das nuvens, mas só percebeu mais tarde que aquela tinha sido a aeronave do acidente.

O NTSB também divulgou um estudo / análise do vídeo sugerindo que, instantes antes do impacto, a aeronave descia a uma alta razão de 2309 pés por minuto com velocidade de 92 +/- 4 nós sobre o solo, com uma inclinação lateral de até 42 graus para a esquerda e um ângulo de inclinação de nariz de 14 graus para baixo.

A base de nuvens foi estimada em 683 pés +/- 60 pés, com base no vídeo.

Por fim, nesta sexta-feira, 27 de setembro de 2019, o NTSB divulgou seu relatório final, concluindo que a causa provável do acidente foi:

a decisão inadequada da tripulação de voo de conduzir uma aproximação em círculo contrário aos procedimentos operacionais padrões da companhia aérea (POP) e a razão excessiva de descida e manobras do comandante durante a aproximação, o que levou ao contato inadvertido e descontrolado com o solo.

Contribuiu para o acidente a falta de um programa formal de segurança e supervisão do companhia aérea para avaliar perigos e conformidade com o POP, e monitorar pilotos com problemas de desempenho anteriores.

O comandante de 47 anos, com 4.368 horas totais de voo e 1.094 horas no modelo, era o piloto em comando, e a primeiro-oficial de 33 anos, com 652 horas totais e 333 horas no modelo, auxiliava o piloto. Ambos faleceram.

O NTSB descreveu a sequência de eventos da seguinte forma:

Por volta de 06:46, o primeiro oficial entrou em contato com a torre, declarando inicialmente que o voo estava em uma abordagem visual e depois se corrigiu para indicar a abordagem VOR-A. O controlador da torre reconheceu essa transmissão e forneceu informações sobre o vento com base em sua tela de leitura direta, indicando vento de 200º e velocidade de 5 nós, depois liberou o voo para pousar na pista 5.

Às 06:47:29, quando o avião estava a 2.200 pés e a cerca de 18 km da pista, o controlador da torre emitiu um alerta de baixa altitude para a tripulação, em resposta a um alarme visual e auditivo automatizado na torre. O primeiro oficial respondeu que a altitude do avião mostrava 2.200 pés e que eles estavam “descendo” para 1.600 pés, o que era consistente com as informações do radar – as aeronaves equipadas com DME, como o avião de acidente, podem descer para um uma altitude de decisão de 1.600 pés (em relação ao nível do mar) depois de cruzar o segundo waypoint da abordagem VOR-A; o avião ainda não havia atingido o waypont no momento.

O controlador da torre respondeu que o alarme pode ter sido falsamente acionado pela taxa de descida do avião, que o estudo de desempenho de radar do National Transportation Safety Board (NTSB) sugere que estava entre 1.300 e 2.000 pés por minuto. Nenhuma comunicação adicional ocorreu entre o controlador e a tripulação de voo do acidente.

Às 06:48:25, os dados do radar indicaram que o avião atingiu uma altitude de 1.600 pés e nivelou-se cerca de 3 km antes do waypoint.

Às 06:50:18, os dados do radar indicavam que o avião começou uma descida de 1.600 pés a uma velocidade calibrada de 124 nós, a cerca de 0,5 km a oeste do limiar deslocado da pista 5. O estudo de desempenho do radar do NTSB calculou a taxa de descida do avião em cerca de 2.500 pés por minuto durante a aproximação final à pista.

As câmeras de segurança próximas capturaram a aproximação final do avião e a descida para a pista 5, uma vez que emergiu da base de nuvens a cerca de 1.600 pés. Uma testemunha ocular do solo, também piloto, confirmou que o avião estava “abraçando as bases” a menos de 1,6 km a oeste do aeroporto.

Os estudos de desempenho de vídeo e radar e as marcas na pista indicam que o avião cruzou a lateral da pista 05 em uma grande inclinação de asas para a esquerda de até 42º. A taxa de descida foi reduzida para cerca de 600 pés por minuto imediatamente antes do impacto.

Às 06:50:47, o avião impactou a linha central da pista 5 em uma inclinação à esquerda de 22º e uma atitude de 5º de nariz para baixo, com indicações de inclinação crescente, a uma velocidade no ar de cerca de 92 nós e na direção norte-nordeste.

As informações em vídeo e as marcas eram consistentes com a ponta da asa esquerda do avião atingindo o pavimento primeiro, seguida pelo trem de pouso principal esquerdo e pela hélice esquerda. A fuselagem impactou o pavimento e a asa esquerda se separou do avião durante a sequência do impacto. O avião deslizou do lado esquerdo da pista pela área de segurança da grama e desceu uma colina por entre as árvores, parando cerca de 380 pés à esquerda da linha central da pista e 85 pés abaixo da elevação da pista.

O trajetória de voo marcada no mapa a seguir mostra que o piloto provavelmente tentava corrigir o alinhamento com a pista, já que havia feito a aproximação fora do eixo. Veja na imagem a posição da pista no canto direito e a linha vermelha do trajeto da aeronave.

Acidente Short SD-330 Cherleston Trajetória

O NTSB informou que “O avião não estava equipado com um CVR (gravador de voz) ou FDR (gravador de dados de voo), e nem era necessário tê-los”, tendo a análise sido executada primordialmente pelas imagens e informações coletadas.

Murilo Basseto

Formado em Engenharia, foi um dos líderes do Urubus Aerodesign da Unicamp e um dos responsáveis por alçar o grupo à elite mundial da engenharia aeronáutica universitária. Atualmente é Editor-Chefe do AEROIN.